Propostas em diferentes frentes, apoiadas por lideranças do bolsonarismo, miraram alterações em regras sobre o tema no Legislativo, Executivo e no Conselho Federal de Medicina Manifestação na Av. Paulista contra o projeto que trata do aborto — Foto: Edilson Dantas / O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 03/06/2026 - 22:32 Congresso Brasileiro Revoga Diretrizes do Conanda sobre Aborto Legal para Menores de 14 Anos O Congresso brasileiro derrubou diretrizes do Conanda que facilitavam o acesso ao aborto legal para menores de 14 anos, intensificando a ofensiva contra o direito já garantido por lei. A medida, apoiada por lideranças bolsonaristas, ameaça dificultar o acesso ao procedimento em casos de estupro, risco à vida da gestante e anencefalia fetal. O Conanda estuda recorrer ao STF para reverter a decisão. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A decisão do Congresso de derrubar a resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) com diretrizes para aborto legal em casos de menores de 14 anos se soma a uma série de medidas recentes que buscaram dificultar ou impedir o acesso a esse direito em casos permitidos pela legislação. Antes do projeto aprovado na terça-feira no Senado, que deve ser alvo de contestação no Judiciário, propostas em diferentes frentes, apoiadas por lideranças do bolsonarismo, miraram alterações em regras e leis sobre o tema no âmbito do Legislativo, Executivo e no Conselho Federal de Medicina (CFM). Parte delas acabou revogada. No Brasil, há três situações em que o aborto é autorizado: gestações decorrentes de estupro, quando há risco à vida da gestante e no caso de anencefalia fetal. Como relações sexuais com menores de 14 anos são consideradas, pela lei, estupro de vulnerável, o aborto é um direito a grávidas dessa idade. Alvo da investida mais recente, a resolução aprovada em dezembro de 2024 pelo Conanda orienta serviços no atendimento de crianças e adolescentes, vítimas de violência sexual, facilitando o acesso ao procedimento. A norma não criou novos direitos, e segue o que já era assegurado pela Constituição Federal, Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), Código Penal e normativas do SUS, explica a presidente do Conanda, Deila Martins. O conselho agora estuda acionar o Supremo Tribunal Federal (STF) para derrubar a suspensão das diretrizes. — O projeto desmonta toda a orientação técnica que assegurava acesso sem burocracia e sem barreiras a crianças e adolescentes, então gera insegurança institucional. Traz prejuízos significativos no atendimento à vítima de maneira humanizada e na garantia de direitos — afirma Deila Martins, que teme até o não cumprimento do direito. — O projeto pode gerar interpretações diferentes da lei em estados e municípios, colocando crianças em situação maior de vulnerabilidade. Dados do último Anuário Brasileiro de Segurança Pública reforçam que crianças e adolescentes são as principais vítimas de estupro no país. Em 2024, 66% dos 87.545 dos casos registrados ocorreram dentro de casa, e 77% das vítimas tinham menos de 14 anos. O texto revogado orienta, por exemplo, a prioridade do atendimento independentemente da existência de um Boletim de Ocorrência (BO) sobre o estupro. Apesar da lei não exigir o BO, esse “requisito” bem como “autorização judicial” são cobrados em muitas unidades. Outro ponto contestado pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF), relatora do texto no Senado, é a possibilidade, indicada pela resolução, de os pais ou responsáveis legais não participarem do processo quando houver denúncias ou indícios de violência doméstica em casa. A resolução já havia sido alvo de um mandado de segurança da senadora logo após sua aprovação, por supostamente extrapolar a função regulamentar do conselho, mas a Justiça autorizou sua publicação. O Conanda teme o aumento de casos como o da adolescente que não conseguiu realizar o procedimento em seu estado no Espírito Santo, e precisou ir até Pernambuco, em 2020. Na época, as informações foram vazadas e grupos religiosos e conservadores realizaram protestos na porta do hospital. O cenário no Brasil — Foto: Editoria de Arte Proposta em tramitação Esse tipo de ação vem encontrando eco no Congresso e no CFM. Em 2024, o deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) chegou a apresentar um projeto de lei que equipara o aborto após 22 semanas de gestação a um homicídio simples, inclusive em casos de estupro. A Câmara aprovou o regime de urgência, mas o projeto não foi votado após protestos pelo país. No mesmo ano, o CFM baixou uma resolução para impedir o uso da chamada assistolia fetal em gestações acima de 22 semanas decorrentes de estupro. Esse método é recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em casos de gestação avançada, a fim de proteger a gestante. Após uma ação do PSOL, o ministro Alexandre de Moraes suspendeu a resolução, mas o caso segue em julgamento. A proibição da assistolia fetal é pauta de pelo menos dois PLS no Congresso. Em 2020, o Ministério da Saúde, na gestão de Jair Bolsonaro, publicou portarias que colocavam empecilhos ao serviço, exigindo que médicos acionassem a polícia. As revogações dessas portarias foram o primeiro ato da gestão da ex-ministra Nísia Trindade, em 2023. No âmbito municipal, a Prefeitura de São Paulo suspendeu, em dezembro de 2023, o serviço de aborto legal no Hospital e Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, referência nacional no atendimento a vítimas de violência sexual. A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou que a medida fazia parte de uma reorganização da rede e que os procedimentos continuariam disponíveis em outras unidades, mas a Justiça determinou o retorno do serviço. Iniciativas locais Nos estados, o tema também entrou na mira de parlamentares. O Mapa do Aborto Legal, da ONG Artigo 19, contabilizou 102 proposições estaduais e 91 municipais sobre o tema entre 2019 e 2024. Do total, 40% buscam obstruir o acesso ao aborto. Como mostrou o GLOBO, em São Paulo, o vereador Lucas Pavanato (PL) protocolou seis propostas sobre o assunto. Uma delas torna obrigatória a apresentação de boletim de ocorrência para a realização do aborto em caso de estupro. Outro projeto prevê a afixação de cartazes em hospitais com informações sobre possíveis “sequelas físicas e psicológicas” do aborto legal. A ginecologista e obstetra Helena Paro, coordenadora do comitê de aborto seguro da Federação Internacional de Obstetras (Figo), avalia que casos recentes midiáticos “acenderam a ofensiva dos grupos antidireitos”. Além do episódio no Espírito Santo, ela destaca o da criança de 11 anos de Santa Catarina que, em 2022, foi questionada por uma juíza se ela “suportaria ficar mais um pouquinho?” com a sua gravidez de risco, a fim de evitar o aborto: — A resolução é inovadora, porque buscava resolver um vácuo assistencial. A gente tem pouco mais de 100 serviços que realizam em torno de 3.000 abortos legais por ano. Esse é um número que não chega nem a 10% da estimativa de números de gravidezes decorrentes de estupro no Brasil por ano. Escalada contra o aborto legal Portarias do Ministério da Saúde no governo Bolsonaro (2020): as portarias 2.282/2020 e 2.561/2020 tornaram obrigatória a notificação à autoridade policial por médicos e profissionais de saúde nos casos em que houvesse indícios de estupro. As medidas foram revogadas em 2023, no início do governo Lula. Suspensão do aborto legal em São Paulo (2023): a prefeitura de São Paulo suspendeu, em dezembro de 2023, o aborto legal no Hospital e Maternidade Vila Nova Cachoeirinha, como parte de uma reorganização da rede, mas a justiça determinou a volta do serviço.Resolução do CFM sobre assistolia fetal (2024): a resolução 2.378/2024 do CFM proibiu médicos de realizar a assistolia fetal - método usado para evitar riscos à gestante - em gestações acima de 22 semanas decorrentes de estupro. O ministro Alexandre de Moraes suspendeu a resolução, mas o caso segue em julgamento. PL da gravidez infantil (junho de 2024): o PL 1.904/2024, do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), equipara aborto após 22 semanas de gestação a um homicídio simples, inclusive em casos de estupro. A Câmara aprovou o regime de urgência, mas o projeto não foi votado após protestos. (*Estagiária sob supervisão de Alfredo Mergulhão)
Derrubada de norma sobre aborto legal para menores amplia ofensiva contra direito garantido em lei
Propostas em diferentes frentes, apoiadas por lideranças do bolsonarismo, miraram alterações em regras sobre o tema no Legislativo, Executivo e no Conselho Federal de Medicina















