Brasil tem de negociar nas duas esferas: técnica e políticaThiago de Aragão, da Arko Advice, fala sobre a pressão dos EUA com novas tarifas e decretação de organizações terroristas sobre o Brasil. Crédito: EstadãoGerando resumoPara sobreviver no Brasil, o empresário precisa ser resiliente. Os mais antigos tiveram de driblar a hiperinflação e uma infinidade de planos econômicos fracassados. Depois do Plano Real, os problemas passaram a ser principalmente o vai e vem (muito mais vai do que vem) dos impostos, a burocracia e as taxas de juros invariavelmente exorbitantes, que inibem o investimento. E, de um ano para cá, pelo menos para quem exporta, uma nova variável entrou nessa conta: a instabilidade do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.PUBLICIDADENa noite desta terça-feira, 2, o governo americano anunciou uma nova tarifa de 12,5% sobre produtos brasileiros — outros 58 países e a União Europeia também foram afetados. Na segunda-feira, 1.º, uma outra tarifa, de 25%, também havia sido anunciada (essa só para o Brasil). No ano passado, outras tarifas, de 10% e 40%, também haviam sido impostas, mas o governo americano acabou voltando atrás — seja por conta própria, seja por decisões judiciais.Mas uma coisa, de certa forma, surpreende nesse processo: mesmo com as barreiras impostas pelos EUA (o segundo maior mercado para os produtos brasileiros, atrás da China), as exportações totais do Brasil cresceram no ano passado. As vendas externas somaram US$ 348,7 bilhões, um aumento de 3,5% em relação ao número de 2024. Foi o maior patamar já registrado no País. Exportações brasileiras cresceram 3,5% no ano passado Foto: Anderson Coelho/EstadãoAs vendas para os EUA, como era de se esperar, caíram 6,6%. Mas foram amplamente cobertas pelo aumento das exportações para a China (6%) e para a Argentina (31,4%). Esses três países são os principais parceiros comerciais do Brasil.PublicidadeO que fica claro nesse cenário é a importância de o Brasil buscar diversificar mercados para seus produtos. Quando se depende demais de poucos destinos, qualquer soluço pode provocar estragos consideráveis. Um passo importante nessa diversificação foi dado com o fechamento do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, após mais de 25 anos de negociações. Esse tratado começou a vigorar no dia 1.º de maio (ainda de forma provisória) e zerou as tarifas para mais de 5 mil produtos brasileiros, inicialmente. Para outros produtos, as tarifas cairão de forma escalonada, em prazos que podem chegar a 15 anos.Também avançaram, nas últimas semanas, as negociações para o fechamento de um acordo de livre-comércio entre o Mercosul e o Canadá. Essas conversas, que estavam em banho-maria, foram retomadas com mais intensidade a partir de outubro do ano passado, em meio à guerra tarifária promovida por Trump.Leia tambémMinerais críticos tornam o Brasil peça-chave no embate entre EUA e China, diz Thiago de AragãoPor que o Pix brasileiro incomoda tanto os Estados Unidos?O agronegócio é um dos setores que mais têm se esforçado para diversificar suas exportações. No ano passado, segundo o Ministério da Agricultura, foram abertos 58 novos destinos para os produtos agrícolas. No total, US$ 3,4 bilhões de faturamento foram adicionados à balança comercial brasileira a partir dessas aberturas, pelas estimativas do ministério.PublicidadeAlém do esforço para diversificar seus clientes mundo afora, ainda poderia ajudar nesse quadro se o Brasil conseguisse também qualificar os produtos que vende, com um pouco mais de valor agregado — o que melhoraria a receita que entra no País. Mas isso passa por mais investimentos, que, por sua vez, dependem muito de melhorias estruturais na economia que, pelo jeito, não estão no radar. Mesmo assim, é possível dizer que a economia brasileira tem conseguido sobreviver ao caos tarifário que Donald Trump insiste em impor ao mundo, e do qual parece não querer recuar.