Especialistas apontam mistura de temas e falta de embasamento no texto do USTR. Acesso ao etanol seria alternativa a oferecer Para especialistas, etanol pode ser alternativa para abrir negociação — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 02/06/2026 - 22:42 EUA pressionam Brasil em negociações comerciais com alegações controversas Especialistas apontam que as alegações comerciais dos EUA contra o Brasil são vistas como pressão para expandir negociações, apesar de mistura de temas e dados desatualizados. O governo brasileiro considera oferecer concessões em etanol, enquanto o Pix é defendido como não discriminatório. Analistas destacam que algumas alegações são infundadas e difíceis de negociar. O processo inclui consultas públicas até julho de 2026. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO As alegações que compõem a investigação comercial feita pelo governo americano contra o Brasil foram vistas por especialistas como instrumento de pressão para forçar o governo brasileiro a ampliar ofertas na mesa de negociação. O problema, apontam, é não só a diversidade de temas, como a falta de embasamento de alguns tópicos, ao mesclar itens fora da alçada do Executivo, como decisões do Judiciário no âmbito da Lava-Jato, com acusações com dados defasados, como a de aumento do desmatamento. A combinação dificulta a tarefa do Brasil de negociar. A alternativa, dizem, seria acenar com alguma concessão no etanol. Para Bruna Santos, diretora do Brazil Program no Inter-American Dialogue, centro de estudos focado em Brasil, a calibragem da proposta reforça a leitura. A tarifa foi proposta em 25%, bem abaixo dos 50% anteriores, e já chegou com isenções a produtos que afetam o bolso do americano. Bruna lembra que o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, disse que a medida foi “cheia de nuances”: — Os EUA estão tentando mostrar que não se trata de pancada ampla, mas pressão desenhada para ampliar a mesa de negociação, criando custos para o Brasil, para ele vir à mesa de negociação querendo discutir temas mais duros, como o Pix e etanol. Ela lembra, porém, que o Pix é infraestrutura de tecnologia pública e não pode ser sancionado pelo governo americano. Por outro lado, o governo americano pode buscar retaliar empresas de serviços financeiros que querem entrar nos EUA ou tentar forçar o governo brasileiro a entrar num acordo de revisão de exigências que o Banco Central faz às instituições financeiras. Para Lia Valls, pesquisadora associada ao Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), boa parte das alegações sequer poderia ser negociada pelo Executivo. A pirataria pode ser respondida com reforço de fiscalização, mas corrupção é matéria do Judiciário. A citação ao desmatamento, acrescenta, causa estranheza por vir de um governo que retirou os EUA do Acordo de Paris. Dentre a lista de práticas supostamente desleais citadas pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), a especialista diz que a única que o governo brasileiro pode negociar é a de acesso ao mercado de etanol por empresas americanas: — Pode ter negociação sobre o que podemos oferecer mais, em abertura de mercado para empresas americanas. Mas, se as demais alegações são estapafúrdias, a margem de negociação é quase zero. — Trump é imprevisível. Se cismar que o Pix é ruim, não tem muito o que fazer. Para Otaviano Canuto, pesquisador do Centro de Políticas para o Novo Sul e ex-vice-presidente do Banco Mundial, incluir temas como o desmatamento, que nunca foi preocupação de Trump — ou nos quais não há espaço para o Brasil recuar, como o Pix, é sinal de que não adiantará negociar e será difícil fugir da sobretaxa. — Todo o processo da seção 301 era bola cantada — disse Canuto, lembrando que, em fevereiro, quando a Suprema Corte dos EUA decidiu que a base legal de boa parte do tarifaço era inconstitucional, Trump declarou que a Casa Branca buscaria outros caminhos. Assim, completou Canuto, as investigações “são desculpas para repor o tarifaço”. Os próximos passos O parecer do USTR abre uma etapa de consulta pública antes de uma decisão final sobre a adoção das sanções comerciais. O prazo legal para conclusão do processo termina em 15 de julho. Até 22 de junho de 2026: Prazo máximo de envio de solicitações de comparecimento à audiência pública, acompanhadas de resumo do depoimento.Até 1º de julho de 2026: Prazo para o envio de comentários por escrito sobre as medidas propostas pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR).6 de julho de 2026: Realização da audiência pública oficial pelo USTR para debater as ações.15 de julho de 2026: Prazo limite legal para a definição e aplicação das medidas corretivas contra o Brasil.