O Banco Central está tentando obter do Supremo Tribunal Federal (STF) uma decisão vinculadora que barre a esperada enxurrada de ações judiciais de fintechs que terão seus pedidos de licença negados, dentro dos esforços para sanear e fortalecer o sistema de pagamentos contra os ataques do crime organizado. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, alertou para esse risco em dois depoimentos recentes no Congresso, um ocorrido em abril na CPI do Crime Organizado e outro em fins de maio na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. O BC, segundo ele, enfrenta dois tipos de desafio: primeiro, a falta de recursos humanos e de instrumentos legais para retirar do sistema cerca de uma centena de instituições de pagamento que não serão capazes de cumprir as novas exigências de capital e de governança adotadas pela autoridade monetária. O segundo ponto é exatamente na frente jurídica. “Pode ser que as instituições entrem com recursos nos diversos tribunais existentes na federação”, disse, na CPI do Crime Organizado. “Se a gente não tiver um entendimento pacificado, isso pode virar um caos do ponto de vista jurídico.” Em março, Galípolo teve uma reunião com o presidente do Supremo, Edson Fachin, na qual o problema foi discutido, em conjunto com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante. Sobre a escassez de recursos financeiros e humanos para lidar com a situação, Galípolo vem repetindo que poderão faltar liquidantes habilitados no mercado para lidar com as intervenções que podem ocorrer. Para ampliar seu arsenal, depende da aprovação da PEC da autonomia financeira e da nova Lei de Resolução Bancária. Em 2020, o Banco Central havia adotado uma regra que permitia que instituições de pagamento se plugassem ao sistema do Pix sem uma licença prévia do BC, com o objetivo de ampliar a competição e a inovação no sistema. A intenção era conceder autorização nos anos seguintes, de forma escalonada. No ano passado, porém, uma série de ataques hackers ao sistema de pagamentos — além de uma sequência de operações policiais, como a Carbono Oculto — mostrou que havia infiltração do crime organizado em fintechs. Também ficou claro que muitas fintechs não tinham capital mínimo para bancar os custos que garantem a segurança do sistema. O BC vinha, aos poucos, revendo sua estratégia permissiva ao ingresso das fintechs e, em novembro de 2025, estabeleceu requerimentos mínimos de capital para operar. No caso das instituições de pagamento, o valor passa de R$ 1 milhão para R$ 9,2 milhões de forma gradual, a partir do segundo semestre. O Banco Central também tem decretado a liquidação de fintechs que foram diretamente cooptadas pelo crime organizado ou que tenham sido coniventes. As estimativas do BC são de que 63% das 200 instituições de pagamento fiquem desenquadradas dos requisitos mínimos de capital até a sua plena aplicação no fim de 2028. Muitas delas têm buscado fusões e aquisições para fortalecer seu capital. Mas muitas não devem sobreviver. A regra também abarca outras instituições que têm sido usadas ou vêm sendo vítimas do crime organizado, como Sociedades de Crédito Direto (SCD) e Sociedades de Crédito ao Microempreendedor (SCM). Mais de 80% delas teriam deficiência de capital até a aplicação final da regra. Presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo — Foto: Alexandre Boiczar / Banco Central
BC busca no STF entendimento para evitar enxurrada de ações judiciais de fintechs com licença negada
Liminar obtida pela CorpX é, na visão da autoridade monetária, apenas uma das muitas que deverá enfrentar em tribunais de todo o país










