Inteligência artificial não é mais uma novidade. Nos últimos anos, seu uso como ferramenta de ganho de produtividade ganhou força na hora de resumir reuniões, escrever e-mails, produzir códigos, automatizar atendimentos e acelerar tarefas repetitivas. Mas recorrer à IA para essas tarefas é como usar carro esportivo para passear pelo bairro. Por isso, executivos e especialistas discutem um estágio mais profundo dessa transformação: empresas desenhadas para funcionar em torno da IA. A mudança não é apenas tecnológica. Altera estruturas de trabalho, redefine o papel das lideranças, muda a lógica da vantagem competitiva e leva discussões sobre ética, governança e estratégia para o centro das decisões corporativas. Essa percepção foi debatida durante o Interconnected Brasil 2026, evento promovido pela NTT DATA, que reuniu cerca de 2 mil participantes em São Paulo. A pergunta que organizou as discussões não era mais “como usar IA”, mas o que muda quando uma empresa para de apenas usá-la e passa a operar como ela, com processos, decisões e estrutura redesenhados a partir dessa lógica. Para o futurista Mike Walsh, autor de best-sellers sobre transformação digital, a IA é “um convite para reimaginar o que o mundo poderia parecer”. Ele afirma que um dos maiores erros é enxergá-la somente como uma nova tecnologia. “Viveremos em um mundo com mais agentes de IA do que humanos”, afirmou, acrescentando que eles estarão distribuídos por praticamente todas as atividades econômicas. Walsh disse que a IA é o epicentro da nova revolução industrial, que será marcada não por eficiência, mas pela ampliação da capacidade cognitiva. “A IA não é apenas uma ferramenta para ganho de produtividade, mas um convite para redesenhar a forma como o trabalho, as decisões e o julgamento fluem pelas organizações.” O acesso à tecnologia deixa de ser diferencial; o que importa é a capacidade de configurar melhor os sistemas, integrar inteligência ao negócio e tomar decisões mais sofisticadas. “Duas empresas vão usar os mesmos sistemas de IA. Uma delas vai reduzir custos em 10%, e a outra vai crescer dez vezes”, disse. A discussão ganha relevância em um momento em que a inteligência artificial assume um papel impulsionador na economia. “Ainda em 2026, a inteligência artificial vai impactar a economia mundial em US$ 4,4 trilhões, e 40% dos aplicativos corporativos já vão usar AI no dia a dia”, disse Milena Leal, country manager do Google Cloud Brasil. A virada de chave ocorre na passagem da tecnologia como um complemento à ação humana para o lugar de agente efetivo. “A gente sai do modelo de interação de chatbots, com perguntas e respostas, e passa para modelos de IA agêntica e, posteriormente, IA física”, afirmou Ricardo Mucci, managing director na Cisco Brasil. “Essa grande transformação e vai exigir cada vez mais da gente uma infraestrutura robusta, capaz de suportar essas demandas”. Um dos exemplos mais concretos apresentados no evento foi da RD Saúde, rede de farmácias que opera as bandeiras Raia e Drogasil. A empresa tratou a inteligência artificial como parte de uma transformação operacional mais ampla, e não só como um ganho pontual de produtividade. Esse ponto de virada tecnológico, em parceria com a Redis Brasil, ocorreu durante a Black Friday de 2025. Na ocasião, o tempo de atualização de preços caiu de oito horas para dois minutos, e os canais digitais passaram a representar 30% do faturamento. “A gente ganhou mobilidade. Fazemos mais campanhas e conseguimos ser mais competitivos frente aos concorrentes”, afirmou Thompson Alves da Silva, coordenador de infraestrutura cloud da RD Saúde. Inicialmente, a empresa concentrou o uso de inteligência artificial em três áreas: geração de código, escrita de requisitos e testes automatizados. Em poucos meses, registrou ganhos de produtividade próximos de 40% no volume de entregas. A companhia percebeu, porém, que o avanço da IA agêntica mudava completamente a lógica da operação. A empresa criou então o conceito de squads autônomos, combinando profissionais e agentes sintéticos em funções complementares. Há product managers trabalhando ao lado de agentes responsáveis por escrever histórias, tech leads supervisionando especificações geradas por agentes e desenvolvedores atuando em conjunto com sistemas autônomos. A mudança exigiu adaptação técnica, mas principalmente cultural. “Isso tem um impacto gigante de organização e de gestão da mudança”, afirmou João Carlos Cunha Cordeiro Júnior, diretor de tecnologia e experiência digital da empresa. Produtividade é só o começo Jefferson Anselmo, country managing director da NTT DATA Brasil: "A IA vai criar uma explosão de demanda por soluções complexas, criativas e humanas. Para isso, vamos precisar de mais pessoas" — Foto: Tomás Nascimento Dias / Divulgação A importância da estratégia ajuda a explicar por que parte do mercado começa a abandonar uma visão centrada exclusivamente em eficiência operacional. Para Jefferson Anselmo, country managing director da NTT DATA Brasil, a narrativa predominante de substituição de pessoas pela IA não apenas é limitada, como pode levar empresas a decisões equivocadas. “O valor é criação, inovação, progresso”, afirmou Anselmo. “Eficiência é importante, mas subordinada à criação de valor.” Para ilustrar o argumento, ele utilizou uma analogia histórica. Em 1900, havia 13 milhões de cavalos no mundo. Em 1950, após a popularização da indústria automobilística, o número caiu para 3 milhões. Ao mesmo tempo, existiam 40 milhões de carros, além de toda uma nova cadeia econômica formada ao redor deles. “A IA vai criar uma explosão de demanda por soluções complexas, criativas, sensitivas e humanas. Para isso, vamos precisar de mais pessoas”, afirmou. “Quando eu entro na sala do cliente, eu olho no olho e digo: pode confiar que a gente vai entregar. Não tem IA que substitua isso.” Da prova de conceito ao resultado No momento, muitas companhias ainda tentam descobrir como transformar experimentação em resultado concreto. Cleber Morais, country director da AWS Brasil, apresentou um retrato desse estágio de maturidade: 40% das empresas já implementaram algum tipo de projeto de inteligência artificial, mas apenas 12% efetivamente conseguiram transformar o negócio com a tecnologia. Segundo ele, boa parte das organizações permanece concentrada em aplicações básicas, como chatbots e pequenas automações. “Muitas empresas não têm clareza sobre o que exatamente querem transformar”, afirmou Morais. Como afirmou Suellen Toledo da Matta, gerente setorial da Petrobras, “um dos grandes desafios é extrair valor da tecnologia.” Iniciativas guiadas pelo entusiasmo em torno da tecnologia, mais do que por uma estratégia clara de negócio, podem trazer prejuízo financeiro, ser cancelados – ou ambos. Daniela Griecco, diretora Data & Analytics da NTT DATA Brasil, citou um estudo recente da NTT DATA, que mostrou que 45% dos projetos são abandonados antes mesmo da prova de conceito. A discussão sobre cultura apareceu diversas vezes ao longo do encontro. Para Cleber Morais, da AWS, quando todas as empresas tiverem acesso aos mesmos sistemas, o diferencial competitivo tende a migrar para os aspectos culturais das organizações. Marcelo Braga, presidente da IBM Brasil, foi além e afirmou que a vantagem não estará necessariamente nos modelos públicos de IA, mas nos dados proprietários das empresas. “A melhor IA vai ser a sua. Até hoje, as LLMs foram treinadas com dados públicos. Os dados da sua empresa não fizeram parte desse treinamento.” A qualidade dos dados e as formas de lidar com a falta de qualidade serão decisivas, segundo Eduardo Campos, vice-presidente de tecnologia da Microsoft Brasil. “Se o seu dado é ruim, a sua IA vai ser ruim também”, afirmou. “Os seus dados nunca serão perfeitos. Lidar com a incerteza da melhor maneira será um diferencial competitivo decisivo.” A fronteira humana Mike Walsh, futurista e autor de best-sellers sobre transformação digital: "Há coisas que máquinas simplesmente não podem ou não devem fazer" — Foto: Divulgação Redesenhar as empresas em torno da inteligência artificial significa derrubar paredes entre áreas de competência. Não é de hoje que tecnologia não é um assunto da área de TI. “Questões sobre ética, proteção de dados e transparência da IA estão trazendo outras áreas para a discussão”, afirmou Daniel Botelho de Sousa, CISO da AXIA Energia. “Questões de governança começam a surgir”, disse Campos, da Microsoft Brasil: “Por exemplo: o que fazer com agentes autônomos associados a funcionários que deixam a organização?”. Para Mike Walsh, dar foco e propósito a essa transformação — estabelecer limites éticos, desenhar interações entre humanos e sistemas, construir relações de confiança — é o que torna os líderes humanos mais necessários do que nunca. “Há coisas que máquinas simplesmente não podem ou não devem fazer.” E saber quais são essas coisas pode ser a decisão estratégica mais importante de uma geração de executivos.