Escala 6x1: oposição irá mesmo sustentar a PEC 'pró-liberdade' no Senado?O que se viu na Câmara dos Deputados foi um show de demagogia, de governo e oposição. Crédito: EstadãoVocê sabe quanto vai custar para a sua empresa a hora de trabalho a partir de 2027? A maioria dos empresários que conheço ainda não fez essa conta. E ela precisa ser feita agora, com calma, antes que o prazo force a decisão no improviso. A redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, sem corte de salário, muda uma equação que está no centro do modelo operacional de setores inteiros da economia brasileira. Para empresas que operam seis dias por semana, em turnos que cobrem fins de semana e feriados, essa mudança tem consequência direta na margem antes de qualquer decisão estratégica ser tomada.PUBLICIDADEAnálise do BTG Pactual projeta queda média de 9,5% no Ebitda do varejo sem ação mitigatória, com o varejo farmacêutico sendo o mais afetado, com pressão de 13,6% sobre a margem, seguido pelo vestuário, com 8,8%, varejo de alimentação, com 8,6%, e e-commerce, com 7,6%.Para quem não está acostumado a ler Ebitda: é o lucro da operação antes de impostos e itens financeiros. Quando ele cai 9,5%, significa que, de cada R$ 100 que a empresa ganhava de resultado operacional, passa a ganhar R$ 90,50. Numa rede de farmácias com 500 lojas que gera R$ 800 milhões de Ebitda por ano, são R$ 76 milhões a menos. Esse dinheiro precisa sair de algum lugar: do preço que você paga no produto, da margem do acionista ou do investimento que a empresa deixa de fazer.O fim de semana concentra parte relevante do movimento do varejo farmacêutico Foto: Daniel Teixeira/EstadãoA Raia Drogasil, que opera mais de 3 mil farmácias com atendimento em fins de semana e feriados e cresceu receita líquida acima de 12% em 2025, chega nessa mudança saudável, mas com cobertura operacional que não tem como ser reduzida. Farmácia não fecha no domingo. O sábado e o domingo concentram parte relevante do movimento. Manter essa cobertura com menos horas por pessoa exige contratar mais gente, reorganizar turno ou automatizar parte do atendimento. Nenhuma das três opções é gratuita e nenhuma acontece da noite para o dia.Leia tambémMotta orquestra aprovação de 6x1 em cálculo para eleger pai ao Senado e ganhar marca em gestãoFim da escala 6x1: Quem ganha acima de R$ 21 mil não terá mais controle de jornada; entendaPolítica pública é como vacina: tem de ser testada antes de implementar, diz Pastore sobre 6x1Lembro de sentar com uma empresária, dona de uma rede de drogarias regionais no interior de Minas Gerais, há alguns anos, quando o tema de automação de atendimento ainda parecia distante para o porte dela. Ela resistia ao custo de implementação. Hoje, esse custo seria o investimento que a protegeria exatamente do tipo de pressão que a nova jornada vai trazer. Quem modernizou antes chega a um lugar muito diferente de quem vai modernizar pressionado pelo prazo.PublicidadeA WEG, fabricante de motores elétricos e automação com operação em mais de 135 países e uma das indústrias mais consistentes do Brasil na última década, representa o perfil de empresa que chega nessa transição com vantagem estrutural. Ela já investe pesado em automação de processo como parte do negócio, não como resposta a uma mudança regulatória. Empresas precisariam contratar aproximadamente 10% de funcionários adicionais para manter a carga horária estável caso não consigam compensar com automação. Para a WEG, que automatiza mais do que contrata há anos, esse porcentual é menor. Para a indústria que ainda depende de volume de hora humana para manter produção, é o piso do impacto.Uma distribuidora de materiais de construção com 180 funcionários e operação em três Estados do Sul do Brasil calculou internamente que a mudança representa aumento de R$ 380 mil anuais na folha se optar por manter a cobertura com contratação adicional. Traduzindo para o cotidiano: é como contratar três funcionários a mais para cobrir as horas que deixaram de existir. Se optar por reorganização de turno sem contratar, a entrega nos fins de semana, que representa 28% do faturamento mensal, precisa ser redesenhada do zero. Não existe saída sem custo. Existe escolha sobre qual custo é mais gerenciável no médio prazo.Há uma oportunidade nesse cenário que o empresário mais atento já está mapeando. A nova regra permite que trabalhadores com jornada flexível tenham seus benefícios calculados proporcionalmente às horas efetivamente trabalhadas. Férias, décimo-terceiro e demais direitos seguem a mesma lógica. Para o empresário, isso abre a possibilidade de estruturar equipes com perfis diferentes de dedicação, respeitando a escolha do trabalhador e alinhando custo à entrega real. Quem entender essa flexibilidade antes do mercado vai construir modelos operacionais mais eficientes do que quem ficou olhando apenas para o impacto da redução de horas.O impacto chega ao bolso do consumidor pela mesma cadeia que move qualquer aumento de custo de produção. Uma alta de 6% no preço do supermercado significa R$ 120 a mais por mês numa família que gasta R$ 2 mil em compras. São R$ 1.440 por ano. Para quem já está no limite do orçamento, esse valor não é abstrato. É a escolha entre pagar a internet ou comprar proteína animal na semana. 83,3 milhões de pessoas, ou 50,8% da população adulta brasileira, estavam negativadas em abril de 2026. Para esse grupo, qualquer pressão adicional sobre itens básicos não é ajuste conjuntural. É deterioração real do padrão de vida.Trabalhei com dezenas de empreendedores ao longo da minha trajetória como investidora que chegaram atrasados para mudanças que estavam anunciadas com antecedência. A jornada de 40 horas está anunciada com data. O empresário que usar esse intervalo para mapear processos, reorganizar escalas e entender exatamente onde estão as horas da sua operação vai sair da transição mais eficiente do que entrou. O que esperar a conta chegar para agir vai descobrir que preparação emergencial é mais cara, mais lenta e produz resultado pior do que preparação planejada. Sempre foi assim.Publicidade