Escala 5x2 vai exigir contratações e elevar custos, dizem varejistas. Empreendedores ouvidos pelo GLOBO defendem alguma medida para aliviar encargos O empresário Márcio Ribeiro — Foto: Maria Isabel Oliveira RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 28/05/2026 - 23:02 PEC Reduz Jornada e Pequenos Empresários Pedem Desoneração Fiscal A aprovação da PEC que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, eliminando a escala 6x1, mobilizou pequenos empresários que já preveem desafios na adaptação. A medida exigirá novas contratações, elevando custos, o que gera demanda por desoneração fiscal para mitigar impactos. Enquanto alguns aguardam definições, outros já ajustam escalas, priorizando produtividade e satisfação dos funcionários. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A aprovação na Câmara dos Deputados, na noite de quarta-feira, da proposta de emenda à Constituição (PEC) que reduz a jornada de trabalho semanal de 44 para 40 horas, com duas folgas no período, pondo fim à chamada escala 6x1, reforça a necessidade de os empregadores reverem horários dos funcionários e custos das operações. O texto ainda tem de passar pelo Senado, mas pequenos empresários ouvidos pelo GLOBO já avaliam os possíveis impactos da PEC em seus negócios e como se adaptar. Eles reconhecem que será necessário contratar mais pessoas e se preocupam com o aumento dos encargos — motivo pelo qual defendem algum tipo de compensação, como a desoneração da folha. À espera de definição A X5Music, de instrumentos musicais, tem três lojas e um centro de distribuição em São Paulo, onde trabalham atualmente 52 funcionários. O dono, Márcio Ribeiro, conta que, à exceção da equipe administrativa, todos trabalham na escala 6x1. Ele explica que prefere aguardar um cenário mais definido, na expectativa de possíveis mudanças na PEC pelo Congresso, antes de discutir internamente uma adaptação às novas regras. Márcio Ribeiro vê até problema para os trabalhadores: “Deve impactar as vendas de quem é comissionado” — Foto: Maria Isabel Oliveira Ribeiro diz que, a curto prazo, não pretende reduzir o horário de funcionamento das lojas. A estratégia deve ser reorganizar as escalas e contratar para cobrir os horários vagos. O empresário estima que terá de ampliar o quadro de funcionários entre quatro e cinco pessoas, quase 10% da força de trabalho atual. O impacto nos custos, avalia, pode chegar a 15%. Por isso, ele defende uma proposta de desoneração da folha, para estimular contratações e aliviar os encargos das empresas. Comissão preocupa Sobre a linha de crédito estudada pelo governo, que aposta em maior automação para aliviar os custos das empresas, Ribeiro considera que a medida faz pouco sentido para um negócio intensivo em mão de obra, como o varejo. O empresário também avalia que a mudança pode afetar negativamente parte dos trabalhadores, especialmente aqueles remunerados por comissão: — Acredito que vai ter um impacto negativo para os que já estão empregados. Porque esses funcionários terão um dia a menos de trabalho e dependem de comissão. Isso deve impactar nas vendas diretas de quem é comissionado. Adoção de outra escala? No Rio, o empresário Eduardo Nogueira, de 45 anos, dono de duas franquias de produtos naturais em shopping centers, diz que aguarda a aprovação definitiva da PEC que reduz a jornada semanal de trabalho para começar a planejar mudanças concretas no negócio. Atualmente, as duas lojas operam na escala 6x1 e contam, ao todo, com cinco funcionários contratados em regime CLT. Eduardo Nogueira, de 45 anos, dono de duas franquias de produtos naturais em shopping centers — Foto: Acervo pessoal Segundo ele, as conversas sobre possíveis adaptações ainda estão em estágio inicial e têm ocorrido principalmente com o contador, já que ainda há dúvidas sobre regras sindicais e sobre como a medida seria aplicada a lojas de shopping. Nogueira afirma que, caso a mudança entre em vigor, será necessário contratar mais funcionários para manter o funcionamento das unidades dentro do horário exigido pelos centros comerciais: — Certamente eu teria que contratar mais um funcionário para cada loja. Ainda não sei se manteria a escala atual ou se adotaria a 12x36. Já procurei saber sobre essa possibilidade, e ela não é proibida. O problema é que aumentaria o custo da operação. Horário não pode mudar O empresário não acha possível reduzir o horário de funcionamento das lojas, já que precisa seguir as regras dos shoppings. Sobre a linha de crédito que o governo estuda lançar para ajudar empresas na adaptação à nova jornada, ele avalia que a medida teria pouco efeito em negócios como o dele, que dependem mais de trabalho operacional do que de automação. — Já procurei linhas de crédito outras vezes e as taxas de juros nunca são muito convidativas — afirma. Apesar de reconhecer que a escala 6x1 é desgastante para os trabalhadores, Nogueira diz que o custo da mudança não deveria recair apenas sobre pequenos empresários, e defende algum tipo de compensação tributária: — Acho que deveria existir algum incentivo, como redução de impostos, para ajudar na contratação de mais funcionários sem diminuir tanto a margem de rentabilidade. ‘São mais felizes’ Ana Lígia Silva, dona de uma franquia do JAH do Açaí em São Paulo, já implementou a escala 5x2 ao contratar um funcionário para gerenciar a unidade, enquanto quatro colaboradores atuam no modelo 12x36. Em seu outro estabelecimento, a jornada de dois funcionários foi reduzida de 6x1 para 5x2 há cerca de um mês. Essa mudança, segundo ela, era um objetivo pessoal, independentemente da discussão em torno do projeto. Ana Lígia Silva, dona de uma franquia do JAH do Açaí em São Paulo, já implementou a escala 5x2 — Foto: Maria Isabel Oliveira — A produtividade aumentou, sem sombra de dúvida. As pessoas descansam mais e são mais felizes. Para quem trabalha diretamente com atendimento ao público, o humor precisa estar bom — conta Ana Lígia. A empresária reconhece que o custo da operação aumentou, mas afirma que o ganho em produtividade e engajamento compensou a mudança. No caso de sua loja, a redução da jornada veio acompanhada de outras estratégias para alavancar os resultados, como a inclusão de um serviço de cafeteria para impulsionar as vendas no inverno e um novo programa de fidelidade. Ana Lígia conta que a meta inicial era que o programa chegasse a 30% das vendas, mas os funcionários entregaram o dobro nas primeiras semanas.