Gerando resumoJaquelyne Queiroz e Jorge David Medeiros se mudaram para a Bolívia em julho de 2021. Estudantes de medicina brasileiros, eles moram em Cochabamba, a terceira maior cidade do país, e lá também administram um pequeno café brasileiro. PUBLICIDADEHá 15 dias, Jaquelyne e Jorge não recebem nenhum produto de seus fornecedores. As prateleiras do supermercado estão se esvaziando. No açougue do bairro, a vitrine está vazia. Segundo eles, o quilo do frango já chega a custar dez vezes o valor normal.A Bolívia vive hoje uma de suas piores crises em décadas. Bloqueios de estradas paralisam o país há mais de um mês, isolando a capital administrativa La Paz, impedindo o transporte de alimentos, combustível e insumos hospitalares. Pessoas participam de um protesto exigindo o fim dos bloqueios durante manifestações contra o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, em La Paz, em 26 de maio de 2026 Foto: Jorge Bernal / AFPQuatro pessoas morreram - três por falta de atendimento médico e uma durante uma operação policial. O país registra 54 pontos de bloqueio, a maioria concentrada no entorno de La Paz. E o presidente Rodrigo Paz, o primeiro mandatário de direita eleito em 20 anos, enfrenta o maior teste de seus apenas seis meses de governo.PublicidadeNo entanto, especialistas ouvidos pelo Estadão explicam que a crise boliviana não é fruto do governo de Paz. Ela é o resultado de décadas de má gestão das reservas internacionais, dependência excessiva do gás natural e desequilíbrios fiscais acumulados pelos governos anteriores em um cenário de forte resistência social. Para eles, as mobilizações mesclam descontentamento genuíno com instrumentalização política deliberada, especialmente por parte do ex-presidente Evo Morales, que enfrenta processos judiciais e tenta usar os bloqueios para reabrir seu caminho ao poder.Leia tambémPresidente da Bolívia diz que reduzirá o próprio salário pela metade em meio a protestosEleição na Bolívia sela retorno da direita após 20 anos e em meio à pior crise econômica do séculoNovo presidente da Bolívia acelera desmonte do legado de Evo em menos de 100 diasPor quase duas décadas, a Bolívia foi governada pelo Movimento para o Socialismo (MAS), de esquerda radical, liderado por Evo Morales e, depois, por Luis Arce. Durante o boom das commodities, especialmente o gás natural, o governo manteve amplos subsídios, reduziu a pobreza e incluiu politicamente povos indígenas e trabalhadores rurais historicamente marginalizados.Mas com o declínio da produção de gás, as reservas internacionais foram se esgotando, e o país acumulou déficits fiscais crescentes. Quando Rodrigo Paz assumiu, em novembro do ano passado, ele herdou uma economia em estado crítico.Publicidade“Tanto Morales quanto Arce fizeram uso irresponsável das reservas internacionais e, à medida que as esgotavam, recorreram à dívida pública, absorvendo parte dos fundos de pensão e contraindo empréstimos externos. Muitos de nós conseguimos antecipar o problema e o tornamos público, mas o governo parecia determinado a ignorar todos os alertas”, explica Roberto Laserna, pesquisador social e diretor do think tank Ceres.O ex-presidente boliviano Evo Morales em 19 de fevereiro de 2026 Foto: David FLORES / AFPManifestantes antigovernamentais seguram cartazes com os dizeres em espanhol "Renuncie, Rodrigo" Foto: AP / Juan KaritaO economista Fernando Romero, ex-presidente da Associação Departamental de Economistas de Tarija, reforça que a escassez de dólares não é um fenômeno recente. Segundo ele, a Bolívia não diversificou sua economia de exportação durante os anos de abundância e, com a queda na produção de gás, as pressões sobre as reservas se tornaram insustentáveis. “A crise não surgiu em poucos meses, ela é o resultado de problemas que se acumularam ao longo de muitos anos e finalmente explodiram em um contexto político e internacional mais complexo.”Fernando Romero, economista, pesquisador e acadêmicoSubsídios, combustível e exclusãoAo assumir o poder, Paz adotou medidas de austeridade. Ele retirou o subsídio ao combustível, que custava bilhões de dólares anuais aos cofres públicos, e alinhou sua política externa a governos conservadores, como os de Donald Trump, Javier Milei e José Antonio Kast. PUBLICIDADEPaz também preencheu seu gabinete majoritariamente com líderes empresariais, revertendo a política evista de privilegiar povos indígenas e setores trabalhistas em cargos importantes. Ele aprovou uma lei de classificação de terras que, segundo críticos, abriria territórios à aquisição corporativa - o que depois revogou sob pressão.Para os bolivianos mais pobres, a percepção de abandono foi imediata. Os distúrbios eclodiram inicialmente por queixas específicas: professores exigindo reajustes salariais, trabalhadores de transporte protestando contra combustível de baixa qualidade, grupos indígenas contra a lei fundiária. Mas, com o tempo, essas pautas fragmentadas convergiram para uma única demanda: a renúncia do presidente.O presidente da Bolívia, Rodrigo Paz Foto: Aizar Raldes/AFPA jornalista boliviana Fabiola Chambi, especialista no conflito social, observa que essa unificação não foi espontânea. “Estamos vivendo uma crise múltipla, profunda e prolongada. Não estamos falando apenas da questão econômica, estamos falando também de questões estruturais, sociais, de identidade. É uma sociedade altamente polarizada, com feridas que não cicatrizaram desde 2019.” Paradoxo das urnasO conflito carrega uma contradição central: boa parte dos manifestantes votou no próprio presidente que hoje exige a renúncia. Desiludidos com 20 anos de MAS e temerosos de uma vitória da direita radical, muitos eleitores de esquerda e de centro apoiaram Paz no segundo turno. Laserna aponta que os manifestantes não reagem tanto a medidas concretas, mas a um sentimento de exclusão simbólica. Para ele, há nas mobilizações um componente histórico profundo: a memória de décadas em que povos indígenas não tinham direito a voto, a hospitais ou à educação, e que o governo Morales reverteu. Publicidade“Esse sentimento é alimentado por líderes que interpretam tudo em termos de ressentimento étnico, forjando uma identidade coletiva de vitimização e vingança. Isso é muito perigoso, porque é possível fazer acordos sobre o futuro, mas o passado não pode ser desfeito.”Manifestantes entram em confronto com a polícia antimotim durante um protesto contra o presidente Rodrigo Paz em La Paz, em 25 de maio de 2026 Foto: Aizar RALDES / AFPRomero observa que, em contextos de crise polarizada, há uma tendência a associar automaticamente as dificuldades econômicas à orientação política do governo atual, mesmo quando os problemas estruturais já se acumulavam há anos sob gestões anteriores.La Paz sitiadaPara quem vive em La Paz, o cenário é dramático. Fabiola Chambi esteve na capital há poucos dias. Ela encontrou filas nos postos de gasolina, escritórios governamentais e grandes empresas fechados, escolas em modo virtual e trabalhadores do transporte carregando respiradores para se proteger do gás lacrimogêneo. Quando alimentos chegam, custam quatro ou cinco vezes o preço normal.Em Cochabamba, Jaquelyne e Jorge sentiram a crise de perto. A cafeteria que administram precisou fechar, os funcionários não conseguiam chegar para o expediente de trabalho e os fornecedores pararam de fazer entregas. As vendas do mês já caíram 90%.PublicidadeUm paciente deitado em uma maca no Hospital Geral de La Paz, em 26 de maio de 2026 Foto: Marvin Recinos / AFPA situação nos hospitais é ainda mais grave. Colegas que prestam serviço médico rural relataram o caso de uma criança que precisava ser transferida de urgência. A ambulância chegou a um ponto de bloqueio, foi apedrejada, e a equipe médica foi forçada a recuar. A criança morreu na unidade básica de saúde, sem os recursos necessários para o atendimento.“Há escassez de alimentos e combustível, mas, acima de tudo, existe a ameaça de violência, que pode eclodir a qualquer momento. É por isso que a demanda por mão pesada para reprimir os manifestantes também está aumentando”Roberto Laserna, pesquisador socialEvo MoralesEncurralado por quatro processos judiciais incluindo acusações de tráfico de pessoas e refugiado em sua base de apoio na região de Chapare, o ex-presidente Evo Morales emerge como figura central neste conflito.O governo Paz acusa Morales de incitar e financiar os protestos. Analistas são mais cautelosos quanto às provas, mas reconhecem o papel de Evo como catalisador. Para Laserna, Morales perdeu grande parte do apoio urbano e da classe média, mas ainda mobiliza bases leais. Grupos alinhados a ele participam ativamente das manifestações.Fabiola Chambi explica que a movimentação de Morales é ainda mais deliberada. O ex-presidente deu um prazo público de 90 dias para que Paz convocasse novas eleições, uma postura que, segundo ela, configura uma mobilização política aberta, não apenas apoio difuso aos protestos.Publicidade“O que está claro é que a crise atual também reflete uma luta pelo poder e uma disputa pela liderança no cenário político boliviano”Fernando Romero, economista, pesquisador e acadêmicoRodrigo Paz governa sem partido próprio e sem uma aliança legislativa sólida. Desde o início, seu próprio vice-presidente se declarou opositor interno. Diante dos bloqueios, Paz optou pelo diálogo, recusando declarar estado de emergência e afastando o uso da força, mas as negociações fracassaram repetidamente. A Central Operária Boliviana e os principais sindicatos não compareceram às mesas de conversa.Para tentar aplacar os ânimos, Paz anunciou corte de 50% no próprio salário e no de seus ministros, concedeu anistia a multas fiscais de trabalhadores informais e anunciou ajustes no gabinete para incluir setores sociais. Nenhuma das concessões foi suficiente para deter a pressão.Romero avalia que o problema vai além das medidas pontuais. Segundo ele, as concessões não conseguiram tocar as frustrações institucionais mais profundas, a sensação, entre boa parte da população, de que este governo não se importa com suas lutas.Manifestantes bloqueando uma estrada durante um protesto contra o governo do presidente boliviano Rodrigo Paz em El Alto, Bolívia, em 23 de maio de 2026. Foto: Marvin RECINOS / AFPUma estação de serviço fechada em La Paz em 23 de maio de 2026 Foto: Marvin RECINOS / AFPEnquanto isso, países da América do Sul enviam sinais de apoio. O presidente Lula publicou uma nota de solidariedade, pediu respeito às instituições democráticas e autorizou o envio de ajuda humanitária do Brasil para a Bolívia. Argentina e Peru também abriram corredores para o abastecimento de La Paz.PublicidadeSociedade à beira do colapso Com o impasse se aprofundando, organizações civis bolivianas começaram a se mobilizar para tentar desobstruir as estradas por conta própria. Segundo Jaquelyne e Jorge, líderes comunitários convocaram a população a intervir nos pontos de bloqueio, o que pode resultar em confrontos diretos entre grupos pró e antiprotesto, sem mediação do Estado.Laserna também alerta que em alguns grupos urbanos, a ideia de se organizar para repelir possíveis ataques está ganhando força. “Tudo isso aumenta o risco de violência.”Para Jaquelyne e Jorge, que planejam voltar ao Brasil ao fim da faculdade, a Bolívia de hoje é irreconhecível. Em 2021, quando chegaram, a cidade era sinônimo de aconchego e qualidade de vida. Hoje, eles acordam com mensagens no celular cancelando aulas e práticas hospitalares. “A gente só espera que não tenha uma guerra civil amanhã”