As forças de segurança da Bolívia liberaram nesta sexta-feira uma rota para os vales de baixa altitude que abastecem de alimentos a cidade de La Paz, cercada por uma onda de protestos que já dura 36 dias e exige a renúncia do presidente Rodrigo Paz, enquanto o Congresso debate uma lei para possibilitar a eventual decretação de estado de exceção. Durante uma visita a militares e policiais que desobstruíram a estrada sem encontrar resistência, Paz declarou que irá desbloquear as rodovias “com diálogo e com os instrumentos legais previstos na Constituição para defender a maioria da população”. Ele acrescentou que o Legislativo está analisando atualmente “um marco legal para as Forças Armadas” caso seu governo decida aplicar um estado de exceção, medida defendida por diversos setores. Até agora, centenas de famílias de La Paz precisavam caminhar quilômetros por áreas montanhosas para conseguir abastecer-se nas regiões produtoras de verduras e frutas, que estão escassas na cidade há mais de um mês. Enquanto isso, manifestantes reforçavam um bloqueio nos acessos a uma usina estatal na cidade vizinha de El Alto, responsável pelo abastecimento de combustíveis e gás liquefeito de uso doméstico. El Alto é o epicentro dos intensos protestos e também o principal ponto de entrada de suprimentos vindos de Santa Cruz e Cochabamba, importantes regiões agrícolas do país. Até o momento, as operações conduzidas por policiais e militares, que não utilizam armamento letal, tiveram resultados limitados. Após a passagem das forças de segurança, os bloqueios costumam ser retomados. Mercado improvisado em Avircato, Bolívia, onde moradores de La Paz e El Alto têm ido em busca de alimentos — Foto: AP/Juan Karita A crise provocou forte aumento nos preços dos alimentos na capital política da Bolívia, que há semanas está praticamente paralisada, com transporte reduzido e protestos de motoristas devido à escassez de combustíveis. Segundo o porta-voz presidencial José Luis Gálvez, dez pessoas já morreram por falta de atendimento médico em consequência dos bloqueios rodoviários. Hospitais também relataram escassez de oxigênio medicinal. O setor empresarial, por sua vez, estima que as perdas econômicas causadas pelos protestos já alcancem US$ 2 bilhões. Paz, que está no governo há pouco mais de seis meses, tem priorizado o diálogo com os manifestantes e a criação de “corredores humanitários” em La Paz. Segundo o governo, ele evitou mobilizar as forças de segurança com armamento letal para prevenir incidentes que poderiam agravar ainda mais o conflito. “Estamos em um momento de inflexão entre a democracia e a ditadura”, afirmou recentemente o ministro da Presidência, José Luis Lupo, referindo-se à mudança de ciclo político após os 20 anos de governos de orientação populista de Evo Morales (2006–2019) e Luis Arce (2020–2025), período em que os sindicatos ganharam força e que agora pedem a renúncia de Paz. “Está em curso um golpe de Estado”, declarou nesta sexta-feira Manfred Reyes Villa, prefeito de Cochabamba, outra região fortemente afetada pelos bloqueios rodoviários, depois de La Paz. Paz recebeu apoio humanitário de vários países para o transporte de alimentos. O maior respaldo veio dos Estados Unidos. Na véspera, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, conversou por telefone com Paz para “reafirmar o compromisso dos Estados Unidos de apoiar a democracia boliviana e o governo do presidente Paz na reconstrução do país após 20 anos de políticas socialistas fracassadas”. Em março, Paz assinou, ao lado de diversos líderes conservadores, o acordo Escudo das Américas, uma iniciativa multinacional promovida pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para coordenar esforços no combate às organizações criminosas.
Congresso da Bolívia discute estado de exceção em meio a onda de protestos
Manifestantes pedem renúncia de presidente e medidas para combater a alta do custo de vida; bloqueios de estrada vêm causando desabastecimento













