A capital da Bolívia está isolada por via terrestre há quatro semanas. Quase todas as vias de acesso estão bloqueadas e a feroz repressão oficial não tem conseguido dispersar multidões vindas de quase todo o país. La Paz enfrenta escassez de alimentos e combustíveis. Diante de uma renitente crise econômica, disparada nos preços e queda da qualidade de vida, sobram motivos para justificar a ira popular. Há poucas semanas, um lote de combustível adulterado danificou mais de 10 mil veículos, enfurecendo os proprietários. O ataque estadunidense ao Irã deflagrou uma inflação nos preços de combustíveis que ainda não chegou ao país andino. A exigência majoritária é a renúncia do presidente Rodrigo Paz, no poder desde novembro passado.
Os protestos fazem convergir trabalhadores assalariados, autônomos, precarizados, professores da rede pública, mineiros, pequenos agricultores e vários movimentos indígenas quéchuas e aimarás, agrupados em dezenas de entidades locais e nacionais, com destaque para a histórica Central Operária Boliviana.
O gatilho para a rebelião foi a sanção da Lei 1720. Em um documento de uma página e cinco artigos, o governo praticamente anularia a reforma agrária conquistada pela Revolução de 1952. “O objetivo é (…) converter a classificação de pequenas propriedades tituladas para médias propriedades.” Em duas linhas, sob o pretexto de abrir espaço para os camponeses hipotecarem suas terras em busca de créditos, acabaria o direito social de lotes oriundos da democratização fundiária, abrindo o setor para o mercado.













