Transporte e mobilidade ganham centralidade na discussão de projetos que combatam a desigualdade racial e ao mesmo tempo deixem as cidades mais inteligentes, oferecendo mais qualidade de vida, saúde e até empregabilidade à população periférica. Ter mais tempo para família e estudo, segurança no ônibus ou conseguir buscar o filho na escola seriam alguns dos benefícios caso boas propostas fossem implantadas. Mas apesar da importância, essa área segue negligenciada, afirma a pesquisadora Karoline Belo, mestre em políticas públicas pela Universidade Oxford e coautora do livro “Guia da Gestão Pública Antirracista”. Ela lembra que pessoas negras são as mais impactadas, já que são maioria nas periferias, e cita a iluminação como um dos pontos de mudança, uma vez que sistemas otimizados tornariam as vias públicas mais seguras à noite, especialmente para as mulheres.? “E as mulheres são o maior contingente que utiliza transporte público”, diz. Para especialistas, são questões que demandam medidas além da eletrificação da frota de ônibus urbanos - comumente citados em discussões sobre cidades inteligentes -, avançando sobre o urbanismo social, com corredores de ônibus, moradias e equipamentos públicos próximos ao transporte e rotas pensadas para encurtar distâncias. Outro fator é observar especificidades; muitos bairros estão isolados geograficamente. “Se você mora no alto do morro, você tem que percorrer, geralmente a pé, um trajeto que é muito longo. Mesmo para levar o lixo até o latão lá embaixo”, exemplifica Belo. Não à toa, nas favelas o uso de motocicletas como meio de transporte é hoje quase incontornável. Na Colômbia, a cidade de Medellín, que já foi considerada a mais perigosa do mundo, conseguiu melhorar índices de violência e mobilidade com projetos em comunidades que lembram as de morros cariocas. Os mais famosos são os teleféricos e escadas rolantes na Comuna 13, bairro que virou símbolo da transformação. “Um bondinho que diminui o tempo de deslocamento, e até promove acessibilidade para pessoas com deficiência, é uma política de equidade racial”, defende a pesquisadora. É nesse sentido que atua a defesa do transporte público como um marco para acelerar a equidade. Melhorar a mobilidade de um bairro pode contribuir para mudar a visão que a própria cidade tem sobre a região, podendo aumentar a autoestima dos moradores e até influenciar na empregabilidade. Foi o que aconteceu em Medellín. Investimentos em urbanismo social, transporte e análise de dados sobre cor podem mitigar problemas raciais e sociais, dizem especialistas O relato que a juíza Vanessa Cavalieri, da Vara de Infância e Juventude do Rio de Janeiro, deu a uma audiência no Senado, em março, sobre o preconceito relacionado à moradia, ilustra como a visão de uma cidade sobre um bairro pode impactar a vida de quem vive lá. Uma garota acolhida enviou vários currículos em busca de emprego, mas não recebeu nenhum convite para processos seletivos. A desembargadora gestora resolveu mudar o endereço da acolhida: tirou o do abrigo e colocou o dela própria. “No dia seguinte, a menina teve 32 convites”, contou Cavalieri. “As periferias no Brasil são desconectadas. Não pela falta de internet, mas porque são distantes. As pessoas estão longe do local de trabalho, a mobilidade é precária, moram em áreas de risco”, diz a coordenadora do curso de arquitetura e urbanismo da Unisinos, Izabele Colusso. Ela vê na experiência colombiana uma inspiração que pode ser aplicada no Brasil, devido a similaridades das duas realidades. “A gente tem que aprender com os princípios, não apenas copiar”, afirma. “O mais inteligente é entender quais são as prioridades”. Colusso, que vem sendo convidada para participar da elaboração de planos diretores por vários municípios, recorda que uma grande capital brasileira instalou internet em uma comunidade onde muitas pessoas que viviam ali não tinham sequer celulares. “Se não tiver inovação social, se esquecer das pessoas, não serve para nada. O município coloca internet no poste e se autointitula cidade inteligente. Não é sobre tecnologia, é planejamento com olhar da inclusão”. Diante da escassez dos orçamentos públicos, Belo orienta que melhorar a coleta de dados ajuda a otimizar gastos e direcionar que podem criar transformação social. “Temos uma grande dificuldade dentro dos governos e no serviço público, que é a coleta de dados de raça e cor”, afirma. Porém, essa não é única questão que dificulta um planejamento urbano focado em diminuir desigualdades raciais e sociais. A pesquisadora diz que esse é um problema multifatorial, passando pela ausência de diversidade nos espaços decisórios.