Sem centrais futuristas ou obras bilionárias, municípios ao redor do mundo vêm encontrando formas mais simples - e muitas vezes mais eficazes - de melhorar a vida urbana. De acordo com um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que analisou cerca de 800 iniciativas em 83 países, governos vêm priorizando soluções mais flexíveis, responsivas e centradas no cidadão, muitas delas construídas sobre infraestrutura já existente. O documento identificou tendências como uso de dados em tempo real, automação de serviços, infraestrutura digital escalável e integração de plataformas públicas. Em comum, essas iniciativas carregam uma lógica diferente daquela que por muito tempo dominou o debate sobre cidades inteligentes: menos vitrines tecnológicas e mais soluções escaláveis, pragmáticas e voltadas a problemas concretos. “O modelo atual de cidades inteligentes mudou do ‘faraônico’ para o ‘funcional’”, diz Gilberto Perre, secretário-executivo da Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos (FNP). Segundo ele, a combinação entre restrição fiscal, pressão por resultados e maturidade tecnológica vem levando municípios a priorizarem projetos de implementação mais rápida, menor custo e retorno mais perceptível para a população. “As cidades não precisam inventar tudo do zero. Adaptar soluções que já deram certo em outros contextos reduz risco, acelera implementação e evita desperdício de recursos”, afirma. Em Volta Redonda (RJ), por exemplo, ferramentas de inteligência artificial passaram a apoiar a análise de exames de imagem na rede pública de saúde e mais de 50 mil exames já foram processados pelo sistema para fazer a triagem de casos urgentes. Em Curitiba (PR), gateways de internet das coisas instalados em estruturas de iluminação pública integram conectividade, monitoramento e gestão operacional. Na gaúcha Santa Maria, luminárias ajustáveis reduzem desperdício de energia. Sensores em cidades chinesas como Hangzhou e Xangai monitoram poluição e congestionamentos para apoiar ajustes no trânsito e em políticas industriais. Em Bangladesh, hidrômetros inteligentes ajudam a detectar vazamentos e monitorar a qualidade da água. Morrinhos (GO) distribuiu tablets e telas interativas em escolas públicas. E enquanto Malásia e Vietnã avançaram no uso de aulas on-line e material didático digital para reduzir abandono escolar, lanternas solares vêm ampliando o tempo de estudo de estudantes da África e da Ásia que não têm acesso regular à eletricidade. Há ainda experiências voltadas à sustentabilidade e transparência, como campanhas de coleta seletiva em Jundiaí (SP) e integração de dados públicos em Assaí (PR). Na avaliação de Sérgio Avelleda, ex-secretário municipal de Transportes da capital paulista e responsável pelo Núcleo de Mobilidade Urbana do Laboratório Arq. Futuro de Cidades do Insper, há um amadurecimento do conceito de cidades inteligentes. “A pergunta não deve ser sobre qual tipo de tecnologia a cidade precisa, mas sobre o tipo de problema que está se dispondo a resolver”, afirma. Segundo ele, soluções urbanas precisam estar ligadas a sustentabilidade, inclusão social e segurança. Avelleda reforça a necessidade de que a inteligência urbana seja baseada mais em escolhas de política pública do que em sofisticação tecnológica e exemplifica com o avanço das ciclovias: “Implantar uma ciclovia não é algo tecnologicamente disruptivo, mas pode ser uma decisão extremamente inteligente, porque promove um transporte mais sustentável, inclusivo e seguro”. Na avaliação de Eduardo Dias, professor de tecnologia e inteligência artificial do Centro Universitário Arnaldo, de Belo Horizonte, a democratização das ferramentas digitais têm ajudado a ampliar a transformação das cidades inteligentes. Segundo ele, sensores urbanos, plataformas de participação cidadã e sistemas de análise de dados se tornaram mais acessíveis para cidades médias e pequenas. “O que define uma cidade inteligente não é mais o tamanho do orçamento, mas a capacidade de utilizar ferramentas acessíveis para gerar impacto social direto”, afirma. A tendência é que a IA ganhe mais espaço. Para Elaine Abis Coimbra, vice-presidente de comunicação da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (Abria), o principal gargalo das cidades não é mais a compra de tecnologia, mas a integração de dados públicos. “Muitas prefeituras ainda operam como ilhas, com sistemas que não conversam entre si. Agora é hora de compartilhar os achados das cidades inteligentes”, afirma.
Cidades têm menos megaprojetos e mais soluções
Aposta em iniciativas mais simples, replicáveis e de baixo custo para ampliar eficiência, reduzem deslocamentos e melhoram serviços











