O termo cidades inteligentes - ou smart cities, em inglês - ganhou força há cerca de duas décadas, quando o setor de tecnologias da informação e comunicação (TICs) passou a ver os centros urbanos como um amplo campo para o desenvolvimento e a aplicação de soluções tecnológicas. Por conta disso, durante muitos anos o conceito esteve fortemente associado à tecnologia. Com o passar do tempo, porém, essa visão mudou e passou a incorporar uma agenda mais abrangente de desenvolvimento urbano. Para especialistas, embora tecnologia seja fundamental, o diferencial está em como ela é aplicada. “É preciso entender como ela vai melhorar a vida do cidadão. Um sistema inteligente de trânsito, por exemplo, é capaz de identificar um pedestre com mobilidade reduzida e aumentar o tempo de travessia no semáforo”, diz Felipe Rezende, coordenador de sistemas departamentais do Instituto das Cidades Inteligentes (ICI), organização que desenvolve e opera soluções para a gestão pública. E acrescenta: “Não é só instalar tecnologia, mas antecipar problemas, melhorar serviços e gerar benefícios concretos para a população. É preciso ser mais proativo e menos reativo”. Projeções indicam que, até 2050, cerca de 60% da população mundial estará sob a iniciativa de smart cities. Essas localidades integram diferentes tecnologias digitais, como inteligência artificial, internet das coisas (IoT) e análise de dados, para otimizar eficiência, sustentabilidade e conectividade em diversos setores, incluindo energia, saúde, transporte, serviços públicos e governança. Diante de tanta inovação e em razão dos centros urbanos enfrentarem desafios cada vez mais complexos, o mercado global de smart cities vive uma fase de forte expansão. Segundo levantamento da consultoria Fortune Business Insights, ele foi avaliado, em 2025, em US$ 952,1 bilhões (aproximadamente R$ 4,7 trilhões, na cotação atual), e deve ultrapassar US$ 1,18 trilhão (R$ 5,9 trilhões) em 2026, com projeção de chegar a US$ 6,3 trilhões (R$ 31,6 trilhões) até 2034. A América do Norte dominou o mercado no ano passado, com participação de 39,6%. A previsão para a América do Sul é que experimente um crescimento significativo, devido ao aumento da conectividade, à alta taxa de urbanização e ao crescente investimento em pesquisa e desenvolvimento para automatizar o planejamento urbano e o desenvolvimento de infraestrutura. No Brasil, diversos municípios têm se destacado, inclusive com projeção mundial. Segundo o Ranking Connected Smart Cities, da plataforma Connected Smart Cities, os cinco primeiros colocados na edição de 2025 foram Vitória, Florianópolis, Niterói (RJ), São Paulo e Curitiba. Rio de Janeiro e a capital paranaense foram vencedores em outros anos da competição internacional World Smart City Awards, organizada pelo Smart City Expo World Congress. Nesse cenário de expansão acelerada, as cidades inteligentes atravessam uma fase de consolidação, com expectativas já superadas. Para o curto e médio prazos, Mauricio Bouskela, coordenador do Núcleo de Economia Urbana, Cidade Inteligente e Big Data do Centro de Estudos das Cidades - Laboratório Arq.Futuro do Insper, considera que os municípios terão cada vez mais que responder para o cidadão em relação à sua gestão e priorizar os serviços de atendimento, seja em saúde, mobilidade, meio ambiente, segurança, saneamento etc. Tecnologia permite que gestor pense em novas formas de solucionar problemas “Isso implica que os gestores terão que entrar de fato no século XXI, e pensar em novas ferramentas e formas de entender e solucionar os problemas da população”, indica. “Eu posso ter toda a tecnologia, que é muito importante, mas se eu não pensar de uma forma holística e integrada e não contar com a participação das pessoas, não funciona.” Ele complementa que dados são indispensáveis: “Tivemos uma grande evolução nos últimos anos, com as cidades tendo uma série de sensores, câmeras, dispositivos, tudo isso gerando uma quantidade enorme de dados. Mas a cidade inteligente de verdade passa de um paradigma de simplesmente receber dados para reagir e eles, usando-os para entender o passado, enxergar o presente e projetar o futuro”. Beto Marcelino, presidente do conselho do Grupo iCities, organizador do Smart City Expo Curitiba, corrobora: “Dados são o novo ouro. E, se os gestores souberem lidar com o que é produzido, vão encontrar soluções para diversos casos crônicos”. “A cidade inteligente vai muito além da tecnologia. Ela representa aquilo que o gestor pode oferecer para tornar os serviços mais eficientes, sustentáveis e resilientes para melhorar a vida dos moradores. É um conceito mais centrado nas pessoas”, diz Yuri Della, diretor do Departamento de Adaptação das Cidades à Transição Climática e Transformação Digital do Ministério das Cidades. Apesar do otimismo, os desafios críticos das smart cities residem justamente na governança de dados e na cibersegurança, à medida que a hiperconectividade aumenta a superfície de ataque para infraestruturas vitais. Agora a expectativa da gestão pública é a de que, diante disso, os modelos de parceria público-privada devem ganhar protagonismo, especialmente para viabilizar projetos em cidades com menor capacidade técnica e financeira. “Vamos trabalhar ao longo do segundo semestre na seleção de alguns municípios para a estruturação de PPPs Cidades Inteligentes via Fundo de Estruturação de Parcerias da Presidência da República operacionalizado pela Caixa. A ideia é que todos possam ter condições de implementar soluções seguras para a população”, afirma Della. A Carta Brasileira para Cidades Inteligentes, elaborada pelo governo federal em 2020 com princípios, diretrizes e recomendações, define essas cidades como “comprometidas com o desenvolvimento urbano e a transformação digital sustentáveis, em seus aspectos econômico, ambiental e sociocultural, que atuam de forma planejada, inovadora, inclusiva e em rede, promovem o letramento digital, a governança e a gestão colaborativas e utilizam tecnologias para solucionar problemas concretos, criar oportunidades, oferecer serviços com eficiência, reduzir desigualdades, aumentar a resiliência e melhorar a qualidade de vida de todas as pessoas, garantindo o uso seguro e responsável de dados e das tecnologias da informação e comunicação”.