Grandes e médias cidades brasileiras podem viver uma transformação silenciosa em mobilidade urbana. Há ao menos 29 obras para faixas e corredores exclusivos de ônibus (como os BRTs), veículos leves sobre trilhos (VLTs) e metrôs, entre outros, com financiamento de R$ 6 bilhões aprovado só no âmbito do Novo PAC. Além disso, o BNDES elencou outros 187 projetos que, se contratados, poderiam melhorar os deslocamentos em 21 regiões metropolitanas, com custos estimados em R$ 430 bilhões até 2054. Porém, apesar de possuir tecnologias suficientemente avançadas para modernizar parte importante da operação urbana, o país esbarra na baixa capacidade técnica dos órgãos públicos, avalia Luiz Carlos Mantovani Néspoli, superintendente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP). “O Brasil tem sistemas de rastreamento, bilhetagem eletrônica, telemetria e monitoramento em tempo real bastante avançados. O problema é que muitos órgãos públicos não têm equipes capacitadas para transformar esse volume de dados em inteligência para planejamento operacional, fiscalização e melhoria dos serviços”, afirma. Também há o desafio de integrar os sistemas implantados em momentos diferentes por fornecedores e padrões distintos, o que cria um ambiente fragmentado. “O investimento não está mais só no concreto. Existe uma camada digital estratégica, baseada em sensores, softwares, integração de sistemas e inteligência operacional”, diz Fernando Cesar, CEO da UniQ Hub, especializada em soluções digitais para mobilidade urbana. Essa discussão ganha mais relevância diante da intensificação dos eventos climáticos extremos. Enchentes, apagões e quedas de árvores impactam diretamente a operação do transporte, obrigando as cidades a pensar também em resiliência operacional. “Centros de controle precisam monitorar a operação em tempo real, identificar riscos, reprogramar rotas e integrar informações com defesa civil, trânsito e operadores de transporte”, aponta Cesar. Neste contexto, Néspol cita a vulnerabilidade dos sistemas semafóricos, que poderiam seguir funcionando com sistemas de no-break e redes próprias de captação de energia. São investimentos que pressionam os cofres públicos. “A grande maioria das cidades subsidia a tarifa do transporte público. Quando a prefeitura investe recursos na operação, precisa saber exatamente o que está sendo realizado”, diz João Valle, diretor comercial da Empresa 1, braço da multinacional de tecnologia para transporte do Grupo Volaris. Com um histórico de problemas que se agravam com chuvas, São Paulo lançou um novo Sistema de Monitoramento e Gestão Operacional para integrar planejamento, monitoramento em tempo real e informação ao usuário, com o objetivo de tornar o transporte público mais eficiente e resiliente. Dados de GPS, bilhetagem, telemetria e planejamento vêm sendo integrados para melhorar a oferta de viagens, “com melhora na roteirização e redução do tempo de espera”, informaram a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte (SMT) e a SPTrans. Segundo Valle, experiências mostram como a integração tecnológica pode aumentar a eficiência operacional do transporte coletivo. “Em Goiânia e Sorocaba (SP) foram implantados semáforos inteligentes que identificam a aproximação do ônibus do BRT e priorizam sua passagem. Isso permite que o BRT opere com velocidade média próxima à de um metrô.” Apesar dos avanços, o Brasil ainda não possui uma cidade com mobilidade plenamente inteligente e integrada, mas algumas “ilhas de excelência”, avalia Cesar. A solução para áreas sem transporte público tem vindo de apps de mobilidade. “Em muitas cidades, o desafio é o deslocamento entre bairros, acessar estações ou voltar para casa com segurança”, diz Fabrício Ribeiro, diretor de operações da 99. Presente em mais de 4.400 municípios, a empresa foca na periferia: dois terços das viagens da modalidade 99Moto ocorrem em regiões de baixa renda.
Baixa integração e infraestrutura precária ainda travam avanços em mobilidade
Cidades somam R$ 6 bi em verbas do PAC para transportes, mas esbarram na fragmentação de sistemas e na falta de capacitação técnica para gerir os dados













