Moro no Rio de Janeiro há pouco mais de dois anos e sei bem que não se pode acusar o povo carioca de ser sutil. O ritmo sussurrado da bossa nova é uma fantasia que vendemos para pessoas de roupas beges ouvirem em suas varandas. Não, eu não desfaço dos versos, voz e violão de João Gilberto. Apenas narro uma realidade —o julgamento fica por conta do leitor.

É o funk que domina bailes, confraternizações e a lista de mais ouvidas dos streamings. Também é esse ritmo que seduz os descolados. A DJ russa de techno Nina Kraviz, por exemplo, das mais incensadas do underground, está apaixonada. Em faixa recente dela, "Sem Amor", em parceria com MC Nick, palavras ternas como "puta" e "bota" se fundem ao bate-estaca em loop hipnótico.

No último fim de semana, vi um set de Nina numa laje gigantesca (o funk não cabe em varandas). Combina perfeitamente: a lascívia do funk adiciona uma boa dose de rebolado em um gênero musical cujos apreciadores muitas vezes se esquecem dos próprios quadris na pista de dança. É o tipo de coisa que faz a cultura da favela ganhar aura cult, levando-a para um lugar interessante de tensão entre a marginalização e a chancela cosmopolita.

O carioca tem longevo apreço ao duplo sentido com conotação sexual —estão aí as marchinhas de Carnaval unindo gerações. No funk, contudo, o mais comum é abolir a metáfora e o subtexto, apostando em figuras de linguagem mais frontais, como a hipérbole, a repetição e uma literalidade que é cômica e anatômica. Uma escolha estética legítima, que prefere o impacto ao lirismo.