O forró começa. Enquanto a sanfona puxa o ar, a zabumba marca o passo e o triângulo risca o tempo. Então dois corpos se aproximam. Uma mão encontra a cintura, a outra se entrelaça no alto e duas pessoas decidem confiar uma na outra pelo tempo de uma música.
O mundo, cansado de tantos medos e distâncias, poderia aprender alguma coisa com esse abraço.
O forró nasceu onde a vida era dura. Veio da terra rachada, do céu que demorava a chover, das casas de taipa, como aquela onde meu pai nasceu, onde a fome às vezes sentava à mesa sem ser convidada. E foi justamente ali, no chão mais áspero do país, que floresceu uma das festas mais alegres que o Brasil já soube reinventar. Ali, no sertão nordestino, o São João ganhou uma forma própria, tornando-se uma das maiores expressões culturais do país.
O sertanejo aprendeu cedo que esperar a abundância para celebrar seria esperar a vida inteira. Então fez da escassez um arraial. Acendeu a fogueira, vestiu o xadrez, soltou o balão da imaginação e dançou.
Talvez seja essa a primeira lição que esse povo tão acostumado à dureza tem a ensinar ao mundo. A alegria não pede licença à riqueza. Ela se basta com um pé de serra, uma sanfona velha e gente disposta a se mexer. Gente disposta a viver e compartilhar. Em um tempo em que tantos acreditam que felicidade se compra, o São João lembra que algumas das melhores festas do país acontecem em praça aberta, de graça e com canjica servida na caneca.












