A sorte é que aqui é o Rio de Janeiro, e essa cidade de cidades misturadas ilumina mesmo quando a gente menos espera Nosso. Gastrobar faz seis anos com guest especial — Foto: Reprodução RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 27/05/2026 - 19:21 Botequim em Ipanema: Tradição e Brasilidade no Coração do Rio No Rio de Janeiro, onde a mistura de culturas é vibrante, o PF de botequim se destaca como uma das poucas instituições incólumes. Inspirado por um botequim em Copacabana, o bar em Ipanema, com seu balcão em formato de U, promove interação entre frequentadores. Sob a liderança de Daniel Estevan, ele ganhou um toque de brasilidade, com coquetéis tropicais que celebram ingredientes locais e conquistaram o público com simplicidade e autenticidade. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Quando o Nosso era pouco mais que uma ideia em andamento, algumas coisas ainda insistiam em martelar na cabeça em busca de uma solução. Uma delas era o balcão, personagem principal dos bares de alta coquetelaria. Precisava ser grande, imponente, inesquecível. Mas, numa época em que os bares se gabavam por ter medidas cada vez maiores na área nobre de atendimento tête-à-tête com os bartenders, uma linha reta seria a coisa mais distante entre dois pontos. A sorte é que aqui é o Rio de Janeiro, e essa cidade de cidades misturadas ilumina mesmo quando a gente menos espera. A ideia do indefectível balcão do bar em Ipanema não surgiu de livros de design ou copiada de endereços consagrados na gringa. Veio de um botequim em Copacabana. Um pé-sujo que ficava em frente a uma casa de saliência que hoje dá lugar a um hospital, próximo a um edifício que digo ser da minha família, o Sobral & Sobral. Spoiler: não é. O bar operava no esquema “sócio-atleta”, com as mesmas pessoas indo lá diariamente. Todos se conheciam e conversavam sem qualquer ordem, cerimônia ou limite de decibéis. Num desses dias, falavam mal de uma tal de Ana. Coitada da Ana. Por pior que fosse, não tinha como ser tão ruim assim ou não dedicariam uma noite inteira a ela, ainda que não por um bom motivo. A única pessoa que defendia a Ana era o homem atrás do balcão. Uma espécie de juiz da partida para não deixar o jogo descambar para fora das quatro linhas. O facilitador dessa conexão, além das doses a mais, era o balcão. O formato em U permitia que todos se vissem e interagissem ao mesmo tempo. Era isso que faria a diferença. Para quebrar ainda mais o gelo, foi montada uma estante com tamanho de arranha-céu que até hoje é cenário de performances no sobe e desce de escada para acessar as garrafas mais raras ou fazer anúncios importantes. Houve um tempo, até, em que um bartender de kilt deixava a brincadeira mais divertida. Ele não era inocente. Como gastrobar mais autêntico e consolidado da cidade, claro que o balcão não podia deixar de contemplar a área dos comes. O feitio original que inspirou o bar foi adaptado para dar vista rasgada para a produção da cozinha autoral, fresca e (sempre) jovem de Bruno Katz. Ganhou uma perninha a mais, como se fosse uma letra cursiva. Licença poética da boemia. O bar tem ainda dois outros andares. O segundo é ideal se a ideia for um jantar ou algo mais romântico. O terraço, com vista para a Praça Nossa Senhora da Paz, que tem um clima mais despojado, é o destino para quem ainda tem esperança de mudar o estado civil até o Dia dos Namorados. Mas nada me convence de que o melhor espaço é mesmo o balcão. Desde que Daniel Estevan assumiu o posto à frente do bar, muita coisa mudou por ali. Para melhor. O Nosso ganhou brasilidade. Passou a ser de dentro para fora. A carta atual, inspirada no Tropicalismo, tem técnicas complexas, mas de paladar simples. Rapadura, dendê, tucupi e coentro brilham como ingredientes em coquetéis que já viraram clássicos da casa. Para beber sorrindo, sem fazer cara feia, nem ter que empurrar nada a contragosto pela goela abaixo só porque está na moda. Coisa bem nossa mesmo. Esses dias fui a Copacabana. Tentei ir lá no botequim tomar uma cerveja, dizer que nove anos já se passaram, que deu tudo certo e saber da Ana. Mas parece que fechou. Ou talvez nunca tenha existido.