Na semana passada, ocorreu em Brasília o segundo encontro da Rede pela Soberania Digital, que une ativistas pelo software livre, desenvolvedores, hackers, servidores, pesquisadores, sindicatos, sociedade civil organizada, políticos, movimentos sociais e qualquer um que reconheça a importância de tecnologias próprias, livres e abertas para garantir a soberania do Brasil e do seu povo diante de uma conjuntura global cada vez mais desafiadora.

Após três décadas de expansão irrestrita, as chamadas “big techs” estão se deparando com limites para seu modelo de crescimento hiperacelerado, anticoncorrencial e colonizador da nossa vida pública e privada. Além da finitude dos recursos naturais – energia, água, minerais raros – necessários à corrida pelas IAs, a consolidação tecnológica da China impôs ao Vale do Silício, pela primeira vez, um concorrente à altura. Acuadas, essas corporações dobraram a aposta numa aliança defensiva com o governo de extrema-direita de Donald Trump, fazendo entrelaçar, cada vez mais, o seu destino com o da própria hegemonia global estadunidense.

Diante desse cenário de incertezas e escalamento de tensões, refletido em episódios como a guerra de tarifas e a guerra no Irã, finalmente começou a cair uma ficha no Brasil e em outros países: o alto risco da dependência tecnológica com relação às big techs. Alguns poucos, como a China, anteviram essa vulnerabilidade e controlaram, desde o início, a entrada de tecnologias estrangeiras, ao mesmo tempo fomentando soluções nacionais. No Brasil, por outro lado, a dependência é tão acentuada que superá-la envolveria partir praticamente do zero – uma tarefa que parece, à primeira vista, impossível, diante do grau de entranhamento dessas corporações em toda a nossa infraestrutura digital, inclusive estatal.