Gerando resumoBRASÍLIA — O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) propôs, pela primeira vez, mais investimentos para a Defesa Nacional do que para a Saúde, ao enviar o Orçamento de 2027 ao Congresso Nacional. A Defesa foi a segunda área mais contemplada com recursos, atrás apenas de Transporte.PUBLICIDADEO Ministério do Planejamento e Orçamento afirmou que a alocação é uma consequência natural da regra que permitiu R$ 5 bilhões fora das regras fiscais em 2027 para investimentos em Defesa. O Ministério da Defesa, por sua vez, afirmou que ainda precisa de soluções permanentes e defendeu a aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que destina 2% do Produto Interno Bruto (PIB) para o setor. PublicidadeO governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) propôs, pela primeira vez, mais investimentos para a Defesa Nacional do que para a Saúde, ao enviar o Orçamento de 2027 ao Congresso Nacional. A Defesa foi a segunda área mais contemplada com recursos, atrás apenas de Transporte. Na foto, disparo de foguete do sistema Astros, do Exército Brasileiro. Foto: Crédito: Exército BrasileiroO governo destinou R$ 12,7 bilhões para investimentos em Defesa Nacional no ano que vem, superando a área da Saúde, que recebeu R$ 11,4 bilhões. O valor também é maior que Educação (R$ 6,8 bilhões), Segurança Pública (R$ 3 bilhões) e Saneamento Básico (R$ 1,3 bilhão). Em primeiro lugar, aparece Transporte, com R$ 13,8 bilhões, e envolve investimentos em rodovias e ferrovias, por exemplo. É a primeira vez que a Defesa recebe mais investimentos do que Saúde em um Orçamento enviado pelo governo Lula ao Congresso — isso já havia acontecido no governo Jair Bolsonaro (PL).Os valores consideram apenas recursos para investimentos, como obras e compra de equipamentos permanentes, e não incluem despesas de custeio e manutenção. No total, os investimentos totalizam R$ 87,9 bilhões no Orçamento, sem contar as inversões financeiras para programas habitacionais (que contam apenas para o piso de investimentos).PublicidadeDos R$ 87,9 bilhões, R$ 65,6 bilhões são para despesas elencadas pelo Poder Executivo. O governo reservou R$ 22,4 bilhões em investimentos para as emendas parlamentares (leia mais abaixo). Isso significa que um quarto de tudo que a União vai investir será capturado pelos parlamentares. O investimento para a Defesa aumentou 60% em comparação ao valor proposto em 2026, de R$ 7,95 bilhões. A destinação ocorre em meio às tensões geopolíticas no cenário internacional e à pressão do presidente Lula por mais investimentos no setor para defender o discurso de soberania nacional. No dia 31 de agosto, Lula pediu à esquerda para “parar com essa bobagem de achar que a gente não tem que ter preocupação com a defesa desse País.” Publicidade“Eu quero estar preparado para que ninguém invada esse País para levar o presidente como eles invadiram”, afirmou o petista, em referência à Venezuela. “Eu quero estar preparado para a paz, não é para a guerra, para ninguém ousar se fazer de besta conosco.”No ano passado, governo e oposição se uniram para retirar R$ 30 bilhões do limite de teto de gastos do arcabouço e da meta fiscal para aumentar os investimentos em Defesa, após militares ameaçarem paralisar investimentos pela falta de verbas. Em 2027, serão R$ 5 bilhões a mais com base nessa medida. O ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, afirmou em agosto que, se os Estados Unidos invadissem o Brasil, o País teria de “abrir o portão”. PUBLICIDADEO maior investimento é para o projeto FX-2, que envolve a compra de caças da Força Aérea Brasileira, que recebeu R$ 2,8 bilhões. Em seguida, aparece o Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro (Sisceab), também da Aeronáutica, com R$ 1,8 bilhão. O desenvolvimento de sistemas de tecnologia nuclear da Marinha, que inclui um submarino de propulsão nuclear, ficou com R$ 1,4 bilhão. A implantação do programa estratégico do Exército para atualizar a frota de veículos blindados terá R$ 944,7 milhões e o projeto Astros-Fogos, também do Exército, que envolve a compra de mísseis de longo alcance, receberá R$ 646,2 milhões. No dia 31 de agosto, Lula pediu à esquerda para 'parar com essa bobagem de achar que a gente não tem que ter preocupação com a defesa desse País' Foto: Daniel Teixeira/Estadao“O Brasil precisa recompor a capacidade mínima de se defender. E se defender é constituir capacidade de dissuasão, ou seja, de fazer com que o custo de uma agressão ao Brasil desencoraje grandes potências de fazê-lo”, diz Ronaldo Carmona, professor da Escola Superior de Guerra e especialista do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).Segundo dados citados pelo especialista, o investimento do Brasil em Defesa é em torno de 1,1% do PIB. Os países do Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) investem 3% do PIB e decidiram chegar a 5% do PIB até 2035. “O Brasil é uma das dez economias do mundo e, para as riquezas que o Brasil tem, o nosso investimento em defesa é muito baixo.”PublicidadeO Ministério do Planejamento e Orçamento afirmou que a alocação em Defesa é decorrência natural da regra que permite até R$ 5 bilhões fora das regras fiscais em 2027, que resultou em R$ 10 bilhões alocados no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para projetos estratégicos de Defesa Nacional. Sobre as emendas, a pasta ressaltou que, historicamente, o valor alocado pelos parlamentares em investimento gira em torno de 35 a 40% das emendas. “O valor de 50% no PLOA é meramente indicativo, podendo ser alterado pelos parlamentares.”Defesa defende PEC que destina 2% do PIB para investimentos na áreaO Ministério da Defesa afirmou ao Estadão que avalia positivamente o acréscimo de investimentos destinados à pasta, pois favorece a continuidade dos projetos estratégicos do setor, especialmente os vinculados ao PAC.PublicidadeO órgão, porém, defende um aumento ainda maior. “Em razão das restrições fiscais dos últimos anos, houve atrasos e repactuações contratuais que impactaram cronogramas e entregas, o que reforça a necessidade de medidas orçamentárias permanentes.”O ministério defendeu a aprovação da PEC n° 55, de 2023, apresentada pelo senador Carlos Portinho (PL-RJ), destinando 2% do PIB em despesas para a Defesa Nacional, como uma “solução perene” para os projetos. O relator da proposta é o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP).O valor partiria de 1,2% no primeiro ano e aumentaria em pelo menos 0,1% ao ano até chegar no objetivo. Se a regra estivesse em vigor, a Defesa deveria ter R$ 177,4 bilhões no Orçamento de 2027, considerando o primeiro ano de vigência.PublicidadeO Ministério da Saúde afirmou que os investimentos na pasta mantêm os mesmos níveis de anos anteriores, apesar da queda observada em relação a 2026. “No ano que vem, os recursos estão direcionados à conclusão e entrega de empreendimentos de grande porte e alta complexidade, a exemplo de novos Hospitais Regionais, Policlínicas e Maternidades. Cabe ressaltar que, como ocorreu neste ano, é comum esse valor crescer conforme o andamento das obras”, disse a pasta.O mistério pontuou ainda que os investimentos já apresentam resultados concretos. “Foram inaugurados 155 novas UBS, dois hospitais regionais, uma policlínica e 28 CAPS, além da entrega direta de mais de 6 mil veículos e 96 mil equipamentos.” PublicidadeUm quarto dos investimentos fica para emendas e R$ 13,8 bi para transporte O governo reservou R$ 44,8 bilhões para as emendas parlamentares em 2027, dos quais R$ 22,4 bilhões foram carimbados para investimentos. O valor representa um quarto dos investimentos totais da União no ano que vem. As emendas devem aumentar ainda mais, pois o Executivo não incluiu no projeto R$ 12,9 bilhões que devem ser destinados às emendas de comissão. A inclusão das emendas é uma inovação em relação aos orçamentos de anos anteriores, quando o Executivo não costumava carimbar emendas para investimentos já no projeto de Orçamento. A alocação ocorria durante a tramitação do Orçamento no Congresso. Os parlamentares ainda poderão alterar os valores com a apresentação de indicações.O valor das emendas supera as verbas para investimentos em áreas prioritárias do governo federal. Quando os recursos indicados pelos parlamentares forem alocados, eles serão distribuídos entre as respectivas áreas do Orçamento, como saúde, educação e segurança pública. PublicidadeTransporte, que inclui obras em rodovias e ferrovias, ficou com R$ 13,8 bilhões, acima de 2026, quando o governo propôs R$ 12,9 bilhões, mas abaixo de 2024, quando foram R$ 14 bilhões. Segundo a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB), os investimentos aumentaram no governo Lula, mas ainda são insuficientes para atender a necessidade do setor e impulsionar o crescimento do Produto Interno Bruno (PIB). Em 2025, o setor público e o privado investiram R$ 280,4 bilhões em infraestrutura. A entidade calcula que o hiato de investimentos, ou seja, a diferença entre o gasto e o necessário para atender os projetos prioritários do setor, foi de R$ 225,3 bilhões, ou 1,78% do PIB. Publicidade“Tem coisas que são muito evidentes, que precisam ser atacadas imediatamente. A primeira delas é não ter R$ 50 bilhões em emendas parlamentares porque elas não têm critérios de prioridade dentro dos programas de governo. Como podemos ter R$ 20 bilhões em investimentos em infraestrutura e logística e R$ 50 bilhões em emendas? Alguma coisa está errada”, diz Venilton Tadini, presidente executivo da ABDIB.“Outra coisa é que não podemos ter R$ 6 bilhões para recuperação dos Correios e não ter esse orçamento para fazer ferrovias”, observa Tadini, ao citar o valor alocado pelo governo para fazer um aporte nos Correios. As obras em ferrovias somam R$ 458,6 milhões no Orçamento de 2027. O governo destinou R$ 11,4 bilhões para a Saúde, menor que os R$ 11,8 bilhões propostos em 2026. A educação ficou com R$ 6,8 bilhões, e em 2026 havia recebido R$ 6,2 bilhões. PublicidadeNa Segurança Pública, houve um aumento expressivo, de 99% em relação ao ano anterior. O Executivo alocou R$ R$ 3 bilhões na área, contra R$ 1,5 bilhão em 2026. O aumento ocorre no momento em que o governo tenta aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública e criar o Ministério da Segurança Pública, que hoje está acoplado ao Ministério da Justiça. O Ministério da Justiça e Segurança Pública afirmou que os valores representam um avanço importante para o fortalecimento das políticas públicas de segurança e para a ampliação da capacidade de atuação do Estado. A pasta pontuou que a ampliação ainda não contempla a PEC da Segurança e a criação de um novo ministério.“Entre as prioridades do Ministério estão o enfrentamento ao crime organizado, o combate à violência contra as mulheres e ao feminicídio, o fortalecimento das ações de inteligência, a integração das forças de segurança, o controle de fronteiras, a qualificação do sistema penitenciário e a ampliação da capacidade operacional das instituições que integram o Sistema Único de Segurança Pública”, disse a pasta. Vale ler tambémPrédio mais alto de São Paulo fecha contrato com primeiro inquilino Gafisa busca injeção de capital para terminar obras atrasadas O Supremo e a reeleição: Não houve tempo para que o Lula 4 fosse a tábua de salvação de Moraes
Governo Lula propõe pela 1ª vez mais investimento para Defesa do que para Saúde no Orçamento de 2027
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