Para aliados, motivação foi eleitoral e favorece Flávio Bolsonaro, principal adversário do presidente na disputa; por ora, Planalto agirá apenas juridicamente 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Presidente Lula — Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo De olho nos possíveis impactos na candidatura à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu-se com membros do governo e integrantes da coordenação de sua campanha para avaliar a decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar do cargo o então diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues na terça-feira (8). Apesar de o assunto ter dominado as conversas, o presidente não tratou dele publicamente e preferiu contestar a medida do magistrado por meio da Advocacia-Geral da União (AGU). Leia mais: O Valor apurou que os aliados de Lula ainda discutem a reação política ao caso, que deve ser liderada, em um primeiro momento, pelo governo. Na terça-feira, o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, disse nas redes sociais que a decisão de Mendonça “cheira como eleitoral”. No entorno do presidente, há uma avaliação de que o movimento pode favorecer o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje principal adversário do petista na disputa ao Palácio do Planalto. Segundo interlocutores, o ministro do STF está sendo usado como “cabo eleitoral”, “apostando” em uma possível vitória do candidato do PL, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que o indicou à Corte em 2021. Por ora, o governo decidiu agir apenas juridicamente, sob a leitura de que a decisão de Mendonça invade as competências do Executivo. Enquanto a campanha ainda calcula como vai entrar nessa discussão, a AGU contestou a determinação, pedindo suspensão imediata ao presidente do STF, Edson Fachin. A estratégia foi debatida em reunião do presidente com o ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva, o AGU Jorge Messias e o ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira, pela manhã e o pedido, enviado no início da noite. Na seara política, capitaneada por integrantes da campanha, o debate visa tentar evitar desgastes de Lula a menos de um mês do pleito. A principal preocupação hoje do entorno petista é que esse clima de abalo institucional influencia na visão do eleitorado sobre a atual situação do país, o que impacta diretamente o chefe do Executivo. Para articuladores da campanha, as decisões de Mendonça, que incluem a liberação de documentos que mostram a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, alimentam ainda um sentimento anti-Judiciário e corroboram, indiretamente, com os discursos de bolsonaristas, principais críticos do Supremo no debate público atualmente. Frente a essa situação, o Valor apurou que não há consenso entre articulares nem no governo nem na campanha sobre como agir. Nos últimos dias, Lula tem sido aconselhado por aliados a não se envolver diretamente na crise, embora já tenha se pronunciado em vídeo publicado nas redes sociais e durante um evento com Fachin, ambos na semana passada. Já na tarde de terça-feira, em ato público no Planalto, ele ignorou o assunto e focou sua fala no tema ambiental, por causa do “Dia da Amazônia”. Outro grupo de apoiadores, no entanto, defende um Lula “mais solto”, que passe recados diretos. Na argumentação desses aliados, mais ligados à articulação e às redes sociais, o presidente é sempre o melhor porta-voz do governo e, quando ele passa a mensagem do jeito que quer, sem script, atinge um número maior pessoas, e de forma mais orgânica. Foi neste contexto que o petista disse, na última sexta-feira (4), pegando no braço de Fachin e com microfone aberto, que caberia ao Supremo e à Procuradoria-Geral da República (PGR) resolver a crise. Até o momento, entre os integrantes do governo, só o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, se manifestou sobre o assunto. Ele classificou a determinação de Mendonça como “descabida”, “eleitoral” e “intromissão onde não lhe cabe”. A deputada Gleisi Hoffmann (PR), ex-ministra e ex-presidente do PT, chamou a medida de “questionável” e disse que ela “protege e premia os criminosos do Master, do INSS [Instituto Nacional do Seguro Social], da [Operação] Carbono Oculto e dos traficantes de drogas que a PF combateu”.