Campanha de Flávio acionou sua tropa de choque no Legislativo e promete dificultar a aprovação de medidas que beneficiam a candidatura petista 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Davi Alcolumbre, Lula e Hugo Motta — Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo Pressionado pelo estreitamento de sua vantagem em relação a Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas e pelos questionamentos sobre as denúncias contra o seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, depois de resistir por mais de três meses, mergulhou na articulação política com a cúpula do Congresso em busca de novas bandeiras para apresentar na disputa pela reeleição. Para ter um trunfo que possa reverter o quadro de déficit no saldo de avaliação do governo e mudar a pauta do noticiário, a equipe de articulação política de Lula vai atuar para impedir que senadores bolsonaristas usem manobras regimentais que impeçam a votação do pacote de propostas acertadas por Lula com os presidentes do Senado, da Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), na última quarta-feira. A campanha de Flávio acionou sua tropa de choque no Legislativo e, capitaneada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), promete dificultar a aprovação de medidas que beneficiam a candidatura petista. O foco central dos dois lados é a PEC que acaba com a escala de trabalho 6 x 1. Pesquisa Quaest realizada em julho mostrou que 69% dos brasileiros são favoráveis à mudança, contra 22% que se dizem contrários. Se aprovada na semana que vem, a proposta começaria a entrar em vigor em novembro. Entre aliados de Lula a mudança na jornada de trabalho é tida como principal trunfo para tentar reverter o quadro da avaliação de governo. Na Quaest de 14 de agosto, 48% dos entrevistados diziam desaprovar a gestão do petista e 46% aprovar. Para ter um caminho mais garantido para a sua reeleição, a avaliação é que o presidente precisa reverter esse quadro e chegar a um saldo positivo de avaliação. Além do fim da escala 6x1, Lula acertou com Motta e Alcolumbre a aprovação também da medida provisória que acaba com a Taxa das Blusinhas, que caducaria no dia 8. A volta do tributo para compras de até US$ 50 em plataformas digitais seria uma fonte de desgaste a menos de 40 dias do primeiro turno. Com menor apelo popular, Lula ainda pode receber de Alcolumbre a aprovação da PEC da Segurança Pública, que lhe permitirá cumprir a promessa de criar um ministério para cuidar da área, do projeto que regula a exploração de terras raras e da proposta que estabelece o Redata, o plano nacional de incentivos para o setor de data centers. Todas essas propostas, se aprovadas, serão exploradas na propaganda eleitoral do petista, segundo integrantes da campanha, com maior ênfase para o fim da escala 6x1. A viabilização do pacote de propostas com apelo eleitoral começou a ser viabilizado no dia 4 de agosto, quando Lula, enfim, aceitou se encontrar com Alcolumbre em jantar promovido pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em sua casa em Brasília. Irritado com a rejeição histórica pelo Senado da indicação de Jorge Messias para uma vaga na Corte, o presidente vinha evitando se encontrar com o amapaense. Por semanas, o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, a líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), e o líder do PT na Casa, Camilo Santana (PT-CE), insistiram que Lula tinha que se acertar com Alcolumbre, mas o mandatário resistia. Guimarães, então, teve uma conversa com o presidente e disse que não tocaria mais no assunto. Passaram-se 15 dias, e o petista mudou de opinião. A pesquisa da Quaest divulgada um dia depois do encontro mostrava que a vantagem de Lula para Flávio Bolsonaro na simulação de segundo turno, que era de oito pontos em julho, caía para cinco pontos: 44% a 39%. O jantar na casa de Moraes se desdobrou em uma sequência de encontros de Lula com Alcolumbre. No dia 12, o presidente foi ao Alvorada em um encontro que teve a participação de Guimarães e de Teresa Leitão. Depois de dar uma entrevista sobre a reunião, Guimarães, quando entrava no carro, confessou em tom de desabafo: — Vocês não têm noção de como foi para fazer isso acontecer. Em outro encontro dois dias depois, apenas entre eles, Lula avisou a Alcolumbre que a Petrobras anunciaria no fim da tarde a descoberta de petróleo na Foz do Amazonas. O presidente do Senado se empolgou com a notícia que beneficia seu estado e se prontificou a receber o presidente da República no Amapá para festejar a descoberta, o que aconteceu no dia 17. As imagens dos dois juntos de macacão no navio-sonda da estatal contribuíram para selar a reaproximação. Do outro lado, a reação da campanha de Flávio à ofensiva de Lula no Congresso esbarra numa dificuldade que ajuda a explicar a estratégia desenhada para a próxima semana: a oposição quer impedir que o petista acumule vitórias às vésperas das urnas, mas não necessariamente tem votos para derrotar as principais propostas no plenário. Diante desse cenário, Rogério Marinho prepara uma batalha menos contra o mérito das medidas e mais contra o relógio. Enquanto Flávio estará em Porto Alegre na quarta-feira, principal dia do esforço concentrado, o senador permanecerá em Brasília para tentar consumir o tempo disponível até o Congresso voltar a esvaziar. No entorno de Flávio, há o reconhecimento de que uma votação da PEC que acaba com a escala 6 x 1 a poucas semanas do primeiro turno coloca a direita numa posição desconfortável. Rejeitar uma mudança de forte apelo entre trabalhadores teria custo eleitoral e aprová-la permitiria a Lula apresentar como conquista uma das bandeiras que escolheu para a reta final da campanha. É por isso que, embora o PL faça críticas ao conteúdo da PEC e proponha alterações, a estratégia de Marinho está concentrada em evitar que os senadores precisem chegar a essa escolha antes das eleições. Para alongar a discussão, cinco emendas foram apresentadas ao texto aprovado pela Câmara. Entre elas está uma transição de quatro anos para a redução da jornada, em contraposição à implementação prevista na proposta original. Outras ampliam o espaço das negociações coletivas, inclusive para permitir que acordos e convenções estabeleçam jornadas superiores ao novo limite constitucional. Marinho pretende ainda pedir vista na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), cobrar a análise das alterações e resistir aos acordos para abreviar os prazos regimentais, como votar a PEC em dois turnos numa mesma sessão do plenário. O espaço para essa manobra, porém, diminuiu na quinta-feira, quando Omar Aziz (PSD-AM) entregou seu parecer mantendo integralmente o texto aprovado pela Câmara. Lá, parte bancada do PL apoiou algumas das iniciativas do governo, como a PEC da jornada de trabalho, o que dificulta ainda mais a resistência. O mesmo aconteceu com a PEC da Segurança. O tema é um dos principais eixos da candidatura de Flávio, e o texto recebeu apoio amplo na Câmara, inclusive do PL. No Senado, Rogério Carvalho (PT-SE) também decidiu manter a versão dos deputados para evitar uma nova tramitação na outra Casa. Nesse caso, aliados de Flávio não planejam comprar briga. Também há pouco incentivo para uma ofensiva contra a MP que extingue a “taxa das blusinhas”. Deixar a medida caducar significaria restabelecer a cobrança sobre compras internacionais de até US$ 50, uma posição de difícil defesa na reta final da campanha. Os projetos sobre minerais críticos e o Redata, programa de incentivos a data centers, completam o pacote acompanhado pela oposição, mas são considerados de menor capacidade de mobilização imediata e, por isso, não devem receber o mesmo esforço de obstrução. O ministro José Guimarães diz que, caso os bolsonaristas consigam postergar a aprovação de medidas importantes, o PT vai denunciar e colocar a iniciativa na conta de Flávio, levando ao horário eleitoral que o senador é contra a redução de jornada. — Nós vamos denunciar. É uma batalha inglória para eles. Se não for aprovado, será debitado na conta deles. A senadora Teresa Leitão acredita que se a PEC for aprovada na CCJ, como acredita que acontecerá sem problemas, já estará criado um fato a favor do governo. A parlamentar também defende que a eventual obstrução por parte dos bolsonaristas seja explorada. — O próprio candidato (Flávio) já declarou que é contra (a PEC), que não é hora de fazer isso, que os empresários vão se prejudicar.