A relação entre sujeitos heterossexuais tem sido permeada por dilemas que levaram ao uso do termo heteropessimismo. Não que as demais relações sejam fáceis. Está aí a procissão de gays, lésbicas, trisais e outros a deitar no divã, provando o fracasso inerente ao encontro humano. Mas isso nunca nos impediu de amar e encontrar alguma alegria nisso.
Sobre o que é estruturalmente manco se impõem as formas de falhar próprias de cada época, contexto e sujeito. Então temos duas trabalheiras aqui. Uma é saber que nunca estamos na mesma página que o outro, que só nos resta extrair o melhor possível dessa situação e que dá até pra ser feliz nesse lugar limitado, desencontrado, mas humano. Outra é entender os fatores específicos de nossa geração que amplificam e, por vezes, até impedem que o amor encontre suas formas possíveis.
Insisto nessa primeira avaliação realista do amor porque, sem ela, podemos confundir todas as mazelas das relações que se apresentam na atualidade com qualquer miragem de completude projetada num antes ou num porvir idílicos. Nunca foi fácil, nunca será; com sorte, pode ser gratificante.
Quando se trata de relações heterossexuais, temos que lembrar que homens e mulheres vivem um momento de crise de expectativas sobre o papel de cada um. O que era considerado "coisa de mulher" se revelou, em grande parte, uma forma de coerção masculina sobre os desejos e necessidades femininas. A coisa se complica porque não se trata apenas do campo privado, como a disputa por quem lava a louça, mas da esfera pública: quem paga a conta social do trabalho doméstico, quem pode governar um país?







