O Brasil entra na segunda metade desta década com as finanças públicas sob pressão visível. A dívida bruta do governo geral alcançou 82,5% do PIB em julho de 2026, R$ 10,9 trilhões. A conta de juros consome cerca de 8,7% do PIB por ano, mais de R$ 1,15 trilhão nos últimos doze meses. O déficit nominal beira 10% do PIB. Com juros na casa dos 14% ao ano, a aritmética da dívida tornou-se abertamente hostil: o governo se financia a um custo muito superior ao ritmo em que a economia cresce.

Como chegamos aqui não é um mistério, tampouco responsabilidade de um governo específico. Por duas décadas, ao longo de administrações de diferentes matizes, a política fiscal recorreu a um reflexo familiar: prometer agora, pagar depois.

Pisos constitucionais de saúde e educação, pensões indexadas ao salário mínimo real, expansão de transferências, desonerações tributárias e sucessivas flexibilizações das regras fiscais foram empilhando despesas obrigatórias enquanto estreitavam o espaço para ajustes. Cada medida era defensável isoladamente. É verdade que houve avanços no período 2017-2020 e que a pandemia impôs custos extraordinários. Mas olhando o arco mais longo, o resultado é um déficit estrutural que nenhum ciclo de crescimento foi capaz de absorver.