Preocupado com desaprovação recorde e com pesquisas que indicam o controle da Câmara e até do Senado pelo Partido Democrata, JD Vance aposta no discurso do medo para judeus e independentes em disputa crucial para o pleito de novembro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O vice-presidente dos EUA, JD Vance, em evento em Sterling Heights, no estado do Michigan — Foto: SAUL LOEB/POOL/ AFP "Tire o nome de minha esposa de sua boca”. “Há algo sobre Abdul que é muito, muito, muito, do mal”. A ordem e o atestado de caráter foram dados pelo vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, nesta segunda-feira, em comício num subúrbio rico de Detroit, no Michigan. O destinatário foi o candidato do Partido Democrata ao Senado no estado, o médico esquerdista Abdul El-Sayed, que almeja se tornar o primeiro americano de origem árabe eleito para a Casa Alta do Capitólio. Não é pouca coisa. E o “americano”, na frase anterior, não é mero detalhe. Em dois meses, os eleitores decidirão o controle das duas Casas do Congresso, e Michigan pode ser justamente o estado que decidirá quem terá mais cadeiras no Senado a partir de janeiro. Em caso de vitória da oposição, um pente fino será passado na primeira metade do Trump 2.0. Isso apavora, com razão, os governistas. Pois o número dois da maior potência global desenhou no comício desta semana como será a reta final da campanha do Partido Republicano. Os candidatos governistas sofrem com a impopularidade recorde do presidente, impulsionada pela ausência de políticas voltadas para reduzir o alto custo de vida e o atoleiro do país no Irã. Trump se tornou um peso a carregar, e uma das apostas é apresentar o outro lado como antiamericano. O que os adversários apresentam como extraordinário e inclusivo é traduzido pelo trumpismo como sectário, alienígena, estrangeiro, esquisito, inapto para o país. No evento no Michigan, imediatamente atrás de Vance, aparecia em destaque uma faixa com os dizeres “estamos aqui protegendo os EUA”. Lei, ordem, status quo, nativismo, contra o desconhecido que amedronta. Abdul El-Sayed, candidato democrata ao Senado por Michigan, acena para apoiadores após discursar no evento da noite da eleição no The Majestic Theatre, em Detroit, Michigan, em 4 de agosto de 2026 — Foto: JEFF KOWALSKY / AFP Dentre os nomes apresentados pela oposição para o pleito de novembro, nenhum é alvo mais fácil neste flanco do que El-Sayed. O muçulmano foi acusado de antissemitismo durante as primárias por sua posição contrária a Israel no flanco internacional, pela denúncia do genocídio em Gaza, tal qual atestado pelos maiores especialistas no tema, e pelas declarações de aliados notórios. Entre os últimos, destacou-se o influenciador Hasan Piker, da esquerda radical, que alertou para “riscos de violência” contra judeus americanos por seu apoio a Israel. Uma das peculiaridades de Michigan é a força das duas comunidades, decisivas na hora do voto. A de origem árabe representa 4% do eleitorado estadual. E os judeus são pouco mais de 1%, mas historicamente com presença mais assídua nas urnas. No mais recente pleito para o Senado, há quatro anos, a moderada democrata Elissa Slotkin venceu a disputa por pouco menos de 20 mil votos, ou 0,3% do total. O estado é tão dividido que qualquer apoio maciço de um grupo específico pode fazer a diferença, e não só para pleitos locais. Em 2026, a crítica ao apoio de Washington a Israel mesmo após as atrocidades reveladas em Gaza fez boa parte dos árabe-americanos do estado ficarem em casa no dia do voto, fator central para a vitória de Trump em um dos prêmios mais disputados no Colégio Eleitoral. El-Sayed poderia ser um símbolo da reaproximação do Partido Democrata com os americanos de origem árabe no Michigan. Não tem sido simples assim. Em seus discursos, ele trata da aparente contradição ambulante de um vice-presidente que comunga do catecismo xenofóbico e nacionalista cristão da extrema direita americana enquanto é casado com uma mulher de origem indiana. Passa longe do lema imortalizado pela ex-primeira-dama Michelle Obama, aquele do “eles vêm com baixarias e nós retornamos ainda mais altaneiros”. Qual o quê. Vance mentiu ao afirmar que o médico busca implantar a lei islâmica da Sharia no Michigan. El-Sayed afirmou, em suas redes sociais, que a segunda-dama do país, com quem o vice tem quatro filhos, ao ouvir as falas do marido, deve pensar: “E agora ainda terei que dormir com ele”. O vice afirma que o candidato é a cara de um Partido Democrata que defende o avanço de grupos étnicos e identitários específicos às custas do trabalhador “comum”. O esquerdista rebateu duvidando que, se vivo, o avô sulista do republicano seria apresentado a Usha Vance. A briga seguiu com um “ela está em um nível muito maior do que o seu”. A demonização do candidato foi posta em curso ainda nas primárias democratas, quando El-Sayed, apoiado por uma aliança entre a comunidade árabe, estudantes universitários e a militância de esquerda, derrotou a candidata ungida pelo comando da sigla, pelos poderosos sindicatos do berço da indústria automobilística americana, pelos negros e pelas organizações judaicas aninhadas no Partido Democrata. Até este texto ser finalizado, era de El-Sayed a última palavra no bate-boca. Em seguidas entrevistas, afirmou que “pessoa do mal é quem tira a saúde dos trabalhadores para cortar impostos dos bilionários e busca a divisão dos americanos para benefício próprio”. A dois meses do pleito, as duas mais recentes pesquisas locais consideradas “respeitáveis” pelo New York Times registram El-Sayed à frente por, respectivamente, 4 (a da EPIC-MRA, com entrevistas feitas entre 22 e 28 de agosto) e 7 pontos percentuais (a da Susquehanna Polling & Research, que ouviu eleitores entre 11 e 17 de agosto). Para complicar ainda mais as coisas, Vance é um político de outro estado do Meio-Oeste, Ohio, rival histórico do Michigan em uma birra regional, guardadas as diferenças geográficas, que remete à pendenga Rio-São Paulo. Enquanto protagoniza o embate com o candidato democrata, o vice de Trump ao mesmo tempo ajuda a nacionalizar o nome de El-Sayed e deixa o candidato republicano ao senado do Michigan, Mike Rogers, como um coadjuvante, cujo nome e sobrenome só apareceram nesse texto na última linha.