Enfraquecido pela guerra do Irã, presidente vê oposição ganhar terreno até mesmo em estados mais conservadores; se confirmadas as pesquisas, resultado estabelecerá inédito contrapeso institucional ao avanço ultraconservador do trumpismo não só nos EUA, mas também na seara externa 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente dos EUA, Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca — Foto: Brendan SMIALOWSKI/AFP A menos de dois meses para o pleito de meio de mandato nos Estados Unidos, com o controle do Congresso em jogo, as pesquisas registram o alargamento da vantagem dos democratas, favoritos na Câmara e empatados com os republicanos no Senado, mesmo em um ciclo com a maioria das disputas na Câmara Alta do Capitólio em estados com eleitorado à direita. Ontem, a mais recente rodada mensal da Focaldata/Financial Times (FT) cravou aprovação de apenas 33% a Donald Trump, recorde negativo. Com satisfação dos eleitores na média das enquetes em 35%, sua rejeição é maior a esta altura do que a de todos os presidentes anteriores neste século. A enquete do FT também constatou a menor média histórica de apoio ao Trump 2.0 entre os conservadores, pela primeira vez abaixo dos 75%. Entre os republicanos, 53% torcem os narizes para o modo como a Casa Branca conduz a economia, oito pontos a mais do que em agosto. A queda livre nas pesquisas, inclusive as qualitativas, e o abismo na diferença de ânimo entre os dois lados oferece pista importante para a reta final de uma corrida eleitoral com potencial de estabelecer inédito contrapeso institucional ao avanço ultraconservador do Trump 2.0, inclusive na seara externa, com reflexos nas ações de Washington na América Latina. O feriado de hoje nos EUA, o do Dia do Trabalho, marca o início extraoficial da batalha final pelo voto. A maioria das prévias foi finalizada e os dois lados intensificam a caça ao tesouro das contribuições milionárias a fim de financiar peças de propaganda dos candidatos e os aparatos montados para levar o eleitor às urnas. Corrida pelo Senado nos EUA — Foto: Arte/O GLOBO Depois de amanhã, Trump inicia em Dallas, no Texas, a primeira Convenção Nacional Republicana de Meio de Mandato, em que baterá o bumbo de sua gestão e, esperam os governistas, finalmente detalhará a liberação dos US$ 400 milhões (R$ 2,05 bilhões) de seu caixa eleitoral. Os primeiros US$ 10 milhões (R$ 51,2 milhões) foram anunciados há dois dias e irão para a campanha ao senado no próprio estado sulista de Ken Paxton, atrás nas pesquisas do democrata James Talarico, em unidade da federação que o presidente venceu com folga há dois anos. Também há a expectativa de que o bilionário Elon Musk anuncie no evento desembolso estratégico a congressistas da direita em apuros país afora. Mas vários republicanos não comparecerão à Convenção, enfezados com a demora no envio de recursos e cientes do peso da impopularidade do presidente para suas campanhas em distritos e estados agora competitivos. Estratégia democrata: ataque ao aumento do custo de vida Eles contrastam com a busca de um lugar ao sol no maior evento de arrecadação dos democratas no ciclo, que acontece um dia depois, em Nova York. A já gorda lista de doadores confirmados ao encontro capitaneado pelo ex-presidente Barack Obama e com a presença do popular prefeito da cidade, Zohran Mamdani, segue crescendo, sinal de que as elites tateiam uma virada de maré política. Nomes coroados do status quo do Partido Democrata, entre eles os líderes da oposição no Senado, Chuck Schumer, e na Câmara, Hakeem Jeffries, dividirão holofotes com neófitos socialistas campeões de voto. Todos tentarão convencer os eleitores de que as disputas internas ficaram para trás, com a apresentação de uma pauta unificada. Nela se destacam, exatamente como no enfrentamento ao Trump 1.0, em 2018, quando o partido retomou o controle da Câmara após oito anos, a defesa da democracia, dos direitos civis e da liberdade de imprensa. Mas desta vez o protagonismo é a denúncia do aumento do custo de vida, estratégia a ser testada em novembro de olho na Casa Branca em 2028. Os movimentos dos dois lados refletem a imensa desaprovação de Trump e as fraturas registradas em sua coalizão, vitoriosa em 2024. Além da nova Focaldata, monitoramentos internos das siglas detectam oposição majoritária e crescente à guerra no Irã e suas sequelas, entre elas a gasolina e o diesel mais caros, este último, central para a indústria e agricultura, com recorde de US$ 5,85 (R$ 29,83) no galão batido na sexta-feira. Também há chiadeira com os tarifaços, tópico quente em estados decisivos para o controle do Senado, como Michigan e Maine, cujas economias estão umbilicalmente ligadas à do Canadá, vitimado com 50% de taxa, e onde os republicanos foram tachados pelos adversários de “cúmplices da guerra aos nossos vizinhos”. Aprovação dos presidentes a dois meses das eleições de meio de mandato nos EUA — Foto: Arte/O GLOBO Latinos migram de lado A oposição aos abusos cometidos pela polícia de Imigração (ICE, na sigla em inglês), por sua vez, estancou a migração de votos dos latinos à direita, agora combustível para surpresas como a do democrata Talarico no Texas. O deputado evangélico de 37 anos priorizou a mídia hispânica e adotou o lema “Vale la pena”, em espanhol. Ele também foi ágil ao perceber a antipatia dos eleitores pelos gigantescos data centers instalados para sustentar o boom da inteligência artificial que sustenta a economia americana e foi pioneiro em usar o tema, e o aumento das contas de luz dos cidadãos, contra o trumpismo. O momento deus-nos-acuda no trumpismo é escancarado pelo fato de que há 38 anos um democrata não se elege senador no Texas. Em análise publicada na quarta-feira, o editor da Bola de Cristal da Universidade de Virgínia (UVA), Kyle Kondik, escreve que “a fragilidade de Trump, agravada pela decisão de atacar o Irã, aumentou sua reprovação também em estados que tradicionalmente votam republicano”, como se vê nas disputas majoritárias no Alasca, Carolina do Norte e Ohio. Até mesmo Iowa,onde Trump venceu com folga em 2024, tem pleitos bem mais disputados do que o esperado. Uma retomada do Capitólio pela oposição teria, apontam observadores, consequências profundas tanto na seara interna quanto na desenvoltura da política externa americana. Schumer e Jeffries se preparam para comandar um pente-fino sem precedentes no Executivo, com a instalação de CPIs sobre esquemas de corrupção voltados para beneficiar Trump, crimes de guerra, o aparelhamento do Departamento de Justiça, desmandos do ICE, caos na Saúde e a perseguição de servidores, muitas vezes pessoas LGBTQIAP+ e/ou minorias étnicas. Pedra no Sapato E o comando, pelo Partido Democrata, de uma ou das duas poderosas comissões de Relações Exteriores do Congresso seria uma “pedra no sapato” do governo americano, prevê, de forma reservada, um estrategista republicano. Em caso de derrota, a Casa Branca antevê a instalação de uma trincheira no Congresso dedicada ao enfrentamento do avanço global do trumpismo, com a lupa voltada, entre outros temas, para interferências em eleições fora dos EUA. Professor emérito da cadeira Gerald Ford na Universidade do Michigan, Jonathan K. Hanson concorda com o coloquialismo do estrategista: — Se os democratas as comandarem, as comissões serão palco de confronto institucional interno ainda não visto à política externa do secretário de Estado, Marco Rubio, com restrições orçamentárias a operações. Por outro lado, Trump, que dá de ombros aos demais Poderes, seguirá com tarifaços e intervenções na América Latina — afirmou o cientista político ao GLOBO. Onda Azul Na Casa Branca a argumentação, frente às pesquisas, é a de que Trump sempre levou em conta o que classifica publicamente como "perturbações temporárias" resultantes da guerra ao Irã. E destaca, na economia, os cortes de impostos, o compromisso com a reindustrialização do país, o avanço na desregulamentação, especialmente nos setores de energia, com a criação de empregos em alta e "alívio mais à frente para a maioria dos americanos". Paciência que a opinião pública parece não ter mais com um presidente em segundo mandato e que venceu há dois anos com um discurso isolacionista, pacifista e comprometido com a queda do custo de vida, não a multiplicação de tarifaços. Os modelos de projeção Bola de Cristal, da UVA, e Bulletin, de Nate Silver, indicam que hoje, mesmo após o redesenho de distritos que favoreceu os governistas, os democratas sairiam das urnas com cerca de 233 deputados, contra aproximadamente 202 dos republicanos. Já no Senado a maior probabilidade é de empate, 50 a 50, o que manteria o controle governista, pois o voto de minerva é do vice-presidente JD Vance. É justamente o resultado na Câmara Alta, concordam os analistas, que dará a dimensão tanto da cada vez mais provável “onda azul”, referência à cor dos democratas, quanto ao tamanho do recuo do trumpismo em novembro.