O presidente dos EUA, Donald Trump, está prestes a decidir se aceita um acordo preliminar com o Irã, que reabriria o estreito de Ormuz ao tráfego marítimo. Sua principal motivação é eleitoral. O objetivo é tentar reduzir o preço dos combustíveis nos EUA. Essa é uma das medidas com que os republicanos contam para tentar reverter a vantagem dos democratas nas pesquisas para as eleições legislativas de novembro. A oposição democrata lidera a corrida para as eleições de 3 de novembro com 47,9% das intenções de voto para o Congresso, segundo a média das pesquisas compilada na sexta-feira pelo site RealClear. Os republicanos aparecem com 40,3%. A vantagem democrata, de 7,6 pontos é uma das maiores do atual ciclo eleitoral e da história recente dos EUA. O apoio ao partido de Trump também está num nível recorde de baixa. O menor percentual de votos que os republicanos tiveram neste século em eleições para a Câmara foi de 42,6%, em 2008. Uma vitória dessa magnitude possivelmente daria ao Partido Democrata uma ampla maioria na Câmara e talvez a maioria também no Senado. Hoje os republicanos controlam as duas casas. Em minoria no Congresso, Trump não conseguiria avançar com sua agenda legislativa e poderia sofrer um novo processo de impeachment. Qual é então a estratégia republicana para reverter o cenário, a apenas cinco meses das eleições? O possível acordo com o Irã é um passo importante. A reabertura do Estreito de Ormuz aliviaria a pressão sobre a cotação do petróleo. Ao longo de sua campanha eleitoral, Trump prometeu reduzir a inflação e o preço dos combustíveis. O preço médio da gasolina nos EUA estava na sexta-feira em US$ 4,391 o galão (3,78 litros), contra cerca de US$ 3 antes da guerra. A inflação anual em abril atingiu 3,8%, contra 2,3% de um ano atrás. A perda de poder aquisitivo por essa alta de preços azedou o humor dos americanos com o presidente e o Partido Republicano. Não está claro se a cotação do petróleo cairá significativamente nas próximas semanas, mesmo com um acordo, pois ainda há gargalos de produção e distribuição importantes no Oriente Médio, que devem levar meses para serem resolvidos. Mas essa parece ser a principal aposta de Trump e dos republicanos para melhorar a economia. A negociação com o Irã, porém, traz riscos. Trump vai declarar vitória. Já o fez, várias vezes. Mas o acordo que está sendo negociado deixa quase todas as demandas americanas para serem resolvidas no futuro. Não houve recuo imediato do Irã quanto ao seu programa nuclear nem de mísseis. Também não há definição sobre o que será feito do seu estoque de cerca de 440 kg de urânio altamente enriquecido. A falta de resultados, de uma vitória inequívoca, para uma guerra tão dispendiosa e impopular poderá se voltar contra Trump na campanha eleitoral. Ainda na agenda econômica, os republicanos esperam que o atual ciclo de investimentos e tecnologia e IA, que está sustentando a economia americana e fazendo as bolsas locais baterem recordes, continue a toda força. Nos próximos meses, em plena campanha eleitoral, deverão ocorrer as duas maiores ofertas públicas de ações da história, da SpaceX e da OpenAI. Isso poderá gerar algum otimismo com a economia americana e favorecer os republicanos nas eleições. Mas um outro reforço econômico pode não acontecer, pelo menos não a tempo de influenciar os eleitores. Desde que assumiu, Trump vem pressionando o Fed a cortar a sua taxa de juros. Isso reduziria o custo do crédito e favoreceria o consumo e a aceleração da economia. Mas o BC americano vem resistindo, sob o argumento de que a inflação continua acima da meta. Com a troca do presidente do Fed, em maio, Trump possivelmente espera que o seu indicado cortaria os juros. Mas isso pode não acontecer, ao menos no curto prazo, devido ao aumento da inflação. E há pouco tempo para que qualquer redução dos juros tenha impacto no dia a dia dos eleitores. Outro ponto importante da estratégia republicana é a reconfiguração dos distritos eleitorais. Nos EUA, a votação para deputado é distrital. O país é dividido em 435 distritos, com número de eleitores similar, e cada distrito elege um deputado. Só que o mapa dos distritos pode influenciar o resultado. Vamos supor que os republicanos costumem ganhar por ampla margem num distrito, mas perdem por margem pequena num distrito vizinho. Se algumas áreas mais republicanas do primeiro distrito forem trocadas por áreas mais democratas do segundo distrito, o resultado pode ser uma vitória republicana nos dois. Esse tipo de redesenho do mapa eleitoral, para favorecer um ou outro partido, sempre ocorreu nos EUA. Os americanos têm até um nome para isso, “gerrymandering”. Mas, desta vez, está acontecendo numa escala inédita. As mudanças feitas até agora parecem favorecer mais os republicanos, mas o resultado desse processo, que está em andamento, ainda é incerto. Há ainda um esforço republicano para tentar limitar o direito e as modalidades de voto pelo país. Um decreto de Trump de 31 de março, por exemplo, restringe o voto pelo correio a quem estiver numa lista de eleitores aptos a votar, a ser elaborada pelo governo federal. A Casa Branca também está tentando dificultar o registro de eleitores. Isso poderá reduzir a participação de negros e latinos na votação, o que tende a favorecer os republicanos. Outro possível trunfo republicano nesta reta final da campanha eleitoral é a vantagem na arrecadação de fundos. Segundo os dados mais recentes da Comissão Federal Eleitoral (órgão que fiscaliza as regras de financiamento político nos EUA), o Partido Republicano arrecadou até agora quase US$ 1 bilhão para a campanha eleitoral, contra só US$ 267 milhões dos democratas. Individualmente, os candidatos democratas arrecadaram mais que os republicanos, mas não para compensar a diferença de fundos dos partidos. Gastar mais pode ajudar os republicanos a vencer disputas apertadas, o que pode fazer a diferença tanto na Câmara como no Senado. Por fim, há o impulso por uma troca de regime em Cuba. Trump decretou um bloqueio energético, barrando a compra de petróleo, o que praticamente paralisou a ilha. E está pressionando por mudanças políticas e abertura econômica (ao menos para o capital americano). Se não houver acordo, o presidente ameaça com uma operação militar. Se conseguir dobrar o regime comunista cubano, algo que vários presidentes americanos tentaram sem sucesso desde 1959, isso pode ter um efeito eleitoral importante nos EUA. Trump deve priorizar Cuba assim que fechar acordo com os iranianos. Esse conjunto de fatores poderá ajudar os republicanos nas eleições de novembro. Mas o tempo é curto e é sempre difícil reverter sensações consolidadas no eleitorado.31/05/2026 12:34:48
ANÁLISE: Como Trump espera reverter, até novembro, a vantagem eleitoral democrata
Redesenho de distritos eleitorais, limitação ao voto pelo correio e eventual ação em Cuba estão entre possíveis estratégias















