Presidente defenderá em discurso no Texas os 18 meses de seu segundo mandato; em baixa nas pesquisas, republicanos estão ansiosos por anúncio da liberação de fundos de campanha 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desembarca do Air Force One após chegar à Base Conjunta Andrews, em Maryland — Foto: KENT NISHIMURA/AFP A matemática de Donald Trump é simples, mas nem por isso à prova de erros. Nesta quarta e quinta-feira o presidente dos Estados Unidos será o protagonista absoluto de uma inédita Convenção de Meio de Mandato, por ele idealizada e que reunirá os principais nomes do Partido Republicano em Dallas, no Texas. Em seu discurso na noite desta quarta-feira, defenderá os pouco mais de 18 meses de sua segunda temporada na Casa Branca e argumentará que levou o país à era de ouro prometida na posse, em janeiro do ano passado. Dobrará assim, apesar da desconfiança de estrategistas e marqueteiros das campanhas de senadores, deputados e governadores às voltas com disputas apertadas país afora para a eleição de novembro, a aposta do Partido Democrata. A de que o pleito, marcado para menos de dois meses, será um plebiscito sobre o Trump 2.0. Ao contrário da oposição, porém, acha que isso será bom para os governistas. A ver. Se a oposição se anima com os índices recordes de impopularidade de Trump, com menor aprovação a esta altura da disputa do que qualquer outro presidente neste século, a estratégia da Casa Branca é usar o evento desta semana para deslanchar uma enorme mobilização da base. Impulsioná-la, também pela demonização do outro lado, especialmente após o avanço da esquerda nas prévias democratas na primeira metade do ano, a sair de casa em novembro. Como a eleição de meio de mandato tradicionalmente registra abstenção bem maior do que a presidencial, é ainda mais importante levar apoiadores convictos às urnas. E é imenso hoje o abismo de ânimo entre os dois lados. Pesquisa da Universidade de Massachusetts Amherst divulgada na semana passada constatou que 68% dos eleitores que se identificam como democratas estão entusiasmados com a eleição de novembro, contra 59% de republicanos. A mesma enquete registra vantagem de oito pontos a favor dos democratas em um hipotético voto na legenda para a Câmara. A mais recente consulta da Gallup, por sua vez, mostra que os democratas atingiram a maior vantagem sobre os republicanos em identificação partidária desde 2008, no início da era Barack Obama — abriram 10 pontos de diferença. Fissuras até no Maga desafiam estratégia de Trump Desde sua ascensão em 2016, é fato que, quando o nome Trump não aparece nas cédulas, o poder de atração do Partido Republicano diminui consideravelmente. Foi o que se viu nas disputas de 2018 e 2022. Desta vez, no entanto, há um imenso porém em torno da estratégia personalista. Diversas medidas centrais do Trump 2.0 causaram fissuras também entre seus apoiadores, inclusive os do movimento Faça os EUA Grandes Novamente (Maga, na sigla em inglês). Notadamente, a guerra ao Irã e os tarifaços. O conflito no Oriente Médio, com escalada sensível esta semana, enfureceu os isolacionistas do Maga e causou sequelas de fácil percepção pelos eleitores americanos, entre elas o preço recorde do diesel e a alta da gasolina. Esta última teve sua maior disparada desde maio justamente no primeiro dia da convenção, em mais um mau agouro para o presidente. Outro fator para o aumento do custo de vida, os tarifaços, com a penalização indiscriminada de países, entre eles o vizinho Canadá, afetou diretamente a economia de estados-chave em novembro, entre eles Michigan e Maine. E desencadearam uma crise nos custos de produção no campo e perda de mercados internacionais essenciais. Não é acaso as zonas rurais, reduto trumpista, se tornarem novas áreas de investimento dos democratas. No último domingo, a mais recente rodada da Focaldata/Financial Times (FT) registrou recorde negativo para o Trump 2.0, com apenas 33% de satisfação entre os eleitores registrados. No mais recente monitoramento da YouGov/Economist outro tento negativo: em 47 dos 50 estados, boa parte deles vencidos em 2024 pelo presidente com vantagem de até dois dígitos, narizes torcidos superam acima da margem de erro o coro dos contentes. Nos estados, republicanos temem efeito negativo De forma reservada, estrategistas republicanos nos estados mais disputados em novembro também miram nos dados para se dizerem, ainda que de forma reservada, preocupados com eventual efeito negativo da Convenção de Meio de Mandato, especialmente entre os eleitores independentes. A começar pela escolha de Dallas, no Texas, para fazer uma celebração milionária, digna da série televisiva homônima nos anos 1980, enquanto o Partido Democrata pauta sua campanha geral pela crítica a uma política econômica que beneficiaria bilionários e não o cidadão comum. O Comitê de Campanha do Partido Republicano cobrou uma taxa de US$ 25 mil (ou R$ 127 mil) por cabeça a filiados, inclusive congressistas, para garantir assentos na convenção e nos eventos de boas-vindas. O que for arrecadado irá para campanhas em todo o país. Doadores poderão entrar, com pacotes que vão de US$ 1.300 (R$ 6.630) a US$ 20 mil (R$ 102 mil). E uma loteria dará a militantes passe livre diário, mas apenas para a área externa do Victory Plaza. Poderão, com sorte, ver a família Trump e estrelas do partido. Em âmbito nacional, destaca-se a presença na lista das atrações do vice-presidente JD Vance, que fará o discurso central desta quinta-feira, seguido por “comentários finais” do onipresente Trump. E a ausência do secretário de Estado, Marco Rubio. Os dois são considerados hoje os favoritos para disputar a sucessão do presidente em 2028 pelo flanco governista e disputam a preferência da base. Também avisaram que não sairão de seus estados nomes-chave para decidir qual partido controlará o Senado a partir de janeiro, entre eles os senadores Susan Collins, do Maine, e Dan Sullivan, do Alasca, favoritos hoje atrás, por pouco, de seus adversários democratas nas pesquisas. 'Trumpalooza' é aposta de alto risco Na revista Time, o veterano Phillip Elliott foi direto sobre o 'Trumpalooza': “Ninguém pediu por essa Convenção. Não os republicanos, que disputam campanhas dificultadas pela guerra aparentemente sem saída contra o Irã. Não os eleitores, que não entendem por que as contas de energia estão nas alturas e as idas ao supermercado mais parecem extorsão. Não os donos de negócios, impossibilitados de prever os gastos trimestrais com uma política tarifária que muda tal qual a previsão do tempo.” Não importa. Na conta de Trump se destacam três fatores. Pela ordem, há, antes de mais nada, os US$ 400 milhões (R$ 2,03 bilhões) em fundos de campanha em seu nome ainda a serem distribuídos pelo presidente a campanhas de republicanos que se mostrarem fiéis o suficiente a ele. Também lhe valem os dois dias com 12 horas contínuas de transmissão ao vivo no YouTube. E, por fim, a inevitável ampla cobertura da imprensa americana, que tende a desviar a atencão dos eleitores dos muitos revezes, internos e externos, do Trump 2.0. Mas a Convenção de Meio de Mandato é, também, o maior reencontro do presidente com uma base há uma década por ele fascinada. Fora das cédulas este ano e, para seu desgosto, também em 2028, Trump conduzirá os comícios desta semana de olho na consolidação de seu controle do Partido Republicano. Mesmo após seu adeus definitivo na política americana. É, bem ao seu gosto, uma movimentação arriscada. Os dois dias no Texas podem se tornar, como o presidente deseja, o marco inicial de uma virada radical na corrida eleitoral, a pouco menos de dois meses do pleito, a arrancada para consolidar seu legado, com avanço republicano no Capitólio e uma modificação ainda maior da democracia americana nos dois anos derradeiros do Trump 2.0. Ou se revelarão a maior armadilha política interna de sua trajetória. Construída, assim como no caso do Irã, por ele próprio.
Idealizada para mobilizar base, 'Trumpalooza' arrisca afastar independentes de governo impopular a dois meses de eleições
Presidente defenderá em discurso no Texas os 18 meses de seu segundo mandato; em baixa nas pesquisas, republicanos estão ansiosos por anúncio da liberação de fundos de campanha











