Discurso feito pelo presidente dos EUA na noite de quinta-feira revelou sua fixação com pleito vencido por Joe Biden, mas também seu empenho em construir uma narrativa para uma possível derrota nas eleições de meio de mandato que serão realizadas em novembro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Monitores de vídeo na Casa Branca acompanham o discurso do presidente dos EUA, Donald Trump — Foto: Doug Mills/The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 17/07/2026 - 11:30 Donald Trump persiste em alegações infundadas sobre eleições de 2020, afetando confiança na democracia dos EUA. Análise revela a obsessão de Trump com as eleições de 2020, alegando fraude e acusando a China de interferência, enquanto busca deslegitimar possíveis derrotas nas eleições de meio de mandato. Trump insiste que não perdeu, apesar das evidências contrárias, e continua a influenciar os eleitores e aliados com essa narrativa, impactando a confiança na democracia dos EUA. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O presidente Donald Trump usou muitas palavras alarmantes na noite de quinta-feira ao se dirigir ao povo americano sobre ameaças à integridade das eleições nos Estados Unidos: “Estado profundo” (deep State). “Fraudadas e roubadas.” “Conspiração.” “Manipulação.” “Corrupto.” “Fraude.” “Acobertamento.” Mas a mensagem principal que ele claramente quis deixar para o público foi esta: ele não é um perdedor, independentemente do resultado da eleição de 2020. Segundo ele, forças obscuras agiram para impedi-lo de vencer. E, caso seu partido perca as eleições legislativas deste outono, insinuou que esse resultado também pode não ser legítimo. O discurso de Trump, em horário nobre, no Salão Leste da Casa Branca, foi um espetáculo surpreendente, com um presidente empenhado em convencer o país de que suas eleições não são confiáveis — pelo menos aquelas em que ele ou seus aliados saem derrotados. Ele citou documentos parcialmente desclassificados para fazer afirmações sensacionalistas sobre vulnerabilidades do sistema eleitoral, embora nada do que tenha revelado prove que qualquer resultado tenha sido efetivamente alterado. O episódio evidenciou o quanto Trump, em seu segundo mandato, tornou-se obcecado em reabrir o debate sobre a eleição de 2020 e encontrar maneiras de lançar dúvidas sobre a eleição de 2026. Nos 18 meses desde que voltou ao cargo, ele nomeou negacionistas eleitorais para postos-chave, buscou alterar regras para dificultar a votação, obteve registros eleitorais na tentativa de comprovar suas teorias da conspiração e afastou funcionários que investigaram seus esforços para reverter sua derrota eleitoral de seis anos atrás. — Parece um pouco o capitão Ahab, de Moby Dick — disse Trevor Potter, republicano e ex-presidente da Comissão Eleitoral Federal. — Ele simplesmente está obcecado com a ideia de que não perdeu a eleição de 2020. Psiquiatras de poltrona podem dizer que ele não suporta perder, que nunca consegue admitir uma derrota. Mas isso claramente se tornou uma parte importante da sua personalidade e, de certa forma, também desta administração. Segundo pessoas próximas a Trump, em um nível, sua fixação em reescrever a história de 2020 tem a ver com aliviar o ego ferido de alguém que, por natureza, resiste a admitir qualquer derrota. Ele transformou em um teste de lealdade para quem trabalha com ele aceitar — ou, ao menos, não contradizer — a alegação falsa de que ele venceu aquela eleição, e não Joe Biden. Presidente dos EUA, Donald Trump, após discurso no qual atacou o sistema eleitoral americano — Foto: SAUL LOEB / POOL / AFP Trump autorizou investigações para revisitar diversas alegações que já haviam sido desmentidas anteriormente. Essas apurações parecem não buscar os fatos onde quer que eles levem, mas sim encontrar evidências que sustentem suas convicções sem comprovação. É difícil imaginar que ele aceitaria qualquer investigação que concluísse que perdeu a eleição de forma justa. De olho nas eleições de novembro Mas, embora parte disso diga respeito ao passado, também se trata do futuro. Com Trump profundamente impopular, segundo pesquisas — apenas 37% aprovam seu desempenho na mais recente pesquisa Washington Post-Ipsos — seu partido enfrenta a possibilidade de uma derrota significativa nas eleições para o Congresso em novembro. Assim, Trump parece empenhado em construir uma narrativa que, no mínimo, possa explicar uma eventual derrota e, no máximo, segundo seus críticos, justificar uma intervenção direta para tentar alterar os resultados. — Essa é a abordagem padrão para lançar dúvidas sobre as regras eleitorais quando muitos líderes populistas autoritários se sentem ameaçados pela impopularidade nas urnas ou quando os resultados os apontam como derrotados — disse Pippa Norris, cientista política que leciona em Harvard há três décadas e fundadora do Projeto de Integridade Eleitoral. — Na verdade, esse tem sido um tema recorrente utilizado pelo presidente há mais de uma década. Os aliados de Trump insistem que ele tem motivos legítimos para sua busca por supostas conspirações eleitorais. Segundo eles, democratas, a imprensa, servidores públicos de carreira e governos estrangeiros tinham razões para impedir sua reeleição e depois encobrir seus atos. Na visão desse grupo, uma elite interessada em preservar seu próprio poder tenta derrubar um outsider representado por Trump. — O presidente acredita profundamente que foi prejudicado na eleição de 2020 — afirmou Christopher Ruddy, amigo de Trump e CEO da Newsmax Media. — Acho que ele é motivado por duas razões: obter reconhecimento de que sofreu uma injustiça e impedir futuras irregularidades eleitorais. Mas alguns republicanos gostariam que Trump deixasse esse tema para trás, considerando-o politicamente prejudicial durante uma campanha em que os eleitores estão mais preocupados com o custo de vida e outros problemas do cotidiano. Mudanças no círculo de confiança Uma pesquisa Economist-YouGov realizada no mês passado mostrou que Trump convenceu 50% dos republicanos de que a eleição de 2020 foi fraudada. No entanto, essa crença é mais forte entre sua base do que no eleitorado em geral. Enquanto 66% dos republicanos identificados com o movimento MAGA compartilham dessa visão, apenas 32% dos demais republicanos e somente 23% dos independentes concordam com ela. As repetidas investidas de Trump contra a legitimidade das eleições também refletem mudanças em seu círculo de confiança. Em seu primeiro mandato, havia vozes influentes que lhe diziam que suas alegações de fraude eram falsas, especialmente William Barr, então procurador-geral. Desta vez, Trump está cercado por assessores que ou o incentivam ou permanecem em silêncio. — Claramente, não há ninguém na Casa Branca capaz de dizer "não" a ele; não existe nenhum adulto na sala — afirmou a ex-deputada republicana Barbara Comstock, crítica de longa data de Trump. — Ninguém vai dizer: "Senhor presidente, o senhor perdeu a maldita eleição. Por que estamos fazendo isso de novo?". Novo Air Force One: conheça por dentro o superavião que Trump recebeu de presente do Catar 1 de 7 Suíte principal do Boeing 747-8 presenteado pelo Catar conta com cama king-size e decoração de alto padrão, projetada originalmente para acomodar membros da família real — Foto: Reprodução 2 de 7 Banheiro da aeronave exibe acabamento sofisticado e amplo espaço interno, um dos diferenciais do jato de luxo que poderá se tornar o novo Air Force One — Foto: Reprodução X de 7 Publicidade 7 fotos 3 de 7 Chuveiro com metais dourados integra uma das áreas privativas do avião, concebido para oferecer conforto em viagens de longa distância — Foto: Reprodução 4 de 7 Sofás e mesa de centro compõem uma das salas de convivência do jato, pensada para reuniões e momentos de descanso durante o voo — Foto: Reprodução X de 7 Publicidade 5 de 7 Lounge principal reúne poltronas de couro, mesas e iluminação indireta em um ambiente semelhante ao de um hotel de luxo — Foto: Reprodução 6 de 7 Escadaria liga os dois andares da aeronave, que possui espaços exclusivos para áreas sociais, acomodações e serviços de bordo — Foto: Reprodução X de 7 Publicidade 7 de 7 Vista de uma das suítes executivas do avião mostra integração entre quarto, banheiro revestido em mármore e sala de reuniões privativa, reforçando o padrão de luxo do Boeing 747-8 — Foto: Reprodução Novo Air Force One: conheça por dentro o superavião que Trump recebeu de presente do Catar No início deste mandato, candidatos a cargos no governo eram questionados diretamente durante entrevistas de emprego se acreditavam que Trump havia vencido a eleição de 2020. Aqueles que respondiam negativamente, em geral, não eram aceitos. Em contrapartida, democratas passaram a fazer a mesma pergunta durante sabatinas de indicados de Trump, deixando-os em dificuldade para responder sob juramento sem contrariar o presidente. — Você nega que Joe Biden venceu a eleição de 2020? — perguntou o senador Mark Warner ao indicado Jay Clayton, durante uma audiência. — Senador, eu não sou um negacionista eleitoral — respondeu Clayton. — Joe Biden foi certificado como presidente dos Estados Unidos. Os democratas observaram o uso da palavra “certificado”, em vez de “eleito” ou “venceu”. Essa passou a ser uma forma de escapar da pergunta entre indicados de Trump. O próprio presidente não nega que Biden tenha sido oficialmente certificado; apenas afirma que isso não deveria ter acontecido. O senador Jon Ossoff insistiu: — Quem venceu a eleição de 2020? — Eu já respondi — disse Clayton. — Não é humilhante ser incapaz de responder essa pergunta e ter de alimentar as ilusões do presidente? — retrucou Ossoff. Sete menções às eleições de 2020 A obsessão de Trump por 2020 ficou evidente em seu discurso de quinta-feira. Enquanto apresentava alegações sobre ataques cibernéticos chineses, eleitores registrados ilegalmente e acobertamentos, Trump mencionou sete vezes a eleição de 2020 que perdeu, embora sem afirmar explicitamente que a venceu. Não levantou qualquer dúvida sobre a legitimidade das eleições de 2016 ou de 2024, nas quais saiu vencedor. Embora tenha sugerido que a China interferiu na eleição de seis anos atrás porque “queria que eu perdesse”, ele não mencionou a interferência da Rússia quatro anos antes em seu benefício. Utilizou as palavras “China” ou “chinês” 20 vezes e citou a Rússia apenas uma vez, como parte de uma lista de países capazes de invadir máquinas de votação. Na realidade, as agências de inteligência dos Estados Unidos concluíram que, embora a China tenha feito tentativas iniciais de influenciar a opinião pública durante a eleição de 2020, ela permaneceu em grande parte à margem. Já a Rússia realizou uma campanha ampla e agressiva para ajudar Trump a vencer a eleição de 2016. Com menos de 16 semanas até a próxima eleição, a grande questão é qual será o próximo passo de Trump. No discurso, ele anunciou que ordenou ao FBI e a outras agências que investiguem interferências eleitorais. Também voltou a pressionar o Congresso para aprovar uma lei exigindo prova de cidadania para o registro de eleitores e documento oficial com foto para votar. No entanto, os republicanos do Senado já deixaram claro, repetidas vezes, que não há votos suficientes para aprovar essa proposta. A ideia de que Trump possa optar por agir caso o resultado eleitoral não seja o que deseja não é considerada impossível. Em entrevista ao The New York Times, em janeiro, Trump afirmou que se arrepende de não ter seguido conselheiros que sugeriram mobilizar a Guarda Nacional para apreender máquinas de votação em estados decisivos que ele perdeu em 2020. — Grandes danos foram causados ao nosso país — disse Trump na noite de quinta-feira. — Nossas eleições ficaram vulneráveis a fraudes e roubos, e a confiança do povo americano foi perdida. Não podemos permitir que isso continue. Para muitos americanos, a questão será: em quem confiar?
Análise: Trump está obcecado por questionar as eleições de 2020, e isso terá um custo para a democracia americana
Discurso feito pelo presidente dos EUA na noite de quinta-feira revelou sua fixação com pleito vencido por Joe Biden, mas também seu empenho em construir uma narrativa para uma possível derrota nas eleições de meio de mandato que serão realizadas em novembro











