Presidente americano usará o Salão Oval para, segundo sua porta-voz, falar sobre a 'integridade de nossas eleições'; aliados se queixam de falta de empenho em temas mais populares 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Presidente dos EUA, Donald Trump — Foto: Haiyun Jiang / POOL / AFP A menos de quatro meses das eleições legislativas de novembro, nas quais as pesquisas apontam para uma possível derrota governista, o presidente dos EUA, Donald Trump, faz um discurso em tom de campanha que tem como ponto central o sistema eleitoral americano — o mesmo que o levou duas vezes à Presidência —, e acusações que turbinam conspirações e acusações jamais comprovadas. Mencionando a eleição de 2020, ele anunciou a divulgação de documentos sigilosos que, segundo ele, confirmam a exposição do sistema americano a agentes estrangeiros, especialmente a China. Antes de ir ao tema central da fala, ele fez uma revisão de seus atos à frente do governo, mencionando a economia, a política migratória, a intervenção na Venezuela, em janeiro, e desferindo golpes contra seu antecessor, o democrata Joe Biden. — Há dois anos, nosso país estava morto. Agora, somos o país mais em alta de todo o mundo — declarou. — A América é respeitada como nunca antes. Temos mais dinheiro sendo investido nos Estados Unidos do que em qualquer outro momento da história do nosso país. Mais americanos estão trabalhando hoje do que nunca. Com tons grandiosos, Trump anunciou a divulgação de documentos sigilosos (segundo ele), que comprovariam a exposição de dados do sistema eleitoral em 2020, como informações de milhões de eleitores, a agentes estrangeiros, citando especificamente a China. Na maior parte dos estados, esses dados estão disponíveis a qualquer um com acesso à internet. — Essas informações incluem nomes, endereços, números de telefone, preferências partidárias e outros dados sensíveis que seriam necessários para se registrar para votar e participar de outras atividades ilícitas. O que é exatamente o que estava acontecendo — disse Trump, que acusou Pequim de pagar jornalistas para escreverem textos negativos sobre ele. No passado, a comunidade de inteligência dos EUA disse ter encontrado indícios de ações da Rússia e do Irã, mas voltadas a impulsionar o nome de Trump e sem envolver tentativas de adulteração de resultados. No caso chinês, as investigações realizadas em 2020 confirmaram que o país teria a capacidade de interferir no processo, mas escolheu não fazê-lo. Não se sabe se os documentos citados por Trump trazem alguma novidade. Citando uma investigação do Departamento de Segurança Interna, ele afirmou que cerca de 70 mil pessoas que não são cidadãos dos EUA conseguiram se registrar para votar em 2020, prometendo apresentar provas e dizendo que o número real seria "muito maior". A alegação antecede sua primeira eleição, em 2016, mas ganhou corpo após a derrota de 2020. Jamais foram apresentadas evidências. — Essas revelações expõem um sistema eleitoral tão falho e tão vulnerável que ninguém consegue defendê-lo. É indefensável — declarou. Em outro velho tópico, mencionou que as urnas eletrônicas são vulneráveis a ataques, sem citar detalhes ou casos de violação de resultados. Recentemente, Trump determinou uma varredura nos equipamentos, e em fevereiro a então diretora da Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, realizou uma análise em máquinas usadas em Porto Rico, um território americano que não vota para presidente. Não foram encontradas irregularidades. Como parte de sua obsessão com os resultados de 2020, especialmente da Geórgia — onde ordenou que as autoridades locais "encontrassem" os votos necessários para derrotar Biden —, foi ventilada em Washington a possibilidade de que o republicano declare que a eleição no estado naquele ano foi ilegítima, e que os mandatos dos eleitos, especialmente de dois senadores democratas, não valem. — Eis o que vai acontecer hoje à noite: o mau perdedor mais famoso do mundo fará um discurso presidencial em horário nobre, movido pelo ressentimento, para insistir em suas queixas infantis sobre a eleição de 2020, enquanto sua guerra no Oriente Médio sai de controle e o custo de vida continua a subir para os americanos em todo o país — disse nesta quinta-feira, antes do discurso, o senador Jon Ossof, que à época desbancou o republicano David Perdue, citado pela rede ABC. Ao contrário da maioria dos países, incluindo aqueles que vivem a democracia plena os que usam o voto para fingir que são livres, os Estados Unidos não têm um sistema nacional e unificado de votação, e dependem de regras estaduais ou locais. Não raro, é a imprensa que assume o papel de consolidar tendências e resultados e projetar os vencedores. Diante de uma míriade de formatos, desde os eletrônicos até as cédulas de papel (cujo preenchimento causou uma histórica disputa na eleição de 2000) e o voto por correio, escolhido por Trump como inimigo após sua derrota para Biden em 2020 (apesar do republicano ter usado o método em mais de uma ocasião), as intempéries surgem com frequência. Mas jamais houve um volume de queixas como visto com Trump nos últimos seis anos, mesmo depois de sua vitória em 2024. Algumas TVs, como as redes ABC, CNN e NBC, anunciaram que não pretendem exibir a fala. — Não sei o que ele vai dizer. A única coisa que posso dizer é que estamos focados na eleição de 2026, pelo menos eu estou, e acredito que a maioria dos meus colegas também — disse o líder da maioria republicana no Senado, John Thune, dizendo nas entrelinhas que apontar fraudes imaginárias não deveria ser a prioridade da campanha. Preocupação entre aliados A vida do presidente promete ser difícil nas eleições de novembro, que renovarão a Câmara e dois terços do Senado, hoje sob comando republicano. Segundo as pesquisas, o Partido Democrata tem grandes chances de retomar ao menos uma das Casas, o que pode tornar os dois últimos anos de mandato presidencial um mero exercício de frustrações legislativas. Ao contrário do que prometeu em 2024, o custo de vida não teve uma queda expressiva, e as políticas de seu segundo mandato, centradas em um ordem conservadora e narcisista, não serviram para ampliar a base de apoiadores. — Se você me perguntar: quando pais e mães se deitam para dormir à noite e não conseguem, com o que eles mais se preocupam? Eu diria que é com o custo de vida — disse o senador republicano John Kennedy ao portal Politico. — É nisso que eu acredito, mas ele é o presidente, foi eleito pelo povo e pode falar sobre o que quiser. A guerra contra o Irã — contrariando sua promessa de não envolver os EUA em novos conflitos —, contribuiu para a queda da aprovação até entre republicanos. Os impactos da "Operação Fúria Épica" no bolso, em especial nos postos de combustível, foram encarados por analistas e até aliados como uma pá de cal. Segundo pesquisa Washington Post-Ipsos, divulgada na quarta-feira, a desaprovação dele é de 61%, chegando a 65% entre os eleitores independentes. Os índices são relativamente elevados em nichos leais ao trumpismo, como homens brancos (54%), evangélicos brancos (30%) e em áreas rurais (48%). — Se passarmos o tempo olhando pelo retrovisor em vez de pelo para-brisa, levaremos nossa coalizão direto para um precipício político — disse um membro de uma campanha republicana ao Senado, em condição de anonimato ao Politico.
Trump acusa China de interferência nas eleições de 2020 e anuncia divulgação de documentos sigilosos; acompanhe
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