O lugar lembra um cenário de guerra. É um labirinto de destruição em que túneis, escadarias e emaranhados de ferro retorcido juntam pó na escuridão, esquecidos debaixo dos nossos pés. Esse subsolo de ruínas é uma estrutura cavernosa de galerias e passagens construídas pela metade debaixo da avenida Paulista, o avesso do cartão-postal de São Paulo.

O inferno de concreto, face subterrânea da força da grana que ergue e destrói coisas belas, agora está no centro de um livro e de uma exposição da artista Sonia Guggisberg, que há anos vem documentando o que então se chamou, no bom marketing político, de Nova Paulista.

O projeto da década de 1970, em plena ditadura militar, pretendia criar uma via expressa logo abaixo da avenida, acelerando o trânsito no subsolo para deixar a vida correr solta na superfície, como acontece hoje aos domingos com a via fechada para o trânsito de carros. Desavenças políticas levaram ao fim das obras, mas uma carcaça de infraestrutura viária ainda apodrece ali, um mausoléu de memórias urbanas que a artista devassa num gesto de arqueologia da metrópole.

Todo o processo, que rendeu um documentário e agora se transforma no livro "Testemunhos de Subsolo" e numa exposição, em outubro, no Paço das Artes, revela como os poderes, políticos, intelectuais, ou frutos da vaidade, moldam os nossos espaços de vida. É ao mesmo tempo um lamento e uma celebração, a ideia de ruína urbana não como cemitério de ideias mas testemunho de liberdades ainda possíveis.