Um abraço tão violento que pode asfixiar, o amor que se expressa pelo prisma da mais brutal violência, está no centro do ringue. Uma performance do artista Gian Gigi Spina que acontece nesta semana no Rio de Janeiro leva para o centro do ringue de jiu-jitsu um corpo a corpo ambivalente, a vontade tóxica de estar juntos, dolorosa e aflitiva a ponto de querer esmurrar quem está perto de nós, e também beijar, lamber, atravessar.

Spina, que conta ter buscado na luta a saída para um caso de depressão profunda e o que parecia uma sensação incontornável de solidão, encena o tesão por meio da guerra.

Ele diz que machuca, por isso talvez não se possa falar em tesão, mas há contradições no discurso. A adrenalina do combate corpo a corpo, ou corpo colado com corpo, como exigem os movimentos dessa luta, embaçam os limites entre dor e prazer, vida e morte. É nessa visão entre extremos que se ancora uma encenação presa entre dentes, ou melhor, nos protetores bucais que levam as inscrições que dão nome à ação, uma tal "distância entre nós", tão mínima que se torna um abismo paradoxal. Dente com dente, pele com pele, poro com poro, e um oceano de fúria que se agita entre corpos trêmulos.

Spina leva à superfície da própria carne uma inquietação que antes sobrevoava os conflitos do mundo. Suas fotografias, vídeos e relatos escritos já se debruçaram sobre a carnificina em curso no Oriente Médio, sejam eles vistos na Palestina, por onde viajou, ou na distância insegura do Líbano, do Egito e dos Emirados Árabes Unidos, países onde viveu nos últimos tempos como testemunha errante do horror, o mundo em chamas sentido na pele que roça a do outro, tão adversário quando amante improvável, sobre o tatame.