Em um tempo saturado de estímulos visuais, sentir qualquer coisa tornou-se uma tarefa quase árdua. "Proibido para Menores de 18 Anos", concebido e escrito por Felipe Hintze e Nicolas Ahnert, parte exatamente desse ponto cego da sensibilidade moderna.
Em cartaz no Teatro Estúdio, em São Paulo, o espetáculo coloca Hintze no centro do palco em seu primeiro monólogo, interpretando um homem que trabalha na última lan house sobrevivente de uma metrópole. O espaço, já anacrônico, serve como metáfora para uma existência que perdeu a conexão com o mundo real. Ali, a vida corre mediada pelo brilho azulado dos monitores.
A ruptura dessa rotina monótona surge com um acidente de trânsito visto por acaso na rua. Diante da lataria retorcida e do cadáver do motorista, o protagonista experimenta um estalo que a vida comum já não lhe oferecia. O choque transforma-se em fascínio.
O atendente passa a vasculhar a vida do morto, descobre suas senhas, persegue seus rastros digitais e telefona repetidamente para a ex-namorada da vítima, cuja presença surge na voz de Débora Falabella em off. A dor do outro vira estímulo, um empréstimo de adrenalina para quem já não consegue produzir a própria.
A montagem bebe de referências claras, sem se tornar refém delas. Há um eco direto de Susan Sontag na forma como a plateia é confrontada com o consumo voyeurístico da tragédia, e uma herança de J. G. Ballard ao cruzar carne, metal e desejo na esteira do desastre.







