Há um canto do Ibirapuera em que a cidade se despe da pressa. Na praça desenhada por Roberto Burle Marx, o espelho d'água recolhe o céu de São Paulo, e um galpão dos anos 1930 –mais antigo que o próprio parque– guarda o silêncio das coisas que perderam a função. Ali já se fabricaram bondes, já se serrou madeira. Hoje, a velha Serraria é um vão coberto à espera de destino.
Burle Marx, aliás, imaginou esse destino. Ao desenhar a praça, em 1992, previu que o galpão abrigasse exposições permanentes, com áreas de apoio ao visitante. Dar vida ao prédio não é invenção recente: está na origem do próprio paisagismo que o emoldura.
Pois o destino voltou a ser desenhado. A concessionária do parque propôs requalificar a Serraria: restaurar o prédio, fechá-lo parcialmente com vidro –preservando a leveza do conjunto– e criar um mezanino com áreas de esporte e bem-estar. O investimento, de dezenas de milhões de reais, não é exigido pelo contrato de concessão. É uma liberalidade: o concessionário decidiu fazê-lo apostando que um espaço belo e vivo atrai frequentadores, patrocinadores, receitas. Se desistir, nada lhe acontece. Quem perde é o usuário do parque.
O projeto foi debatido por mais de cinco anos e aprovado por todas as instâncias de patrimônio: o Iphan, no plano federal; o Condephaat, no estadual; o Conpresp, no municipal. Não faltou escrutínio: houve audiências públicas, críticas, revisões.






