Ao cruzar a entrada da Fazenda Vargem Grande, em Areias, no interior de São Paulo, Roberto Burle Marx gostava de olhar para o chão em busca das sementes dos ipês-amarelos que havia plantado. O paisagista pedia às pessoas que circulavam pelo local — onde fica um dos principais jardins privados que criou — que recolhessem as sementes espalhadas e as lançassem pela floresta em torno do espaço, no Vale do Paraíba. Era uma forma de reflorestar e de deixar a mata ao redor mais colorida. O jardim da fazenda, que começou a ser desenvolvido em 1979, foi um dos grandes experimentos de Burle Marx, que morreu em 1994, aos 84 anos. Experimento mesmo, neste caso. O paisagista gostava de introduzir diferentes espécies de plantas no local — muitas delas aquáticas — como se fosse um teste, antes de utilizá-las em outras criações. — Era um grande laboratório vivo para ele. Então, sempre estava testando coisas, experimentando possibilidades. A gente tem, por exemplo, no centro do jardim, uma paineira em que ele fez um enxerto. Por causa disso, ela não cresce muito. Você sobe em uma escada e já consegue ficar na altura dos galhos e das flores, que são uma coisa impressionante — conta Bel Gomes, que organizou o livro “Roberto Burle Marx na Fazenda Vargem Grande”, com a irmã, Malu. A mãe de Burle Marx, Cecília, cuidava do jardim na casa da família, e foi com ela que o futuro paisagista aprendeu a lidar com as plantas. Mas foi durante uma temporada na Alemanha, para onde se mudou com a família aos 19 anos, em 1928, que teve a epifania definidora dos rumos da sua vida, ao conhecer as estufas de plantas brasileiras no Jardim Botânico de Dahlem, em Berlim. Na volta ao Brasil, Burle Marx começou a cuidar do jardim da casa da família. O trabalho chamou a atenção do arquiteto Lúcio Costa, que o convidou em 1932 a pensar o paisagismo de uma residência em Copacabana desenvolvida ao lado de Gregori Warchavchik (que criou o primeiro projeto de arquitetura moderna do Brasil, a Casa Modernista da Rua Santa Cruz, em São Paulo, em 1928). Ali estava a gênese dos traços orgânicos e abstratos que o paisagista desenvolveria nos projetos dali em diante. Casa de Alfredo Schwartz, em Copacabana, projeto de Gregori Warchavchik e Lucio Costa, com jardins criados por Burle Marx, em 1932 — Foto: Acervo da Biblioteca da FAU-USP/Divulgação Casa de Alfredo Schwartz, em Copacabana, projeto de Gregori Warchavchik e Lucio Costa, com jardins criados por Burle Marx, em 1932 — Foto: Acervo da Biblioteca da FAU-USP/Divulgação A criação, que marca o início da trajetória de Burle Marx no paisagismo, completando 95 anos no ano que vem, trazia uma diferença em relação aos demais projetos modernistas, que priorizavam linhas retas e simetria. Burle Marx rompeu parcialmente com esse modelo ao introduzir canteiros redondos e formas curvas — elementos mais orgânicos e fluidos — que se tornariam uma marca. Essa estruturação pode ser vista nos projetos apresentados na exposição “Plantas em movimento”, em cartaz no Museu Judaico de São Paulo, na Bela Vista, com curadoria de Isabela Ono e Guilherme Wisnik. — Para ele, não era só a vegetação que estruturava um projeto paisagístico. Era preciso pensar que existe a concretização espacial: caminhos, lagos e a parte arquitetônica — observa Isabela, diretora executiva do Instituto Burle Marx e filha de Haruyoshi Ono, que trabalhou com o paisagista por cerca de 30 anos. — O paisagismo é um processo. Na mostra, vemos desenhos em guache de projetos. São obras de arte, coloridas. Você olha e pensa: “Isso poderia ser um quadro”. Mas é um projeto. Isabela ensina a ler os desenhos a partir da lógica com a qual foram criados: — O que parece apenas uma mancha vermelha, laranja ou verde, representa massas de vegetação com volume, textura e cor. O crescimento das plantas já era planejado. Muitas vezes há um círculo ou um asterisco indicando uma palmeira ou uma árvore. Eles já previam a questão do tempo. Projeto triangular da Praça dos Cristais do Ministério do Exército, em Brasília, elaborado em 1971 por Roberto Burle Marx — Foto: Acervo Instituto Burle Marx/Divulgação A exposição reúne, além destes desenhos, fotografias e filmagens. O paisagismo aparece como uma linguagem em que as espécies funcionam como parte de um vocabulário vivo. Burle Marx tinha alguns “vocábulos” de preferência. Gostava de combinar espécies comuns no Brasil com outras de fora do país, configurando um “paisagismo cosmopolita”, como descreve Guilherme Wisnik. — Ele promoveu uma grande virada. Fez no paisagismo algo próximo do que a antropofagia de Oswald de Andrade propunha: devorar o estrangeiro a partir de uma lógica própria e local. Passou cada vez mais a trazer para primeiro plano o que antes ficava nos fundos das casas e nos quintais: espécies nativas como bananeiras, bromélias e jaqueiras. Eram espécies tropicais vistas até com certa vergonha e transforma em motivo de orgulho — lembra. — Burle Marx priorizava uma combinação de espécies nativas, ou de determinadas regiões, com espécies exóticas vindas de outros países, muitas delas asiáticas e africanas. A multiplicidade de referências também aparecia em outras áreas da vida de Burle Marx. Ele cantava ópera — vinha de uma família erudita em que o irmão, Walter, era maestro — cozinhava muito bem, produzia joias, fazia arranjos de flores, esculpia e era um exímio artista plástico, com obras que exploravam elementos da paisagem e plantas em formas muitas vezes abstratas. Familiarizados com sua obra costumam compará-lo, em certa medida, a nomes como Pablo Picasso e Michelangelo, por essa variedade de formas com que criou. Valorizar o ‘mato’ Depois de o então governador de Pernambuco, Lima Cavalcanti, ver o primeiro trabalho do paisagista em Copacabana, o convidou a assumir a direção do Setor de Parques e Jardins do Recife. Nas criações desta fase, Burle Marx já precisou enfrentar uma forte opinião pública contrária à sua escolha por plantas nativas. As pessoas ainda não estavam acostumadas a ver cactos e bromélias, considerados simples “mato”, e preferiam rosas, seguindo uma linha europeia. Ele continuou, entretanto, com essa ideia, levando-a depois a projetos reconhecidos internacionalmente, como o Parque do Flamengo — que conta com 17 mil árvores plantadas e mais de 240 espécies de plantas —, no Rio de Janeiro; a Praça dos Cristais (além de outros projetos em órgãos públicos), em Brasília; e os jardins da sede da Unesco, em Paris. Estudo de perspectiva para o Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, criado por Roberto Burle Marx — Foto: Acervo Instituto Burle Marx/Divulgação Esse renome internacional será marcado em exposições na Europa nos próximos meses. Em outubro, o Centro Paul Klee, em Berna, na Suíça, abre uma exposição sobre o trabalho do paisagista, que depois, em março de 2027, seguirá para a Fundação Juan March, em Madri, na Espanha. Ambas as mostras terão cocuradoria do Instituto Burle Marx, que herdou o acervo do escritório do paisagista e tem recebido visitas de curadores das duas instituições desde 2024. ‘Espírito do lugar’ Burle Marx não tinha uma fórmula, afirma o paisagista Ricardo Marinho, que trabalhou com ele a partir da década de 1970. Juntos, desenvolveram mais de 20 projetos, principalmente em Fortaleza, onde Marinho ainda mantém um escritório até hoje. — Sempre achei especial a capacidade de sentir o espírito do lugar antes de projetar. Para ele, o vento era importante, a cor do céu, a luz do sol, o solo, a água. Tudo isso contava porque ele não trabalhava com fórmulas prontas. Cada projeto era único. Se estivesse projetando para um padre, era uma coisa. Para um general, era outra — conta Marinho. — E mesmo sendo um profissional de bagagem enorme, nunca se negou a compartilhar o que sabia. Era uma maneira de ele se multiplicar. Jardins, telas e estudos para projetos de Burle Marx 1 de 10 Projeto da Fazenda Vargem Grande, criado em 1979 por Roberto Burle Marx — Foto: Acervo Instituto Burle Marx/Divulgação 2 de 10 Estudo para tapeçaria criado por Roberto Burle Marx sem data — Foto: Acervo Instituto Burle Marx/Divulgação X de 10 Publicidade 10 fotos 3 de 10 Casa de Alfredo Schwartz, em Copacabana, projeto de Gregori Warchavchik e Lucio Costa, com jardins criados por Burle Marx, em 1932 — Foto: Acervo da Biblioteca da FAU-USP/Divulgação 4 de 10 Casa de Alfredo Schwartz, em Copacabana, projeto de Gregori Warchavchik e Lucio Costa, com jardins criados por Burle Marx, em 1932 — Foto: Acervo da Biblioteca da FAU-USP/Divulgação X de 10 Publicidade 5 de 10 'Mangue', pintura de Roberto Burle Marx sem data — Foto: Acervo Instituto Burle Marx/Divulgação 6 de 10 Estudo para o Parque do Derby, no Recife, elaborado por Roberto Burle Marx — Foto: Acervo Instituto Burle Marx/Divulgação X de 10 Publicidade 7 de 10 Projeto triangular da Praça dos Cristais do Ministério do Exército, em Brasília, elaborado em 1971 por Roberto Burle Marx — Foto: Acervo Instituto Burle Marx/Divulgação 8 de 10 Projeto criado por Roberto Burle Marx para o Parque Recreativo Rogério Pithon Serejo Farias, em Brasília, hoje rebatizado como Parque da Cidade Dona Sarah Kubitschek — Foto: Acervo Instituto Burle Marx/Divulgação X de 10 Publicidade 9 de 10 Estudo de perspectiva para o Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro, criado por Roberto Burle Marx — Foto: Acervo Instituto Burle Marx/Divulgação 10 de 10 Roberto Burle Marx, paisagista e multiartista — Foto: Marcel Gautherot/Coleção Instituto Moreira Salles/Divulgação X de 10 Publicidade . Tudo isso foi levado em conta ao criar o grande jardim da Fazenda Vargem Grande. Burle Marx já tinha uma amizade de longa data com o proprietário, o empresário Clemente Fagundes Gomes, pai de Bel e Malu Gomes, organizadoras do livro que traz a história desde o início do projeto. Casado com Bel há mais de 40 anos, o ator Leopoldo Pacheco é uma das pessoas à frente do cuidado com o jardim, que também recebe visitas agendadas do público. A missão é fazer com que o espaço permaneça da forma como Burle Marx imaginou, inclusive com as vitórias-régias previstas no projeto original. E o artista aprendeu a reproduzir a planta a partir de uma lógica observada na Amazônia. A ideia era recriar, na fazenda, o mesmo ciclo vivido pela vitória-régia, alternando períodos de cheia e seca para estimular a germinação das sementes. — E não é que deu certo? Consegui reproduzir vitória-régia por semente. Não falta mais agora. Essas experiências são muito transformadoras na vida — afirma o ator, que também aprendeu a observar a saúde das plantas e tratá-las, quando preciso. Serviço “Plantas em movimento” Onde: Museu Judaico de São Paulo. Rua Martinho Prado, 128. Bela Vista, São Paulo. Visitação: terça a domingo, das 10h às 18h (última entrada às 17h30). Até 2 de agosto. Quanto: R$ 24,00 (inteira), R$ 12,00 (meia). Sábados são gratuitos. “Roberto Burle Marx na Fazenda Vargem Grande” Autoras: Bel e Malu Gomes. Editora: Dico Edições. Páginas: 167. Preço: R$ 150. Vendas pelo site da editora.
Às vésperas dos 95 anos de seu primeiro jardim, como Burle Marx fez do 'mato' símbolo de um novo paisagismo
Criação do paisagista multiartista é celebrada em exposições em São Paulo e na Europa e em livro que conta histórias sobre o projeto que foi seu 'laboratório vivo'














