"Quem não deve não teme", todo mundo já ouviu. "Quem andava direito aqui no Brasil durante o regime militar não tinha problema". Conhecemos bem a retórica de quem defende o autoritarismo e a violação de direitos. Mesmo sendo tentador, não vou perguntar se quem fala isso continuaria com a mesma posição caso seu filho, filha ou irmão fosse levado para a cadeia por pichar um muro. Ou sem motivo. Melhor falarmos apenas sobre o Estado.
Uma das justificativas do Estado moderno é que abrimos mão de exercer a violência individualmente e entregamos a ele o poder de nos proteger. Mas quem nos protege da violência do próprio Estado?
El Salvador registrou 103 homicídios para cada 100 mil habitantes em 2015, uma das maiores taxas do mundo. Segundo o governo de Nayib Bukele, em 2025, 82 pessoas foram assassinadas em todo o país. Nesse número não estão as mortes provocadas pela polícia, mortes violentas dentro das prisões e corpos encontrados em valas clandestinas.
As denúncias de organizações de direitos humanos falam em mais de 500 mortes nas prisões de quem estava sob responsabilidade do Estado, muitas antes de serem julgadas culpadas ou inocentes. Desaparecimentos e prisões arbitrárias são tratadas como efeito colateral da atuação do Estado contra o crime organizado.









