Controle chinês sobre informação, política, cultura e religião na região autônoma ajuda a explicar a complexa relação com Pequim 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Refugiados tibetanos têm a cabeça raspada durante ato em apoio a ativista que ateou fogo ao próprio corpo em frente à sede da ONU, em julho, em protesto contra controle chinês — Foto: DIBYANGSHU SARKAR/AFP Apesar das dificuldades, os esforços para o resgate das vítimas da grande enchente na fronteira entre o Nepal e o Tibete (região autônoma controlada pela China) continuam quatro dias após o desastre, que deixou ao menos 682 mortos e quase 3 mil desaparecidos. Enquanto imagens, depoimentos e dados circulam de maneira facilitada em território nepalês, jornalistas relatam que informações verificadas sobre a situação no lado tibetano têm sido mais escassas pelas restrições impostas por Pequim, em uma região cuja história é marcada por décadas de tensões. Gyirong, no lado tibetano, foi uma das áreas mais atingidas pela enxurrada. Segundo as autoridades chinesas, sete pessoas morreram e mais de 500 estão desaparecidas, entre elas 260 estrangeiros. O presidente chinês, Xi Jinping, determinou uma operação de resgate em larga escala, e, um dia após a tragédia, enviou o premier Li Qiang ao condado para supervisionar as ações, movimento visto como raro pela imprensa internacional e que poderia indicar um esforço de Pequim para controlar de perto a situação. O professor Emiliano Unzer, titular de História da Ásia na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), discorda, porém, de que as ações de Pequim até agora demonstrem indiferença ou uma tentativa de ocultar informações. ‘Meus familiares foram levados diante dos meus olhos’: Vítimas de inundação no Nepal narram desastre — É verdade que o acesso de jornalistas estrangeiros segue restrito por um sistema de permissões que já existia antes — diz ao GLOBO. — O problema não é uma suposta hostilidade ao resgate, mas sim a ausência estrutural de um mecanismo de compartilhamento de dados hidrológicos e glaciológicos em tempo real com o Nepal, algo que precede esta enchente e que, se corrigido, ajudaria a antecipar próximos eventos. 'Sinização' A questão da liberdade de imprensa no Tibete tem sido observada por ONGs como a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), que afirma que a região, mais do que em qualquer outra parte da China, é mantida sob rédeas curtas pelo governo. Um dos exemplos, diz a organização, é a expansão de programas da emissora estatal de rádio da China, propagados em língua tibetana, que tem sido apontada como parte da estratégia de Pequim para ampliar sua influência sobre o espaço informacional regional. Várias organizações de direitos humanos denunciam que, há décadas, a China mantém no Tibete um sistema de controle que inclui vigilância, restrições à liberdade de expressão e de religião, além de políticas de controle sobre instituições budistas e de integração da população tibetana. A Anistia Internacional e a Human Rights Watch classificam esse processo como "sinização". Um exemplo recente desse movimento, apontam, é a Lei de Unidade Étnica e Progresso, que entrou em vigor em julho e estabelece o mandarim como principal idioma para educação e administração, em detrimento de línguas de minorias étnicas, como o tibetano, uigur e mongol. Veja fotos das Inundações no Nepal 1 de 13 Casas ficam parcialmente submersas em água barrenta ao longo da margem de um rio após inundações — Foto: Prabin RANABHAT / AFP 2 de 13 Casas ficam parcialmente submersas em água barrenta ao longo da margem de um rio — Foto: Prabin RANABHAT / AFP X de 13 Publicidade 13 fotos 3 de 13 Equipes de resgate usam uma escavadeira para transportar uma pessoa afetada por inundações repentinas em Devghat, no distrito de Nuwakot, no Nepal, em 26 de agosto de 2026 — Foto: Prakash MATHEMA / AFP 4 de 13 Casas ficam inundadas de lama após inundações repentinas em Devghat, no distrito de Nuwakot, no Nepal — Foto: Prakash MATHEMA / AFP X de 13 Publicidade 5 de 13 Equipes de resgate carregam uma pessoa afetada por inundações repentinas em Devghat — Foto: Prakash MATHEMA / AFP 6 de 13 Uma casa fica inundada de lama após inundações repentinas em Trishuli Bazar, no distrito de Nuwakot — Foto: Prabin RANABHAT / AFP X de 13 Publicidade 7 de 13 Moradores observam casas parcialmente submersas em água barrenta após inundações repentinas em Trishuli Bazar, no distrito de Nuwakot, no Nepal, — Foto: Prakash MATHEMA / AFP 8 de 13 Uma casa fica parcialmente submersa em água barrenta após inundações repentinas em Trishuli Bazar, no distrito de Nuwakot, no Nepal — Foto: Prakash MATHEMA / AFP X de 13 Publicidade 9 de 13 Moradores observam uma torrente de água barrenta avançar por um rio após inundações repentinas no Nepal em 26 de agosto de 2026. — Foto: Prakash MATHEMA / AFP 10 de 13 Uma torrente de água barrenta avança por um rio após inundações repentinas em Galchhi, no distrito de Dhading, no Nepal — Foto: AFP X de 13 Publicidade 11 de 13 Uma inundação massiva atingiu o distrito de Rasuwa, no norte do Nepal, em 26 de agosto, danificando estradas e a infraestrutura de energia enquanto as autoridades se mobilizavam para avaliar a extensão da destruição — Foto: Prabin RANABHAT / AFP 12 de 13 Casas ficam inundadas de lama após inundações repentinas em Devghat, no distrito de Nuwakot, no Nepal — Foto: Prakash MATHEMA / AFP X de 13 Publicidade 13 de 13 Uma casa fica inundada de lama após inundações repentinas em Devghat, no distrito de Nuwakot, no Nepal — Foto: Prabin RANABHAT / AFP Paralelamente, a contínua falta de representação tibetana em cargos de alto nível no Partido Comunista Chinês (PCC) também é um ponto de tensão, denuncia a Campanha Internacional para o Tibete (ICT, na sigla em inglês), sediada em Washington, EUA. Segundo um relatório do ICT divulgado poucos dias antes da tragédia, atualmente tibetanos ocupam apenas 62 (25,8%) dos 240 cargos de alta liderança entre as dez categorias de instituições do PCC. Os não-tibetanos ocupam a maioria: 178 (74,2%). 'Libertação pacífica' O Tibete tem uma relação complexa com diferentes governos chineses ao longo da História, e seu status político antes da incorporação à República Popular da China, em 1951, continua em disputa. Para entender a origem das divergências, explica Unzer, é preciso olhar para trás. O Tibete constituiu um poderoso império entre os séculos VII e IX e, posteriormente, passou a integrar diferentes estruturas imperiais asiáticas. No século XVIII, a dinastia Qing (a última dinastia imperial da China) consolidou sua autoridade sobre a região, mas o governo tibetano manteve sua autonomia interna em assuntos religiosos, sociais e administrativos. A situação mudou com a queda da dinastia, em 1911. Segundo Unzer, o governo do 13º Dalai Lama (título dado ao líder espiritual do budismo tibetano) expulsou as forças chinesas e, entre 1912 e 1950, o Tibete passou a exercer ampla autonomia, mantendo governo, moeda, Forças Armadas e instituições próprias. Para Pequim, porém, a queda de uma dinastia não dissolveria a unidade territorial do Estado, o que significaria que a República da China herdaria os territórios do antigo império, incluindo o Tibete. Foi com base nesse argumento que Pequim retomou a reivindicação sobre o território em 1949 e passou a exercê-la militarmente em 1950. — Para o governo chinês, tratava-se da recuperação e reintegração de um território considerado parte da China, não da conquista de um país estrangeiro — afirma Unzer. A incorporação foi então formalizada no ano seguinte, pelo Acordo dos 17 Pontos, que reconhecia a soberania chinesa, mas previa autonomia para o Tibete e a preservação de seu sistema político e religioso. Porém, representantes tibetanos contestaram sua validade, afirmando que o acordo havia sido assinado sob pressão militar. "Embora Pequim celebre a data como o aniversário da 'Libertação Pacífica' do Tibete, da perspectiva histórica tibetana, ela representa não a libertação, mas a destruição violenta de sua independência por meio de invasão militar e intimidação política", escreveu o jornalista tibetano Gyaltsen Choedak, radicado na Índia, no portal Tibetan Review, no aniversário de 75 anos do tratado, em março. Região de interesse Essa disputa, entretanto, está longe de ser apenas histórica ou religiosa, já que o Tibete — chamado de Xizang pela China — ocupa uma posição estratégica para Pequim. O professor explica que o Planalto Tibetano, que fica na fronteira sudoeste da China, concentra as nascentes ou cabeceiras de alguns dos principais rios da Ásia, sendo uma das principais reservas do continente. O fator central, porém, é outro: — Sua altitude, posição e extensão proporcionam enorme profundidade estratégica — afirma Unzer. — A guerra sino-indiana de 1962 e a persistência da disputa fronteiriça demonstram por que Pequim considera o Tibete uma questão de segurança nacional. Próximo Dalai Lama As tensões também têm uma dimensão religiosa sensível, envolvendo inclusive o futuro da liderança espiritual. No ano passado, o 14º Dalai Lama afirmou que seu sucessor será identificado segundo a tradição tibetana, sob responsabilidade do Gaden Phodrang Trust — organização criada em 2011 em Dharamsala, na Índia, onde ele vive desde que fugiu do Tibete em 1959. O Dalai Lama disse que reencarnará no mundo livre, fora do Tibete ou da China — Foto: Divulgação Por sua vez, Pequim, que não reconhece essa autoridade, defende que a sucessão das grandes figuras reencarnadas do budismo tibetano deve respeitar os procedimentos reconhecidos pelo Estado chinês. O precedente do Panchen Lama, segundo líder espiritual do budismo tibetano, também mostra a dimensão dessa disputa religiosa, destaca Unzer. Em 1995, o Dalai Lama reconheceu Gedhun Choekyi Nyima como reencarnação dessa figura, enquanto Pequim reconheceu Gyaincain Norbu. Desde então, os dois são apontados como legítimos: — O mesmo cenário poderá ocorrer com o Dalai Lama, provavelmente em escala muito maior.