Montanha tem significado sagrado para o hinduísmo, o budismo, o jainismo e a tradição tibetana bon 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Equipes de resgate reparam uma estrada danificada que leva ao porto de Gyirong após um deslizamento de terra, em Shigatse, na Região Autônoma do Tibete, China, em 27 de agosto de 2026. — Foto: China Daily via REUTERS Mais de 100 das quase 1.300 pessoas desaparecidas após a grande avalanche de lama em uma região de fronteira entre o Nepal e a China participavam de uma peregrinação ao monte Kailash, local sagrado no Himalaia. O desastre deixou pelo menos 353 mortos até o momento e centenas de desabrigados em toda a região. O Conselho de Turismo do Nepal informou que 179 dos desaparecidos eram cidadãos indianos, e autoridades disseram que a maioria participava de peregrinações ao monte Kailash. Ainda não havia informações sobre o paradeiro de 65 americanos, 35 australianos, 33 britânicos e 25 canadenses. Jaggi Vasudev, um guru espiritual indiano também conhecido como Sadhguru, afirmou em uma publicação no X que 77 pessoas que retornavam da montanha em grupos organizados por sua Fundação Isha estavam em um centro de imigração em Gyirong, no Tibete, quando ocorreram as enchentes. O monte Kailash é um pico do Himalaia localizado no sudoeste do Tibete, próximo às fronteiras da China com Nepal e Índia. Com mais de 6.400 metros de altitude, fica perto do lago Manasarovar. Ambos fazem parte há muito tempo de tradições religiosas e literárias em sânscrito. A montanha tem significado sagrado para o hinduísmo, o budismo, o jainismo e a tradição tibetana bon. Cada uma dessas religiões a associa a diferentes crenças e histórias sagradas. Segundo o Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (Icimod), o monte é considerado a morada de Shiva, deus hindu da transformação, e de Parvati, deusa hindu associada ao casamento, à fertilidade e à maternidade. Os seguidores da tradição tibetana bon consideram o local uma sede de poder espiritual e associam a região a Tonpa Shenrab, fundador da tradição. A geógrafa Emily Yeh, professora da Universidade do Colorado em Boulder e pesquisadora do Tibete, escreveu em 2017 que Kailash é associado ao mítico monte Meru, considerado o centro do mundo nas cosmologias hindu e budista. A paisagem ao redor também aparece em lendas locais e tradições do Himalaia. “Shared Sacred Landscapes” (“Paisagens Sagradas Compartilhadas”), livro publicado pelo ICIMOD em 2017, reúne algumas delas. Esta foto, divulgada pela agência de notícias Xinhua, mostra uma área atingida por um deslizamento de terra perto do porto de Gyirong, em 26 de agosto de 2026, na Região Autônoma do Tibete, no sudoeste da China — Foto: Xinhua via AP Uma das histórias relata como Guru Nanak, fundador do sikhismo, visita moradores de uma aldeia que desejam fazer a peregrinação ao monte Kailash. Nanak lhes ensina que a verdadeira peregrinação é uma jornada espiritual interior. Todos os anos, o governo da Índia organiza uma peregrinação oficial a Kailash e Manasarovar entre junho e agosto ou setembro, por rotas que atravessam os Estados de Uttarakhand e Sikkim. Operadoras privadas também organizam peregrinações pelo Nepal. Em vez de escalar Kailash, os peregrinos costumam dar a volta na montanha, percorrendo um circuito de aproximadamente 53 quilômetros. Acredita-se que o percurso ao redor do pico purifique os peregrinos de seus pecados e pode levar cerca de três dias para ser concluído. Segundo a tradição, hindus e budistas contornam a montanha no sentido horário, enquanto seguidores da tradição bon fazem o trajeto no sentido contrário. No vizinho lago Manasarovar, alguns peregrinos hindus se banham nas águas como parte de um ritual de purificação espiritual. Yeh escreveu que peregrinos tibetanos fazem paradas em mosteiros e outros locais sagrados ao longo do percurso, tocando com seus rosários ou com a testa em elementos que, segundo a crença, carregam marcas sagradas. Outros rituais buscam colocar à prova o mérito, os pecados ou a sorte do peregrino. A avalanche de lama de quarta-feira ocorreu após o colapso de uma geleira lançar detritos rio abaixo, atingindo comunidades dos dois lados da fronteira entre o Nepal e o Tibete. Deslizamentos semelhantes têm atingido a região à medida que o aumento das temperaturas torna o gelo do Himalaia cada vez mais instável.