Não se espera que a substituição, por parte de Trump, de uma guerra militar por uma guerra econômica mais intensa altere a estratégia do Irã, ao mesmo tempo em que empobrece ainda mais seu povo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Mulher passa em frente a mural com foto de ex-líder supremo Ali Khamenei, morto por ataque dos EUA e de Israel no primeiro dia da guerra contra o Irã — Foto: ATTA KENARE / AFP/ 8-8-2026 Era para ter sido rápido. No entanto, seis meses após os Estados Unidos e Israel terem lançado ataques aéreos em grande escala contra o Irã, o conflito se arrasta. O governo Trump substituiu a guerra militar por uma guerra econômica, mas analistas apontam que o resultado provavelmente não será diferente, dada a falta de clareza dos EUA quanto aos objetivos, ao declínio da credibilidade do país e a uma derrota estratégica. Uma coisa, porém, permanece constante. A população do Irã está arcando com o peso da guerra, sendo vítima tanto dos Estados Unidos quanto de seus próprios líderes. No primeiro dia da guerra, em 28 de fevereiro, o presidente americano, Donald Trump, prometeu aos iranianos que “a hora da sua liberdade está próxima”. Seis meses depois, seu governo está tentando empobrecer ainda mais o povo iraniano, alimentando a esperança de que eles se revoltem contra um regime repressivo e militarizado e o derrubem. O governo iraniano, cada vez mais dominado por militares, vê sua própria sobrevivência como a sobrevivência da nação e considera os sacrifícios dos iranianos comuns um ato necessário de patriotismo e até mesmo de martírio. As lideranças do país tem se mostrado cada vez mais implacáveis na repressão aos menores sinais de dissidência. É difícil disfarçar o que tem sido claramente um fracasso dos Estados Unidos em subjugar o Irã à sua vontade, apesar do poderio das Forças Armadas combinadas dos EUA e de Israel. Não só a República Islâmica sobreviveu, como também controla efetivamente o Estreito de Ormuz, fortalecendo sua influência na região. Até mesmo os países que o Irã bombardeava há alguns meses estão tentando reativar os laços com o país. — A guerra não conseguiu alcançar os objetivos dos EUA — afirmou Sanam Vakil, diretora do programa para o Oriente Médio e Norte da África do Chatham House. Suzanne Maloney, especialista em Irã e diretora de política externa da Brookings Institution, considerou a guerra um fracasso. “Causamos muitos danos ao Irã, mas eles saíram mais fortes do que antes”, afirmou ela. Os vizinhos do Irã decidiram que precisam encontrar uma forma de conviver com uma República Islâmica que veio para ficar. A credibilidade dos EUA entre seus aliados foi prejudicada, assim como a própria reputação de Trump de evitar guerras caras e intermináveis no Oriente Médio e de promover a “acessibilidade” no país. E isso fez com que sua promessa de libertar os iranianos comuns parecesse vazia. — Essa guerra realmente tomou conta da Presidência de Trump — disse Maloney. O regime sobrevive A “Operação Fúria Épica” teve início com um ataque surpresa conjunto dos EUA e de Israel ao Irã, que resultou na morte do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, e de muitos de seus assessores, além de ferir gravemente seu filho e atual sucessor, Mojtaba Khamenei. Semanas de bombardeios intensos destruíram grande parte da Força Aérea e da Marinha do Irã e causaram graves danos ao seu programa de mísseis. Mas a população não se rebelou, e a liderança não se dividiu. As Forças Armadas do Irã restauraram muitos de seus lançadores de mísseis e atacaram aliados-chave dos EUA na região, bem como bases americanas, que estavam mal defendidas. O país bloqueou efetivamente o Estreito de Ormuz e causou perturbações na economia global. Vários mil iranianos, incluindo crianças, morreram — os números são difíceis de verificar —, além de 18 militares americanos. A “Operação Fúria Épica” original foi substituída pelo que o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou na segunda-feira como “Operação Pária Econômico”, destinada a isolar ainda mais o Irã e derrubar sua economia já gravemente abalada. — Esta é uma campanha contínua para eliminar até a última opção do Irã. A campanha que iniciamos hoje ganhará força a cada dia que passar e não terminará até que esse regime fique isolado — disse Bessent. Apesar dos floreios retóricos sobre o Dia D e a queda do Muro de Berlim, Bessent não indicou quanto tempo essa guerra econômica vai durar, quais instrumentos serão utilizados nem quais são seus objetivos. Será que o objetivo dos EUA é, mais uma vez, o colapso do regime? Ou forçar a abertura do Estreito de Ormuz? Ou levar um Irã mais desesperado de volta à mesa de negociações para chegar a um acordo sustentável tanto sobre o estreito quanto sobre o programa nuclear iraniano? — Não há uma articulação clara dos objetivos dos Estados Unidos Mas, se não definirem a mudança de comportamento, as sanções, como forma de coerção, fracassam — afirmou Esfandyar Batmanghelidj, da Fundação Bourse & Bazaar, uma organização de pesquisa com sede em Londres. O Irã, que já é alvo de milhares de sanções, provavelmente não se renderá por causa de mais algumas. Segundo analistas, é mais provável que o país responda, com o tempo, intensificando seus ataques a navios no Golfo Pérsico e a aliados dos EUA, o que poderia resultar em mais uma rodada de bombardeios por parte dos EUA. — Washington está apostando que conseguirá, por meio de um estrangulamento econômico mais intenso, o que seis meses de guerra não conseguiram — afirmou Sina Toossi, do Centro de Política Internacional, um centro de estudos de Washington. Washington está tentando fazer isso exigindo o cumprimento das normas internacionais, mesmo enquanto suas relações com grande parte do mundo se tornam cada vez mais coercitivas e transacionais, com mais países optando por ignorar as imposições de Trump. — A capacidade de causar danos ao Irã é evidente. O caminho que leva do sofrimento à capitulação ou ao colapso, porém, não é — disse Toossi. Um impasse arriscado Com os objetivos dos EUA pouco claros, a confusão também é real no Irã, afirmou Ali Vaez, diretor do projeto sobre o Irã do International Crisis Group. Eles se perguntam, disse ele: — Os EUA querem provocar o colapso, a capitulação ou um acordo? Como os líderes do Irã encaram a tentativa de sufocá-los como mais uma forma de guerra, afirmou Vaez, a nova estratégia dos EUA apresenta dois riscos. Se fracassar, a única opção restante será voltar à escalada militar. E, se der certo, poderá levar o Irã a intensificar suas ações para romper o bloqueio naval dos EUA. — Em ambos os casos, isso não vai levar ao que o governo parece querer, que é usar as sanções como alternativa à guerra. É mais provável que seja um prelúdio para mais uma rodada de conflitos militares — disse ele. A nova estratégia de estrangulamento econômico intensificado tem a vantagem de ser gradual e difícil de monitorar, acalmando os ânimos do conflito, o que pode ajudar Trump e os republicanos na reta final para as eleições de meio de mandato de novembro, ao mesmo tempo em que promete que a vitória, na verdade, está logo ali. Mas o impasse também é arriscado, afirmou Ellie Geranmayeh, especialista em Irã do Conselho Europeu de Relações Exteriores. — Há uma percepção cada vez mais forte na Casa Branca de que não é possível negociar com essa República Islâmica. É um momento perigoso, em que tanto Teerã quanto Washington concluem que não é possível chegar a um acordo com a outra parte — disse ela.
Análise: Após seis meses do início da guerra, é difícil disfarçar o claro fracasso dos EUA em subjugar o Irã à sua vontade
Não se espera que a substituição, por parte de Trump, de uma guerra militar por uma guerra econômica mais intensa altere a estratégia do Irã, ao mesmo tempo em que empobrece ainda mais seu povo












