Rubio: Permitir ao Irã controlar o estreito de Ormuz seria 'precedente perigoso'Em Manila, nas Filipinas, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, voltou a acusar o Irã de ameaçar a segurança marítima. Crédito: AKIO WANG / AFPTV FOR AGENCY POOL / AFPGerando resumoEra para ser uma guerra rápida. Ainda assim, seis meses após os EUA e Israel lançarem ataques aéreos massivos contra o Irã, o conflito persiste. PUBLICIDADEAgora, o governo Trump aposta numa guerra econômica contra os aiatolás, mas analistas alertam que o resultado provavelmente não será diferente. A razão para isso, ainda de acordo com eles, são a falta de clareza por parte dos EUA sobre seus objetivos, declínio da credibilidade americana e a derrota estratégica imposta pelo Irã a Washington e Tel-Aviv.A República Islâmica não só sobreviveu, como controla efetivamente o Estreito de Ormuz e fortaleceu sua influência na região. Após seis meses de combates, até mesmo os países alvos dos drones iranianos agora tentam reatar laços com Teerã.Publicidade“A guerra não conseguiu atingir os objetivos dos EUA”, disse a diretora do programa para o Oriente Médio e Norte da África da Chatham House, Sanam Vakil.O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assina ordens executivas em Washington Foto: Jim Watson/AFPSuzanne Maloney, especialista em Irã e chefe de política externa da Brookings Institution, considerou a guerra um fracasso. “Causamos muitos danos ao Irã, mas eles saíram mais fortes do que antes”, disse ela. Os vizinhos do Irã decidiram que precisam encontrar um modus operandi com uma República Islâmica que não vai desaparecer.A credibilidade dos Estados Unidos entre os aliados sofreu um baque, assim como a reputação do próprio Trump, que durante a campanha que o levou de volta à Casa Branca prometeu evitar guerras custosas e intermináveis ​​no Oriente Médio e baratear o custo de vida nos Estados Unidos. Publicidade“Esta guerra realmente tomou conta da presidência de Trump”, disse Maloney.Embarcações são vistas ancoradas no Estreito de Ormuz, ao largo da cidade portuária de Khasab, na Península de Musandam, ao norte de Omã, em 17 de maio de 2026. Foto: AFP/ AFPO regime sobreviveA “Operação Fúria Épica” começou com um ataque surpresa conjunto entre americanos e israelenses ao Irã, que matou o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, e muitos de seus oficiais, além de ferir gravemente seu filho e atual sucessor, Mojtaba Khamenei.Semanas de intensos bombardeios destruíram grande parte da Força Aérea e da Marinha do Irã e prejudicaram gravemente seu programa de mísseis. Mas a população não se revoltou e a liderança não se fragmentou.PublicidadeAs forças armadas iranianas restauraram muitos de seus lançadores de mísseis e atacaram importantes aliados americanos na região, bem como bases americanas, que estavam inadequadamente defendidas. Isso efetivamente bloqueou o Estreito de Ormuz e causou perturbações na economia global.A “Operação Fúria Épica” original foi substituída pelo que o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou na segunda-feira como “Operação de Exílio Econômico”, concebida para isolar ainda mais o Irã e destruir sua economia, gravemente fragilizada pela guerra e sanções ocidentais.O secretário de Tesouro dos EUA, Scott Bessent, discursa na Casa Branca Foto: Tierney L. Cross/NYT“Esta é uma campanha contínua para destruir todas as opções do Irã”, disse Bessent. “A campanha que iniciamos hoje ganhará força a cada dia que se seguir e não terminará até que este regime esteja sozinho.”PublicidadePUBLICIDADEApesar dos floreios retóricos sobre o Dia D e a queda do Muro de Berlim, Bessent não indicou quanto tempo essa guerra econômica irá durar, quais instrumentos serão utilizados ou o que se pretende alcançar.Será que o objetivo americano é, mais uma vez, o colapso do regime? Ou forçar a abertura do Estreito de Ormuz? Ou trazer um Irã mais desesperado de volta à mesa de negociações para alcançar um acordo sustentável tanto para o estreito quanto para o programa nuclear iraniano?“Não há uma definição clara dos objetivos dos Estados Unidos”, disse Esfandyar Batmanghelidj, da Fundação Bourse & Bazaar, uma organização de pesquisa sediada em Londres. “Mas se você não define mudança de comportamento, as sanções como coerção falham.”PublicidadeMulheres iranianas caminham pela orla enquanto embarcações são vistas no Estreito de Ormuz, ao largo da cidade portuária de Bandar Abbas, no sul do Irã, em 10 de agosto de 2026. Foto: Atta Kena/AFPO Irã, já alvo de milhares de sanções, dificilmente cederá por causa de mais algumas. Analistas afirmam que o mais provável é que o país responda a tempo intensificando seus ataques contra navios no Golfo Pérsico e contra aliados americanos, o que poderia resultar em uma nova rodada de bombardeios dos Estados Unidos.Washington aposta que pode alcançar, por meio de um estrangulamento econômico intensificado, o que seis meses de guerra não conseguiram, disse Sina Toossi, do Centro de Política Internacional, um think tank de Washington.“A capacidade de prejudicar o Irã é clara”, disse Toossi. “O caminho da dor à capitulação ou ao colapso, não é.”PublicidadeUm impasse arriscadoCom os objetivos americanos pouco claros, a confusão também é real em Teerã, disse Ali Vaez, diretor do projeto Irã do International Crisis Group. Eles se perguntarão, afirmou: “Os EUA querem alcançar o colapso, a capitulação ou um acordo?”Dado que os líderes iranianos veem o esforço para estrangulá-los como outra forma de guerra, disse Vaez, a nova estratégia americana apresenta dois riscos. Se falhar, a única opção restante será retornar à escalada militar. E se funcionar, poderá levar o Irã a intensificar o conflito para romper o bloqueio naval dos EUA.Saiba mais Na guerra do século 21, o mais fraco pode derrotar o mais forte pela ‘metade do preço’O segredo de uma start-up contra os drones do Irã: interceptadores baratinhos que parecem um LegoMoeda iraniana atinge mínima recorde; EUA preparam novas sanções para ampliar pressão econômica“Em qualquer dos casos, não produzirá o que a administração parece querer, que é usar sanções como alternativa à guerra”, disse ele. “É mais provável que seja um prelúdio para outra rodada de guerra militar.”PublicidadeA liderança iraniana visível ao público, incluindo o presidente Masoud Pezeshkian e Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do parlamento, tem sido franca sobre os imperativos econômicos para o fim da guerra. Eles alertaram para as consequências da fome e do colapso econômico.Apesar disso, adotam uma postura consistente nas negociações com Washington, insistindo, no mínimo, no retorno ao Memorando de Entendimento de junho, assinado pelo Trump, mas que agora considera “encerrado”. Continuam também a negociar com Omã sobre a gestão do estreito de uma forma que Washington provavelmente não aceitará.Mas, por mais que o Irã ceda, existe uma desconfiança generalizada de que Trump cumprirá as promessas de benefícios econômicos e alívio das sanções. Apesar da economia em crise, a liderança parece unida em manter o controle do estreito.PublicidadeO líder supremo, o aiatolá Mojtaba Khamenei, é visto como mais próximo da Guarda Revolucionária Islâmica e menos avesso ao risco do que seu pai.O presidente do Irã, Masoud Pezeshkia, assina um memorando de entendimento para o fim da guerra, no dia 18 de junho Foto: IRIB/AFPGuerra simuladaPor enquanto, a situação está relativamente estática, uma espécie de guerra simulada, sem que nenhum dos lados abra fogo contra o outro e com bloqueios relativamente frouxos no estreito em ambas as direções, permitindo que algum petróleo escape.A nova estratégia de estrangulamento econômico intensificado tem a vantagem de ser gradual e difícil de monitorar, diminuindo a tensão do conflito, o que pode ajudar Trump e os republicanos na corrida para as eleições de meio de mandato de novembro, ao mesmo tempo que promete que a vitória, na verdade, está logo ali.PublicidadeMas o impasse também é arriscado, disse Ellie Geranmayeh, especialista em Irã do Conselho Europeu de Relações Exteriores. “Há uma crescente percepção na Casa Branca de que não se pode negociar com esta República Islâmica”, afirmou. “É um momento perigoso, com Teerã e Washington concluindo que nenhum acordo é possível com o outro lado.”Vale ler tambémAs lições para o Brasil da postura canadense em relação a TrumpPor que Trump está usando vistos de entrada nos EUA como ferramenta de pressão política?Quem está por trás da revolta contra os data centers nos EUA?