Desgaste de investigações preocupa campanha, que modula tom sobre corte de gastos e escala Durigan para conversas com o mercado 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Lula e o ministro da Fazenda, Dario Durigan — Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que a entrevista ao Jornal Nacional expôs que ele se sente sob pressão diante das investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, seu filho, e que evitou se comprometer com o ajuste fiscal em um eventual quarto mandato. Interlocutores próximos a Lula dizem que ele levou adiante na sabatina a estratégia de terceirizar aos ministros da área econômica as conversas que sinalizam uma disposição de corte de gastos. Lula disse na sabatina não se preocupar com a atual trajetória da dívida pública, que já chegou ao patamar de 80% do Produto Interno Bruto (PIB), e a atribuiu a taxas de juros herdadas da antiga gestão do Banco Central, chefiada por Roberto Campos Neto. Apesar da fala de Lula, a taxa básica de juros do início de seu mandato, que estava em 13,75%, é inferior à taxa atual, de 14%. — A mim, não preocupa a dívida pública. Parte dessa dívida é por causa da taxa de juros. Eu entrei e fiquei dois anos com o presidente do Banco Central do Bolsonaro — argumentou Lula. — Quando eu voltei, o país estava destruído. O déficit (primário) era de 2,8% do PIB. No último ano, fizemos 0,8%, e agora vamos fazer superávit primário. Aliados viram equívoco em Lula ao não reconhecer que há um problema fiscal no país. Um interlocutor frequente do presidente afirma que esse é um tema caro aos eleitores indecisos, que estão em disputa nessas eleições e são cobiçados pela campanha petista. Segundo esse político, apesar de o presidente ter destacado o ministro da Fazenda, Dario Durigan, para ser seu porta-voz na área econômica, é preciso que ele próprio dê atenção ao assunto de forma mais incisiva. Ele diz ainda que a campanha não pode pregar só para convertidos e é preciso voltar as atenções para esse eleitor indeciso. Lula, no entanto, ainda resiste em fazer esses movimentos. Integrantes do governo e da campanha ouvidos pelo GLOBO afirmam que, para o grande público, Lula falará sobre o cuidado com as contas públicas do seu jeito: usando o exemplo de economia doméstica adotado pela mãe, dona Lindu, numa tentativa de se conectar diretamente com eleitor, que também sofre com endividamento. Há uma defesa interna da necessidade de um encontro direto de Lula com agentes do mercado e grandes empresários. A agenda está no radar da campanha, mas depende de um aval de Lula para sair do papel. Petistas afirmam que o chefe do Executivo está disposto, nesse momento, a fazer críticas mais fortes sobre a taxa de juros e a adotar a estratégia de comparação com o estado das contas deixado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, especialmente com o calote dos precatórios. Em paralelo, Lula deixará as sinalizações ao mercado a cargo de Dario Durigan, que tem intensificado as reuniões com o mercado financeiro, economistas e formadores de opinião e reforçado as sinalizações de que Lula, em eventual quarto mandato, segurará as contas. Durigan tem reconhecido a necessidade de adoção de medidas para controlar, sobretudo, o crescimento das despesas obrigatórias. Por orientação de Lula, no entanto, tem evitado se comprometer com detalhes das propostas. Na quinta-feira, Lula chegou à entrevista acompanhado de Durigan, considerado hoje um dos principais interlocutores do presidente junto ao mercado, junto com o ministro do Planejamento, Bruno Moretti. Durigan tem se esforçado para deixar claro que há diversas opções em aberto para ajustes e tem indicado a intenção de reduzir o limite de aumento anual de despesas do arcabouço fiscal, atualmente em 2,5%, para algo próximo de 1,5%. Essa proposta, no entanto, incomodou setores do PT e do governo, que temem engessar o Orçamento e colide com o pensamento do coordenador do programa de governo, Sergio Gabrielli, que tem defendido que o aumento da dívida não pode ser "atribuído exclusivamente à suposta irresponsabilidade fiscal", mas sofre influência de juros, "inflação esperada, atividade econômica, liquidez, composição da dívida e percepção de risco". Discurso em teste e deslize com lobista O entorno de Lula reconhece que o petista enfrenta hoje o momento mais delicado na sua campanha, pressionado com as revelações das investigações que citam Lulinha e seu ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. Interlocutores afirmam que Lula testou uma mudança de tom ao ser questionado sobre os dois durante a sabatina do Jornal Nacional, chamando a empresária Roberta Luchsinger de “pilantra” e falando que Marcola cometeu um erro e que é “inadequado” e “totalmente errado” o diálogo dele com a lobista. Lula também afirmou que a Presidência não moverá "um milímetro" para beneficiar o filho. Esses trechos, foram recortados para redes sociais de Lula e estão sendo distribuídos para militância. Num momento, ao tratar das revelações sobre Marcola, Lula se disse “deprimido e chateado” pelo caso, falando que o considerava como quase um filho. Ao mesmo tempo, no entanto, expôs sentimento pessoal de contrariedade com os fatos, chamou de “ilações” as suspeitas envolvendo o filho e disse ter certeza que Lulinha será inocentado. Aliados, no entanto, viram com preocupação a fala de Lula de que não conhece nem nunca esteve com a lobista. A avaliação é que foi um deslize e que nenhum político deve dizer isso, diante do fato que todos estão expostos a eventos públicos, atos de campanha, e que foge do controle de cada um saber com quem esteve ou não. Eles reforçam que o presidente não mantém nenhuma relação de proximidade com Roberta e tampouco tratou temas de governo com ela. Na manhã desta sexta, a campanha do presidente divulgou nota para reforçar essa visão, buscando conter desgaste após a oposição explorar fotografias de Lula com a lobista. "A existência desses registros não significa relação pessoal, profissional ou política", diz o texto.
Aliados veem Lula sob pressão no caso Lulinha e estratégia de terceirizar a ministros debate sobre ajuste fiscal
Desgaste de investigações preocupa campanha, que modula tom sobre corte de gastos e escala Durigan para conversas com o mercado









