Discussão pode ter implicações políticas, pois pode influenciar o tamanho e a velocidade de um eventual ajuste fiscal em um eventual novo governo Lula 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Lula designou Durigan como a pessoa que fala de economia pela sua campanha à reeleição — Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil Enquanto o ministro da Fazenda, Dario Durigan, intensifica suas falas à imprensa e reuniões com o setor privado para sinalizar a intenção de uma maior contenção fiscal em um eventual novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, fervilha dentro do PT o debate sobre quais seriam as razões para a Taxa Selic elevada e a contestação da tese de que a culpa é da gestão das contas públicas pela administração Lula. Mais do que um debate econômico, a discussão pode ter implicações políticas, pois pode influenciar o tamanho e a velocidade de um eventual ajuste fiscal em um eventual novo governo Lula. Durigan tem o respaldo e o mandato do presidente Lula para dar sinalizações de que o governo pretende tirar o pé do acelerador fiscal, se for reeleito. Interlocutores do chefe do Palácio do Planalto confirmam que ele está preocupado com a trajetória da dívida e entende que, pelo menos no início de um próximo governo, precisará adotar medidas mais duras, que, de resto, já estão sendo discutido pela área técnica. Após ousar um pouco mais nas sinalizações – quando, por exemplo, indicou reduzir o ritmo de crescimento do teto de gastos do arcabouço fiscal e debateu possibilidades para conter o gasto previdenciário (o que alguns investidores disseram nos bastidores ter entendido como sinalização de possível desvinculação, mas mantendo reajuste real do salário mínimo) –, Durigan teve que passar a ser mais cauteloso, mesmo nas conversas mais reservadas. A recomendação para ser mais genérico e não falar de números ou medidas mais específicas veio tanto do presidente Lula como do presidente do PT, Edinho Silva. Apesar de apoiar Durigan, é Edinho quem tem que, diariamente, administrar as diferentes posições e demandas do PT. No partido, nas últimas semanas tem tido destaque as posições do coordenador do programa de governo, Sergio Gabrielli, e de figuras históricas do partido, como o ex-ministro José Dirceu, que contestam a tese principal dos investidores, sobre o peso da política fiscal na formação dos juros. Além deles, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, uma figura proeminente do desenvolvimentismo, também reforçou nesse mês os questionamentos à tese de que os gastos públicos estariam por trás da dívida e dos juros altos no país. Depois de Durigan ter vencido a queda de braço para retirar do programa de governo de Lula as "bombas" econômicas de setores petistas, como uma relativização do teto de gastos, Gabrielli divulgou dois textos ressaltando o papel dos juros na escalada da dívida pública nos últimos anos. O primeiro foi logo no dia seguinte ao programa ser protocolado. Assinado pelo economista Antonio Prado, ligado ao partido, o texto analisa o Balanço Geral da União e destaca o papel da Selic na dinâmica fiscal. "Em termos simples: quando o juro que incide sobre a dívida é maior que o crescimento da economia, a dívida cresce sozinha — mesmo sem nenhum gasto novo. Foi o que ocorreu em 2025", diz o documento. Mais recentemente, um texto assinado pelo próprio Gabrielli vai além. "Embora as condições fiscais influenciem a inclinação da curva — especialmente por meio da disciplina fiscal corrente e das expectativas —, a abertura do trecho longo não pode ser atribuída exclusivamente à suposta irresponsabilidade fiscal. Ela resulta da interação entre juros internacionais, inflação esperada, atividade econômica, liquidez, composição da dívida e percepção de risco", disse. Em artigo para a Folha de S. Paulo, José Dirceu, que também é candidato a deputado federal, explicita a disputa em curso: "Sem negar a importância desses fatores (fiscais), considero impossível explicar os nossos juros sem examinar também a singularidade de um sistema financeiro altamente concentrado, de uma dívida pública fortemente sensível à Selic e de uma economia na qual a taxa básica remunera aplicações líquidas, seguras e de curto prazo em condições extremamente vantajosas", disse. Dirceu foi um importante apoiador do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, que deixou Durigan em sua cadeira, na defesa da tese de que era preciso moderar o crescimento das despesas. "A responsabilidade fiscal é necessária, mas insuficiente. A arquitetura monetária e financeira também precisa ser submetida ao debate e à reforma. Os juros brasileiros não são apenas consequência dos nossos problemas: são também uma das suas causas. Romper esse círculo é condição indispensável para o Brasil voltar a crescer, investir e distribuir renda", disse Dirceu no artigo. Essa dissonância de tom entre um ministro da Fazenda que tenta acalmar os mercados e mostrar um caminho de consolidação fiscal mais acelerada e parcelas do petismo não é uma novidade na história da gestão Lula. Mas segue sendo fonte de ruído junto ao mercado, mesmo com o presidente empoderando seu ministro para falar em seu nome, porque há uma percepção de que Lula pode se sensibilizar com esses argumentos. Não seria a primeira vez. Em segmentos do governo, há quem veja que a alma do presidente Lula está muito mais no discurso de Gabrielli/Belluzzo e agora Dirceu do que no da dupla Durigan/Haddad. Mas também há uma percepção de que o presidente é historicamente pragmático e fará o que a conjuntura (política, econômica e internacional) exigir, mesmo que não goste do receituário. Foi assim em vários momentos, inclusive quando topou conter a política de reajuste do salário mínimo, alinhando-a ao teto de gastos, no fim de 2024. Ter empoderado Durigan nesse momento reforça esse sinal de pragmatismo, ainda que ter pedido para ele tomar mais cuidado com o que fala, em meio aos movimentos de setores mais desenvolvimentistas, também evidencia um presidente ainda sem clareza do que efetivamente fará. Como em 2024, as pressões do petismo dificilmente evitarão algum ajuste. Mas podem afetar sua magnitude. É depois das eleições que a disputa vai efetivamente esquentar. Se Lula vencer, claro.