Na Faria Lima, Durigan insiste que, se reeleito, governo promoverá ajuste. Mas não convence 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O ministro da Fazenda, Dario Durigan — Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo O ministro da Fazenda, Dario Durigan, foi destacado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como interlocutor econômico da campanha pela reeleição. Durigan não tem perdido tempo em circular pela Faria Lima para convencer o mercado financeiro das novas credenciais de Lula no campo fiscal, caso seja reeleito. Tem tentado acalmar bancos e gestoras de fundos e se mostrado aberto às críticas. A julgar, porém, pela ansiedade na flutuação de indicadores como dólar, ações e, principalmente, títulos do governo, o fracasso da iniciativa é patente. A conversa de Durigan não convence, porque seus argumentos são frágeis e porque o retrospecto do governo — sobretudo o naufrágio do arcabouço fiscal — se encarrega de apagar qualquer vestígio de credibilidade que ainda pudesse ter. Ele insiste na balela de que Lula foi responsável do ponto de vista fiscal. Afirma que o resultado primário começou com déficit de 2,4% em 2023 e que haverá superávit neste ano. Só esquece a interminável lista de despesas excluídas desse cálculo. A dívida pública já cresceu 8 pontos percentuais do PIB nos primeiros três anos e deverá crescer 10 ao longo de todo o mandato — ante queda de mais de 3 pontos no governo anterior, sobretudo em virtude de fatores conjunturais. Fora da militância petista, poucos acreditam que a política fiscal precisa apenas de pequenos ajustes, como insinua Durigan. Quanto às conversas com economistas, parece evidente que são encenação para acalmar o mercado. Nas duas primeiras semanas de agosto, os investidores estrangeiros retiraram R$ 18,1 bilhões da Bolsa de Valores B3. Entre os motivos, as incertezas sobre o rumo das contas públicas. O governo diz não ver problema de grandes proporções, mas os investidores têm exigido taxas cada vez mais altas para financiar a dívida. O Tesouro tem sido forçado a emitir um volume maior de títulos pós-fixados, indexados à Selic, alimentando o endividamento com a alta do juros — em julho, 49% dos R$ 9,3 trilhões da dívida federal estavam atrelados à Selic, ante 38,3% quando o governo assumiu. A taxa implícita em 12 meses que o investidor exige para emprestar dinheiro ao governo atingiu 13,2%, maior patamar desde novembro de 2016. Ante tal quadro, era de esperar um ataque contundente de Flávio Bolsonaro, candidato da oposição mais bem colocado nas pesquisas. Em reuniões fechadas, ele promete enfrentar o problema fiscal, mas em público não sai de frases de efeito. Em sua proposta econômica, defende uma política baseada na trajetória do endividamento, mas ninguém sabe o que isso significa na prática. Até o momento, os dois principais candidatos presidenciais e seus interlocutores econômicos têm deixado muito a desejar em seus planos para conter a escalada da dívida. A dívida não se tornou problema de uma hora para outra. É construção de vários governos. Mas sob Lula a situação se deteriorou de modo aterrador. E o road show de Durigan tem sido frustrante. Não haverá como o Banco Central reverter o quadro de deterioração no perfil da dívida sem a cooperação do Executivo, transmitindo recados claros de responsabilidade no trato das contas públicas. Esse recado deve vir de quem realmente tem poder de decisão — Lula. Ignorar o assunto na campanha só contribui para aumentar a desconfiança e agravar a situação.