Recentemente, ouvi um especialista em gestão de desastres falar do trabalho nas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. Para explicar a organização das respostas diante do caos, ofereceu uma régua: a relação entre a demanda de uma tragédia e a capacidade estatal de resposta.
Numa crise, o Estado ainda dá conta do recado, pois há mais recursos do que necessidades; numa emergência, capacidade e demanda se aproximam; num desastre, a demanda ultrapassa a capacidade de resposta; e numa catástrofe, a tragédia engole as estruturas de socorro.
A imagem permaneceu comigo, não porque uma enchente e um feminicídio sejam equivalentes, mas porque ainda tratamos cada vítima como uma tempestade inesperada diante de um fenômeno persistente e previsível. Realizada com mais de 21mil brasileiras de 16 anos ou mais em todo o país, a 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, feita pelo DataSenado, escancara esse abismo.
Quando perguntadas diretamente se sofreram violência doméstica no último ano, 4% disseram que sim. Quando se consideram também as respostas a 13 situações concretas, como humilhações, controle do dinheiro, agressão e sexo forçado, e se reúnem os dois grupos sem dupla contagem, chegamos a 33%, uma em cada três brasileiras.







