Duas em cada três mulheres que procuram o sistema de saúde no Brasil após um episódio de violência doméstica relatam já ter sofrido agressões em outras ocasiões. É o que mostra o Atlas da Violência, estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública lançado em maio, com dados referentes a 2024.

Das 186,1 mil vítimas atendidas, 100,8 mil relataram que haviam sofrido ao menos uma agressão anteriormente, o que representa 66,2% dos casos com resposta —33,8 mil não forneceram informação. Evidencia-se que a violência doméstica constitui um ciclo de abusos sucessivos.

É necessário que o poder público fortaleça políticas de prevenção e monitoramento com protocolos de identificação de riscos, tanto no SUS quanto no sistema policial e de Justiça —uma ação inovadora nesse sentido, implantada na Espanha em 2007, foi considerada referência em relatório de 2025 da ONU sobre o tema.

Serviços de saúde e de assistência social, por exemplo, devem dar maior atenção à violência psicológica, por vezes negligenciada como menos grave. Em 2021, foi aprovada a lei que tipifica penalmente essa conduta abusiva contra as mulheres e prevê medidas de afastamento do agressor. Mas a experiência demonstra que normas legais não bastam.