Sempre que surge alguma notícia de violência doméstica, muitos e muitas questionam por que aquela mulher não se separou 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Rosto de Giullia Vel Kos após a agressão do marido, o empresário Ivo Vel Kos — Foto: Acervo pessoal/ Giullia Vel Kos Só uma vez na vida ouvi uma mulher dizer que nunca havia passado por violência de gênero. A convicção não resistiu a meia hora de conversa. Sempre há, ao longo da nossa história, ao menos pequenas agressões que homens só praticam contra nós. Pode ser um namorado controlador, um chefe que se sentiu à vontade para te diminuir, o colega que intimidou, um ex-marido agressivo, o parente que gritou com você, o desconhecido que tentou forçar uma aproximação. Convido você, leitora, a reexaminar o passado ou jogar uma lupa no presente. Em que situações você já sentiu medo, desconforto, pediu socorro ou mediu palavras simplesmente porque estava diante de um homem? No caso da minha amiga, concluímos que ela não era exceção, era apenas distraída. Escancarada ou sutil, a violência perpassa nossa rotina. E, mesmo nessas agressões menores, só nós sabemos quanto é difícil reagir. Por isso, me incomoda muito a cobrança em cima de vítimas de violência doméstica. Sempre que surge alguma notícia desse crime, e infelizmente é todo dia, muitos e muitas questionam por que aquela mulher não denunciou antes, não se separou, não pediu ajuda, por que demorou a se proteger. São perguntas que nem teriam de ser feitas, pois se prestam a jogar desconfiança e responsabilidade em cima de quem sofreu um crime. Mas, respondendo: mulheres ficam porque têm medo, porque acreditam em mudança e porque são criadas para ficar. Nossa cultura reforça o tempo todo a ideia de que mulheres precisam de um homem para ser valorizadas. E que são as responsáveis pelo bem-estar de todos. Essas crenças as levam a permanecer em relacionamentos violentos porque acreditam poder mudar aquele homem, ser dever delas manter a família unida, que não serão ninguém se estiverem sozinhas. E que, se algo deu errado, a culpa é delas. As estatísticas sobre violência doméstica apontam que as vítimas estão principalmente entre mulheres mais pobres e de baixa escolaridade, mas dependência financeira e falta de conhecimento não explicam tudo. Há um mundo de mulheres esclarecidas, de classe média ou alta, bem-sucedidas, aprisionadas em relacionamentos em que sofrem violência verbal, psicológica, física. Depois que comecei a escrever sobre esse tema, recebi alguns telefonemas de amigas próximas relatando casamentos abusivos. E eu, ali perto, nem imaginava. Denunciar aparece para elas como possibilidade distante. Até porque, nesses casos, isso implicaria ir contra homens também ricos e influentes. Adivinha onde está o lado mais fraco dessa corda? Num caso recente ilustrativo, o empresário Ivo Kos, conhecido no mercado financeiro de São Paulo, agrediu violentamente a esposa. A dentista Giulia Falcão surgiu em reportagens com o rosto desfigurado e relatou o inferno em que vivia. A polícia investiga agora crimes de violência física, sexual e patrimonial cometidos ao longo de dois anos de casamento. Imagens de câmeras de segurança mostram Ivo agredindo Giulia na calçada em frente à casa onde moravam, num bairro nobre. No canto da imagem, um segurança da rua assiste sem interferir. Ivo tenta levar a então esposa pelo braço, ela resiste. Nesse momento o segurança se aproxima, mas não para socorrê-la. Ele prontamente segue as orientações do criminoso, segura Giulia pelo outro braço e ajuda o agressor a levá-la para dentro de casa, onde a violência continuou. Foi isso que aconteceu quando ela pediu ajuda. Para completar, após a repercussão da notícia, Giulia foi acusada de ser uma interesseira, que se casou por dinheiro. Atacar a reputação e os valores da mulher é muito comum, como se isso liberasse um homem para cometer um crime cruel. Chega a esse ponto a tentativa de jogar a culpa em cima da vítima. Mais uma vez, não é só por ignorância. A Ordem dos Advogados do Brasil abriu investigação contra advogados que produziram vídeos para redes sociais ridicularizando mulheres que voltaram atrás em pedidos de medida protetiva. Profissionais, familiarizados com as pressões e os mecanismos que atingem uma mulher quando ela denuncia um companheiro ou ex-companheiro, ironizavam suas clientes. E, mesmo quando uma vítima resiste a tudo isso, quando pede separação, medida protetiva, vai à Justiça, ainda haverá alguém para dizer que a culpa é dela porque escolheu mal o homem por quem se apaixonar. Giulia conta que, dentro de casa, Ivo a perseguiu armado com um taco de beisebol enquanto ela gritava pedindo... desculpas. Julgar a vítima é o mesmo que facilitar a vida do agressor. Já passou da hora de mudar nossa forma de enxergar a violência contra a mulher.
Precisamos parar de julgar as vítimas
Sempre que surge alguma notícia de violência doméstica, muitos e muitas questionam por que aquela mulher não se separou







