Para seis em dez brasileiros, ele é o que há de mais grave na criminalidade, revelou pesquisa Mulher vítima de violência no Rio — Foto: Beatriz Orle/Agência O Globo/14/06/2024 Seis em dez brasileiros consideram as agressões contra mulheres o crime mais grave do país. Despertam bem mais preocupação que tráfico de drogas (16%) ou assalto à mão armada (10%), de acordo com pesquisa Datafolha em parceria com o Movimento Mulher 360. A percepção da população deveria guiar os esforços das autoridades para enfrentar a questão com novo ímpeto e estratégia renovada. Embora tanto mulheres como homens tenham identificado o problema como o maior, a média geral encobre diferenças. Enquanto 73% delas disseram que a violência contra mulheres é a questão mais grave, 49% dos homens escolheram essa alternativa. Para mais de 80% — tanto de mulheres quanto de homens —, o problema aumentou no último ano. Ambos os gêneros mostram conhecer as leis de proteção à mulher. A Lei Maria da Penha é conhecida por 97% de homens e mulheres, a Lei do Feminicídio por 87% das mulheres e 85% dos homens, e a Lei da Importunação Sexual por 80% dos dois gêneros. Não parece haver, portanto, deficiência nas campanhas de divulgação. A legislação, porém, não tem sido suficiente para aumentar de forma significativa a percepção de segurança. Apenas 34% das mulheres consideram que a Maria da Penha tenha contribuído significativamente para punir casos de violência. O levantamento não elucida se o problema está na legislação ou na sua aplicação, mas uma resposta dá pistas. Apenas 19% das mulheres dizem confiar muito na polícia para a sua proteção, ante 31% dos homens. Isso não quer dizer que as forças policiais não sejam acionadas. Das mulheres que sofreram agressão grave nos últimos 12 meses, 51% fizeram denúncia numa Delegacia da Mulher ou delegacia comum, ligaram para o 190 ou 180, ou procuraram ajuda policial on-line. O problema não parece ser a falta de canais, mas de confiança. Há virtual unanimidade entre mulheres e homens sobre a necessidade de a igualdade de gêneros ser tema obrigatório nas escolas. Quase 90% concordam que crianças e jovens devem aprender como identificar e prevenir violência doméstica, participar de dinâmicas sobre o respeito mútuo a meninos e meninas e aprender que homens e mulheres têm a mesma importância e direitos na sociedade. Apesar dos avanços registrados nas últimas duas décadas, a pesquisa mostra que há muito mais por fazer. “A população relativiza comportamentos que sustentam a violência de gênero. Raramente o crime começa com uma agressão física”, diz Margareth Goldenberg, diretora executiva do Movimento Mulher 360. Para 63% dos homens e 50% das mulheres, não é violência contra a mulher um marido pedir as senhas das redes sociais dela e exigir que mostre suas conversas. Também não é considerado violência, para 72% dos homens e 53% das mulheres, o namorado exigir que a namorada vista outra roupa antes de sair para jantar sob a justificativa de que as pessoas não a respeitarão na rua. A mudança de mentalidade, constata a pesquisa, não acompanhou o avanço das leis.