0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Pesquisa mostra que cerca de 29 milhões de brasileiras que vivenciaram situações concretas de violência doméstica ou familiar em apenas 12 meses — uma em cada três mulheres de 16 anos ou mais. No — Foto: Agência O Globo Quanto custa para o Brasil a violência contra as mulheres? A resposta ainda não está completamente calculada, mas a nova Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher indica que a conta é muito maior do que sugerem os registros oficiais. São cerca de 29 milhões de brasileiras que vivenciaram situações concretas de violência doméstica ou familiar em apenas 12 meses — uma em cada três mulheres de 16 anos ou mais. No entanto, 26,84 milhões dessas mulheres (87%) não perceberam ou não declararam ter sofrido violência, apesar de relatarem situações objetivas de agressão. O impacto não se restringe à tragédia da vida privada: ele pode significar perda de renda, afastamento do trabalho, adoecimento, interrupção de estudos e carreiras, além de custos transferidos para empresas, famílias e serviços públicos. Esta é a décima primeira edição do levantamento, resultado de uma parceria entre o Senado Federal, representado pelo Observatório da Mulher e pelo DataSenado, o Instituto Natura e a Gênero e Número. Realizada pela primeira vez há exatos 20 anos, a pesquisa mostra a enorme distância entre a realidade captada pelos registros administrativos da segurança pública, saúde, Justiça e assistência social e a realidade vivida pelas mulheres brasileiras. O desafio, agora, dizem os especialistas, é transformar essa dimensão econômica em uma variável visível nas decisões de Estado. Não para reduzir a violência a uma questão de produtividade ou PIB, mas para mostrar que prevenir, proteger e atender mulheres também é uma política de desenvolvimento. — Proteger as mulheres também é uma questão econômica, mas não porque a dignidade ou a vida de uma mulher precisem ser justificadas por sua contribuição ao PIB. Dimensionar os custos ajuda a demonstrar a escala coletiva do problema e a disputar prioridade política e orçamentária. O próprio PIB, porém, alcança apenas uma parte desses efeitos: ele não mede adequadamente o medo, o adoecimento, o tempo subtraído, a liberdade restringida, o trabalho de cuidado transferido a outras pessoas nem os projetos de vida interrompidos. O impacto econômico é uma dimensão decisiva da violência, mas não esgota seu custo humano e social. Dimensionar esse impacto contribui, portanto, não apenas para calcular perdas, mas para demonstrar que investir em prevenção, proteção e atendimento é parte da infraestrutura social e econômica necessária ao desenvolvimento do país — destaca Beatriz Accioly, gerente de políticas públicas do Instituto Natura e antropóloga. Henrique Varanda, coordenador do DataSenado, chama atenção para o fato de que 12% das mulheres desempregadas declararam ter sofrido violência no ano anterior à pesquisa, contra 4% entre as mulheres ocupadas. — O levantamento não permite estabelecer em qual direção opera essa relação, e seria irresponsável fazê-lo. Ele permite afirmar, porém, que violência e inserção no mercado de trabalho não podem ser tratadas como agendas separadas. A violência pode desorganizar uma trajetória profissional, enquanto a ausência de trabalho restringe as condições materiais de proteção — destaca Varanda. Varanda pontua ainda que os dados mostram uma associação importante com a desigualdade material: 66% das mulheres que já sofreram violência doméstica ou familiar vivem em famílias com renda de até dois salários mínimos, ante 56% das mulheres brasileiras em geral. Ao mesmo tempo, 64% das vítimas afirmam conseguir se sustentar com o próprio dinheiro, praticamente o mesmo percentual observado entre todas as mulheres, de 65%. — Renda própria amplia possibilidades concretas, mas não funciona como escudo contra a violência. Por isso, a resposta precisa articular trabalho e renda com moradia, cuidado, saúde, assistência social, avaliação de risco e proteção, sem transferir para a mulher a responsabilidade de resolver sozinha uma violência que o Estado deveria enfrentar — avalia o coordenador do DataSenado. Maria Slemenson, superintendente do Instituto Natura Brasil, afirma que a violência contra as mulheres não é um conjunto de episódios isolados nem um problema de ordem pessoal. É um fenômeno social e relacional sustentado por desigualdades de gênero, raça e renda, pela naturalização de práticas de controle e por novas formas de vigilância, perseguição e exposição, inclusive nos ambientes digitais. — Quando dimensionamos o impacto econômico desse problema social, tornamos visível algo que permaneceu por muito tempo confinado à esfera privada: a violência não afeta apenas a vida de quem a sofre. Ela produz consequências para as famílias, as empresas, os serviços públicos e o desenvolvimento do país. Isso ajuda a evidenciar que estamos diante de um problema de Estado, que exige planejamento, orçamento e políticas públicas proporcionais à sua dimensão. O impacto econômico não se resume ao dia de trabalho perdido. A violência pode provocar afastamentos, adoecimento, queda de rendimentos, perda de oportunidades, abandono dos estudos e interrupção de trajetórias profissionais construídas ao longo de anos. Seus efeitos podem permanecer mesmo depois que a situação mais imediata de violência termina. Maria destaca que esses custos também não recaem exclusivamente sobre as mulheres. Eles são redistribuídos entre familiares e redes de apoio, que frequentemente assumem trabalho de cuidado não remunerado; empresas, que lidam com afastamentos e perda de profissionais; e diferentes áreas do Estado, como saúde, segurança pública, assistência social e Justiça. Reforçando o que pontua Varanda, a superintendente do Instituto Natura ressalta ainda a relação entre violência e desigualdade. — Há ainda uma relação circular entre violência e desigualdade. Desigualdades econômicas podem restringir as alternativas disponíveis para uma mulher, mas renda própria não funciona como proteção automática contra a violência. Ao mesmo tempo, a violência reduz a capacidade de trabalhar, estudar, acumular patrimônio e construir autonomia, aprofundando desigualdades que já existiam e podendo produzir efeitos sobre outras gerações. Em 58% dos casos de violência declarada no último ano, a situação já se prolongava havia mais de doze meses. Estamos falando, portanto, de um choque persistente sobre a vida das mulheres e das famílias, não de um evento econômico pontual. A pesquisa também mostra que 71% das agressões ocorreram na presença de outras pessoas e que, entre as agressões presenciadas, sete em cada dez tiveram ao menos uma criança como testemunha. Em 79% desses casos, eram filhos ou filhas da mulher agredida. — O levantamento não calcula o efeito sobre essas crianças, mas mostra por que qualquer estimativa que se encerre na produtividade atual da vítima será necessariamente incompleta: o custo também alcança saúde, educação, cuidado e a formação da próxima geração — acrescenta Varanda. Na avaliação de Beatriz, dimensionar o impacto econômico serve para corrigir essa distorção. — Antes de colocar preço na violência, precisamos garantir que o cálculo consiga enxergar as mulheres que a vivem. A subnotificação não reduz o custo; apenas o torna invisível para o planejamento e para o orçamento — conclui.
A conta invisível da violência contra as mulheres no Brasil
A conta invisível da violência contra as mulheres no Brasil








