PUBLICIDADE Foram 1.571 mulheres mortas em razão de sua condição de gênero, alta de 4% em relação ao ano anterior, segundo novo Anuário Brasileiro de Segurança Pública; lar é local de maior risco para brasileiras 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Mulheres levantam cartazes em ato contra feminicídios em São Paulo — Foto: Nelson Almeida/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 21/07/2026 - 17:07 Brasil registra recorde de feminicídios em 2025, aumento de 4% Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios da década, com 1.571 mulheres assassinadas, um aumento de 4% em relação a 2024, conforme o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. A maioria dos casos ocorreu em casa, e os agressores são frequentemente parceiros ou ex-parceiros. Apesar de medidas protetivas, o descumprimento dessas cresce, revelando falhas na proteção estatal. Mulheres negras são as principais vítimas, e a faixa etária mais afetada é de 25 a 29 anos. A violência de gênero continua em expansão, com aumentos significativos em crimes como stalking e violência psicológica. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O Brasil vive um paradoxo na segurança pública: enquanto o número total de mortes violentas recua, o feminicídio alcançou o maior patamar da última década. Foram 1.571 mulheres mortas em razão de sua condição de gênero em 2025, uma alta de 4% em relação ao ano anterior. Os dados inéditos estão no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, lançado na manhã desta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O salto é superior à média de crescimento de feminicídios registrada nos últimos anos, de 1%. Para a diretora executiva do Fórum, Samira Bueno, não se trata de um acaso estatístico. Os números refletem uma reação cultural violenta contra a autonomia feminina, alimentada por discursos misóginos em redes sociais e que naturalizam a submissão e, em última instância, as agressões. — Os três fatores que mais influenciam esse aumento são: esse “backlash” recente, esse ambiente da machosfera e o desinvestimento em políticas públicas voltadas para a prevenção desses casos — afirma Samira. A violência letal contra a mulher dentro de casa tem uma dinâmica própria, e resiste às políticas que têm reduzido a violência nas ruas. A residência permanece como o local mais perigoso para as mulheres (62,5% dos crimes). Os dados revelam que o agressor é quase sempre alguém do círculo íntimo da vítima: na maioria (79,8%) dos casos identificados, o autor era o parceiro ou ex-parceiro. Diferente de outros homicídios, o feminicídio usa predominantemente a arma branca (50,8%), um instrumento doméstico que reflete a proximidade física e a brutalidade das relações de posse. A desigualdade racial é uma marca estruturante da violência, segundo o levantamento. Mulheres negras representam boa parte (65,1%) das vítimas. Além do recorte racial, o risco é maior na entrada da vida adulta, com o pico (17,2%) de registros concentrado entre mulheres de 25 a 29 anos. O feminicídio raramente é um episódio isolado. Costuma ser o desfecho de uma escalada de abusos que as polícias registram diariamente. Para cada morte consumada em 2025, o país contabilizou, em média, 502 ameaças, 182 agressões físicas e 79 casos de perseguição (stalking). Crimes como o stalking e a violência psicológica tiveram altas expressivas de 30,1% e 16,9%, respectivamente, e isso evidencia que a base da pirâmide da violência de gênero continua em expansão. Medidas que não protegem Um dos dados mais alarmantes desta edição é a falha na rede de proteção: uma em cada nove mulheres assassinadas (8,8%) já possuía medida protetiva ativa no momento da morte. Ao mesmo tempo, os registros de descumprimento de medidas protetivas cresceram (16,7%) e foram o único indicador a subir em todas as 27 unidades da federação. Isso demonstra que o Estado, embora tenha formalizado o compromisso de proteger essas mulheres, falha em conter o agressor após a denúncia. O cenário de desproteção é agravado pela descontinuidade sistemática das políticas voltadas ao tema. Segundo Samira, há um abismo entre a efervescência de novas leis no Congresso e a falta de recursos humanos e financeiros para aplicá-las na ponta, o que resulta no esvaziamento de secretarias e delegacias especializadas. — A gente não faz política pública com vontade, a gente faz política pública com recurso. Recurso humano, recurso financeiro. Então, se não tem dinheiro, se não tem gente, fica muito difícil você ter uma rede de atendimento que seja capaz de recepcionar essas mulheres — avalia. Pela primeira vez desde a pandemia, os registros de estupro apresentaram queda de 5,4%, totalizando 84.388 casos. No entanto, os pesquisadores alertam para a cautela na comemoração desse dado. A estatística pode refletir apenas a diminuição na capacidade de denúncia, e não necessariamente uma redução real da violência sexual, que permanece marcada por subnotificação crônica.