A cobertura da recuperação judicial de gigantes do varejo brasileiro é complicada. São temas áridos tratados com frequência também em termos áridos, apesar de essas lojas e marcas fazerem parte do cotidiano de milhões de pessoas. A clareza é rara, e a mensagem passada aos pedaços não faz bem.

Na última semana, um editorial da Folha colocou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nominalmente na história da Casas Bahia e da Marabraz, ambas enroladas sobretudo por mérito próprio: "Casas Bahia e Lojas Marabraz pedem recuperação judicial; política de gastos de Lula agrava os problemas", afirmava o subtítulo.

Independentemente de opinião, cujo teor não cabe discutir neste espaço, o jornal estabeleceu uma associação factual bastante simplista, a ponto de flertar com a desinformação. Apesar de o texto reconhecer que "transformações do mercado, bem como deficiências de gestão ou estratégia comercial e disputas societárias, têm papel relevante nas crises", o destaque desmesurado ao presidente como fator agravante fazia mal ao argumento.

Por mais desastrosa que seja a condução fiscal do país, e aqui não se nega que haja problemas nela, os casos específicos da Casas Bahia e Marabraz vão bem além dos juros catapultados pelo gasto irresponsável e pelo parlamentarismo orçamentário. O texto não esconde as variáveis da história, mas o destaque nesses termos ("política… de Lula agrava os problemas"), em plena campanha eleitoral, soa ou ingênuo demais ou publicitário demais diante das árvores de erros das varejistas (e de efeitos avassaladores como os das bets).