Saímos de um mundo que mentia para preservar seus ideais e entramos em outro que dispensou os ideais para não precisar mentir 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cinismo dispensa as máscaras sociais — Foto: Creative Commons Não tenho filhos, mas sou fissurado na maneira como meus amigos criam os seus. Os dilemas da parentalidade revelam os dramas pessoais de cada pai e mãe, mas também nos dão pistas sobre o espírito do tempo e para onde o mundo parece caminhar. Semana passada, preso em um engarrafamento em São Paulo, resolvi perguntar a um amigo próximo como andavam seus rebentos. Ele é pai de um adolescente de 15 anos e de um garoto de 5. Os dez anos que separam os dois são maiores do que uma década. Aos olhos do pai, lembram um abismo. Há tempos, o mais velho colocou de lado a ideia de que a adolescência é uma porta de entrada para a juventude. Sem pestanejar, faz de tudo para fazer do período a primeira fase da adultez. Fez do frigobar a geladeira oficial do seu mundo; das paredes do quarto, um bunker; da tela do celular, a janela para o mundo. E batalha, centímetro a centímetro, por demarcar sua autonomia e independência frente à família. Aos poucos, os pais já aceitaram que o velho mantra repetido pelos mais velhos de outrora — “você só mandará na sua vida depois de sair de casa e pagar as próprias contas” — caiu em desuso. O mais novo causa outro tipo de desconforto para a família. Ele lembra o lendário Seu Saraiva do “Zorra Total” por conta da tolerância zero a qualquer pergunta que lhe pareça burra, sem sentido, e tem horror às convenções sociais. Mesmo sem o pleno domínio das camadas da língua, vai do literal ao cinismo com maestria e desafia a ideia que tínhamos sobre o que é a infância. Quando os adultos sugerem brincar com um coleguinha do clube, sério, sem arroubos de fúria, ele se nega e justifica: “Por que eu tenho que brincar com ele se não gosto dele?” Os adultos sorriem amarelo. Ele insiste: “Por quê?” E, se por acaso alguém repreender algum dos seus comportamentos, ele insiste em fazer. Diante da bronca, se justifica, com plena consciência do erro: “Eu fiz porque me deu muita vontade de fazer.” Meu amigo contou a cena rindo, daquele riso meio orgulhoso e meio assustado, típico dos pais diante das idiossincrasias dos filhos. E eu fiquei pensando, ali parado na Marginal, que os dez anos entre os dois meninos talvez não sejam abismo nenhum. Um antecipa a autonomia, o outro dispensa a diplomacia. Vistos juntos, eles não parecem duas fases da vida. Parecem dois dialetos de uma língua nova que a gente ainda está aprendendo a ouvir. Em “Eu mereço!: da velha hipocrisia aos novos cinismos”, a antropóloga Paula Sibilia mostra como vivíamos em um solo moral da hipocrisia e, agora, temos de conviver também com o cinismo. O hipócrita reconhece a validade pública da regra e faz o esforço de guardar as aparências. O cínico conhece a mesma regra, enxerga suas contradições, e simplesmente não vê mais razão para fingir. Assume o interesse próprio em voz alta e converte tudo em prova de autenticidade. Saímos de um mundo que mentia para preservar seus ideais e entramos em outro que dispensou os ideais para não precisar mentir. O sinal abriu, meu amigo engatou a primeira e mudou de assunto. Fiquei com a impressão de que aqueles dois meninos, cada um do seu jeito, já sabem de algo que a gente ainda finge não saber. Não estão só preparados para o mundo que vem. Estão é impacientes com o que ficou.